‘Tropa de Elite 2’ provoca curiosidade da imprensa estrangeira sobre o Rio

Convidados para assistir ao filme e entrevistar José Padilha, correspondentes só queriam saber se o que viram na tela é verdade

José Padilha critica os candidatos à presidência: “Um instituto de pesquisa mostrou recentemente que a maior preocupação do brasileiro é com a segurança, mas não vi nenhum dos candidatos a presidente apresentarem propostas para a segurança pública. Eles não têm o que falar”

Violência, tráfico e pirataria. Esses foram os temas que dominaram a entrevista que se seguiu à sessão especial de Tropa de Elite 2 para a imprensa estrangeira, nesta quinta-feira. Os 15 jornalistas que compareceram à sessão crivaram o diretor José Padilha de perguntas, poucas sobre o filme, a maioria sobre a realidade que ele retrata. Tom Philips, do inglês The Guardian, perguntou se a intenção do Padilha com o filme é provocar uma mudança na situação da segurança no Brasil. Chris Gaffney, do também inglês Independent Daily, quis saber se o coronel Nascimento, vivido por Wagner Moura, estava mais direitista ou mais esquerdista. Repórteres de Portugal perguntavam insistentemente se a imagem de um Rio de Janeiro violento e corrupto não poderia interferir negativamente no turismo brasileiro, justamente no momento mais promissor, com a realização da Copa do Mundo de 2014.

Padilha respondeu a todos, ajudado em alguns momentos por Wagner, e sempre muito cuidadoso. Sobre a posição de Nascimento, foi especialmente cauteloso. Para evitar ruídos na tradução, respondeu em inglês – apesar de a pergunta ter sido feita em português. “É difícil responder isto. No Brasil dizem que a Dilma é de esquerda e que o Serra está mais para a direita, e não acho que o Nascimento tenha a ver com nenhum dos dois. Ele não está pendendo mais para nenhum lado. Está mais maduro, isso sim”, disse.

A pergunta de Gaffney mereceu uma resposta longa. Padilha reafirmou não acha que seu trabalho tenha o poder de mudar a realidade, mas gostaria que fosse assim, porque a segurança não tem no Brasil a atenção que deveria ter. “Um instituto de pesquisa mostrou recentemente que a maior preocupação do brasileiro é com a segurança, mas não vi nenhum dos candidatos a presidente apresentarem propostas para a segurança pública. Eles não têm o que falar. O Serra porque é representante do governo FHC que esteve aí por oito anos e não melhorou nada nesse sentido. A Dilma só fala de UPPs que não é um projeto dela, mas sim do governo local do Rio”, respondeu Padilha.

Aos jornalistas portugueses, o diretor de Tropa disse que seu compromisso é “com as pessoas que vão assistir ao filme, não com o turismo”, e foi ajudado por Wagner Moura, que complementou explicando que o filme retrata a realidade brasileira porque Padilha é documentarista. “Aqui dentro o filme tem a identificação do brasileiro que conhece este quadro, mas lá fora pode provocar perplexidade”, respondeu o ator.

Conflitos humanos – O cineasta alemão Wim Wenders entrou em cena, citado por Padilha, quando Alberto Armendáriz, do argentino La Nación, perguntou se o fato de o filme retratar uma realidade regional poderia atrapalhar sua compreensão nas plateias internacionais. “Wim Wenders diz que só faz filmes que podem ser feitos em um único lugar. O filme que eu faço em Berlim é muito mais universal do que o filme que eu posso fazer em qualquer lugar”, citou Padilha, concluindo que, para ele, “filme bom e de interesse global é o que aborda os conflitos humanos”.

Pirataria – Outro tema espinhoso foi a pirataria, mas Padilha liquidou o assunto rapidamente. “Olha, chegaram às minhas mãos cinco filmes piratas, quando fui ver eram todos Tropa de Elite 1. Até agora o esquema foi seguro. Mas vamos deixar de falar de pirataria e falar de cinema que é muito mais gostoso.”

Como um bom coronel, Wagner Moura fez questão de dar a palavra final, ao questionar àqueles que afirmaram saber da existência de cópias ilegais do filme. “Saber que alguém viu é uma coisa, ter visto de verdade é completamente diferente. Alguém aqui viu o filme antes de hoje?”, desafiou o ator.

Com bom humor o cantor Seu Jorge, que faz o papel do traficante Beirada, comentou que dessa vez seria diferente, mas que o Topa de Elite 1 ele tinha visto da mesma maneira que o resto dos espectadores. “Vi no mesmo lugar que todo mundo. Você sabe como é a curiosidade, né?”, encerrou a questão, arrancando risos gerais.