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Tim Burton retorna à fantasia macabra com ‘Crianças Peculiares’

Cineasta recupera boa forma no cinema usando seus elementos favoritos: jovens diferentões e stop-motion com tons de terror

Muitos elementos curiosos rondam O Lar das Crianças Peculiares. Para começar, a trama, tema do livro O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares (Leya), nasceu de uma coleção de fotos antigas bizarras, garimpadas pelo autor Ransom Riggs. As imagens vão desde uma solitária criança vestida de coelho, cabisbaixa na calçada, até uma garota flutuando e um menino aparentemente sem cabeça. A partir das fotos, Riggs imaginou uma história de fantasia macabra para o público infantojuvenil, composta por três livros que já venderam mais de 6 milhões de cópias no mundo.

Tim Burton, um amante do estapafúrdio, logo se encantou pela série, que, como já disse o próprio, poderia ter sido escrita por ele. O diretor então tomou emprestado o primeiro livro da trilogia para a adaptação que chega aos cinemas nesta quinta-feira. Ele segue à risca os principais elementos criados por Riggs, mas se vale da experiência para melhorar momentos truncados do livro. Mudanças, aliás, muito bem-vindas.

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Asa Butterfield (de Hugo Cabret e O Menino do Pijama Listrado) interpreta Jake, um adolescente que tenta superar o trauma da morte do avô (Terence Stamp). Encorajado pela psicóloga, e acompanhado do pai (Chris O’Dowd), o jovem vai até uma nebulosa ilha do País de Gales procurar o orfanato onde o familiar cresceu durante a Segunda Guerra. O local era apresentado pelo avô como um lugar mágico, onde as crianças macabras (as mesmas das fotos) viviam felizes e protegidas de seres horripilantes com tentáculos na boca. Uma possível metáfora entre monstros e pessoas diferentes, nazistas e judeus.

Jake se decepciona ao chegar ao antigo orfanato e encontrar apenas ruínas. O desapontamento não dura muito. Logo ele cruza com as mesmas crianças das histórias de ninar. Elas o conduzem a uma caverna que serve como portal para o passado. Mais especificamente o dia 3 de setembro de 1943. A data se repete, dia após dia, em um looping constante, que preserva a juventude do grupo que ali vive, além de escondê-los dos tais monstrengos.

A trupe juvenil é adorável e exótica, especialmente Emma (Ella Purnell), uma adolescente quase albina, que precisa de sapatos de chumbo ou uma corda na cintura para não sair flutuando sem rumo por aí. No elenco adulto destacam-se Samuel L. Jackson, como o vilão Barron, e Eva Green, nova musa de Burton, na pele da senhorita Alma LeFay Peregrine. Completam o elenco seres feitos em animação stop-motion, como bonecos com facas no lugar de braços e um exército de esqueletos. Tudo dentro do padrão terror infantil característico do diretor.

Se o cineasta ajudou a melhorar o livro, em contrapartida, Crianças Peculiares serviu para colocar Burton de volta aos trilhos. Desde A Noiva Cadáver, em 2005, o diretor consagrado por títulos como Edward Mãos de Tesoura e Os Fantasmas se Divertem penava para fazer um filme com seu charme burlesco. Finalmente, ele conseguiu.

Apesar de não bater os melhores longas do currículo do cineasta, O Lar das Crianças Peculiares é uma divertida e assustadora aventura, com estética impecável e ação sob medida. Se Burton fosse o encarregado de um filme dos X-Men, o resultado seria próximo disso. Mas em vez de visão raio-x ou o poder de controlar mentes, os pequenos heróis do filme criam abelhas dentro de si, são mais leves que o ar ou possuem uma boca assustadora na nuca. Pesadelos coloridos e peculiares podem ser efeitos colaterais da produção.