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Thiago Espírito Santo de malas prontas para os EUA

Por Roger Marzochi

São Paulo – O músico Thiago Espírito Santo embarca em agosto para os Estados Unidos para gravar um disco de bebop com professores da Berklee College of Music, em Boston, que será lançado em abril de 2012 no Brasil. Poderia ser uma ótima notícia. Mas não é tanto assim. “Lá eu vou gravar duas músicas minhas, algumas do Jim (Stinnett, contrabaixista e professor da escola americana) e standards de jazz do Miles Davis(trompetista) e do John Coltrane (saxofonista), que é uma coisa padrão. Quando alguém novo, quando algum artista novo aparece, grava uma música que eles já conhecem…”, explica.

Engraçado. Aos 31 anos, Thiago é um menino especial. Ele acaba de lançar “Na Cara do Gol”, o seu terceiro disco só com composições autorais, com variações jazzísticas de samba, baião e até uma progressão da era de aquário com inspiração na banda Weather Report. Filho do guitarrista Arismar do Espírito Santo, Thiago começou a estudar violão aos 11 anos, mas seguiu carreira no contrabaixo. E ainda toca piano e bateria, como o pai. E, além de contrabaixo em algumas faixas do novo disco, Thiago resolveu levar para o estúdio – e para o palco no show na semana passada no Sesc Pompeia – , a guitarra. E o Arismar é fogo. Tocar guitarra sendo filho de guitarrista da pesada deve rolar aquele drama inicial com o qual se deparou Maria Rita quando começou a cantar, enquanto a crítica relembrava na sua voz a saudade da mãe Elis.

Sem querer ser do contra. Sem criticar os mestres Miles e Coltrane. Sarava Ornette Coleman! E que saudade do Charles Mingus, do Coleman Hawkins e do Charlie Parker. E do Wayne Shorter e Marcus Miller, que acabaram de passar por São Paulo e Rio no BMW Jazz Festival. E do Pixinguinha, do Cartola e do Garoto. E do Hermeto Pascoal em sua genial humanidade. Mas há quem na Terra precise ouvir o menino Thiago tocar standards para reconhecer nele um grande músico? E o melhor, não só ele. Na banda estão o baterista Sérgio Machado, 28 anos, filho de Filó Machado; o pianista Fábio Leandro, 25 anos; o saxofonista e flautista João Paulo Barbosa, o JP, de 27 anos; e o baixista Carlinhos Noronha, esse já quase quarentão, mas é menino como todo músico.

Está no condomínio – “Na Cara do Gol” começa com a incrível “Três Santos”, que até parece uma homenagem ao pai Arismar e sugere trocadilhos com a santíssima trindade: “pai, filho e música”. Talvez algo mais! Menos, menos. Ele é simples e pede para a reportagem ficar sossegada: “Eu morava em São Paulo. Casei e fui para São Bernardo do Campo. E essa foi a primeira música que compus na casa nova. E o nome do prédio é Três Santos (risos).” Só isso.

É questionável, não pode ser só isso. A segunda música chama-se “Rumos”. Mais uma vez, refresco. Ele fez esse som em 2003, na mesma época que escreveu “Fuá”, a quinta faixa, e que ficaram guardadas na gaveta. “Eu ouvia muito Hermeto nessa época”, explica. “Aquariando” é também uma das antigas. “Quando eu ouvia muito Weather Report. Mas era uma valsa. Tem improvisação no final e, como no disco, queria mostrar mais o meu lado compositor, ressaltando arranjos, nem todas as faixas têm improviso.”

E tem música recente, como “Rosa”, a quarta faixa. E as músicas “Saci de Patinete” e “JP”, que nasceram quando o músico estava ministrando oficinas musicais em Curitiba. Já “Vale do Sul” surgiu de improviso numa aula em Blumenau. “Eu perguntei aos alunos se tocaríamos uma música conhecida ou se poderíamos improvisar algo novo. E saíram essas músicas.”

Também foi assim que Thiago chamou a atenção dos gringos. Ele deu aulas de improvisação de bebop durante o New Hampshire Bass Festival, em Manchester, nos Estados Unidos, entre os dias 15 e 18 de junho deste ano. “Eles ficaram malucos comigo. Vamos gravar com três baixos, eu e outros dois, e um baterista. Foi muito bom, foi a realização de um sonho. Estamos agora pensando no nome do disco.”

Sem ufanismo. A música é universal. Não tem nenhum desavisado, não tem tiro no peito e não tem nada a ver com o futebol profissional. “Na Cara do Gol” é a sexta música. E o disco termina “Bárbaro”, na 11ª faixa. Mas foi apenas um show. E o cara já vai embora. Fica o disco, que custa R$ 20 e pode ser obtido no site do http://www.thiagoespiritosanto.com.br. É bom, mas não substituiu o show.