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‘Que Horas Ela Volta?’ e a delicada força de Anna Muylaert

Em longa que explora as nuances do relacionamento entre patrões e empregados domésticos, diretora se abre para um público maior e desponta entre as cotações para o Oscar, mas mantém o foco em um cinema composto de detalhes

Val (Regina Casé) lava, cozinha e cuida do filho da família, Fabinho (Michel Joelsas, o menininho de O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias), enquanto a mãe, Bárbara (Karine Teles), uma consultora de moda, trabalha, e o pai, Carlos (Lourenço Mutarelli), um rico herdeiro, se entedia pela casa, entre as telas que pinta e o ócio absoluto que cultiva. Mais do que isso: Val aperta o interruptor quando Seu Carlos quer luz na piscina e lhe serve um copo d’água quando ele sente sede. E não se aventura a mergulhar na piscina que acende ou a se sentar na mesa para beber água com o patrão. Tudo bem, afinal, Val é parte da família. Ela está ligada aos três por uma rede de afetos que não se desfaz nem quando desce as feias escadas que levam ao seu quartinho, com uma janela para lugar nenhum, onde Fabinho por vezes busca abrigo. Esse equilíbrio, porém, é rompido com a chegada de Jéssica (Camila Márdila), a filha que Val deixou no Nordeste e que, depois de três anos sem falar com a mãe, a procura porque quer prestar vestibular em São Paulo. Por fora do acordo tácito entre empregada e patrões, Jéssica não quer dormir no quartinho. Visita, ela leva Carlos a convidá-la a ocupar o quarto de hóspedes da casa, onde estuda para o vestibular em vez de ajudar a mãe na lida doméstica. Ela também almoça com o patrão de Val e comenta os seus quadros e o estilo modernista da casa, deixando Carlos fascinado por ela, para desespero de Bárbara. É com esse enredo enganosamente simples, já que parece reproduzir o ambiente de muitos lares do país, que a paulista Anna Muylaert constrói o seu quarto longa-metragem, Que Horas Ela Volta?, em cartaz desde quinta-feira. Testemunha das mudanças por que passam as relações entre patrões e empregados, a produção, já cotada ao Oscar por publicações estrangeiras, é também um delicado trabalho de uma cineasta voltada a investigar as relações humanas.

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“Eu não saberia fazer filme de ação. Não me interessa”, diz Anna, que vem afiando o seu olhar para as miudezas do cotidiano, e também para as obscuridades por vezes irônicas ou surpreendentes da psique humana, desde Durval Discos, de 2002. No longa, Etty Fraser e Ary França fazem mãe e filho, ele o vendedor de uma loja de discos, que adotam uma garota. Na primeira parte do longa, tudo é lindo entre os três. Na segunda parte, porém, tem início uma sucessão de pesadelos, que turvam – ou escancaram – as relações. A estrutura do filme brinca com a de um bolachão de vinil. “Tudo na vida tem um lado A e um lado B”, dizia o cartaz de divulgação, à época. A Durval Discos, se seguiram É Proibido Fumar (2009), em que Gloria Pires e Paulo Miklos fazem um casal unido por uma obsessiva paixão, e Chamada a Cobrar (2012), versão para o cinema de Para Aceitá-la, Continue na Linha (2009), filme sobre o seqüestro-relâmpago da mãe de três filhas adultas, feito para a TV.

Que Horas Ela Volta?, título emprestado da pergunta que Fabinho fazia a Val sobre a mãe, quando criança, começou a ser gestado ainda antes de Durval Discos, há vinte anos. Mas só hoje, diz Anna, com a chamada PEC das Domésticas, ele se tornou possível tal como é. Uma versão anterior da história, reescrita pela diretora à luz de livros como Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, e Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Hollanda, tinha um final completamente diferente. “Eu não pensei na PEC quando fiz o filme. Mas, ao mesmo tempo, a discussão está aí. O Brasil está mudando e você, como autor, acaba pensando e assimilando o assunto, mesmo que não o leve de forma consciente para o seu filme”, diz a diretora. “Esse, sem dúvida, é um longa pós-PEC. Ele não terminaria da mesma forma antes da PEC. Nem a Jéssica existiria, isso seria inverossímil vinte anos atrás.”

Ainda que retrate as mudanças que enfrenta o Brasil, com a ascensão da classe C e a conquista de direitos pelos funcionários domésticos – “Esse país está mesmo mudando”, diz Bárbara, a patroa, quando a empregada conta que a filha vai prestar vestibular para a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP -, Que Horas Ela Volta? é marcado pelo servilismo de Val. “Quando eles oferecem algo, é por educação, porque sabem que a gente vai dizer não”, ensina, a certa altura, a doméstica à filha insubmissa. Era tarde: em outra cena, sentada na única mesa da cozinha, Jéssica já havia aceitado o suco que Bárbara ofereceu a ela por pura educação no café da manhã, num raro dia em que Val perdeu a hora de acordar. A cena termina com a patroa da mãe, de costas para a garota, preparando a bebida no balcão e fumaçando de raiva.

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A patroa é, aliás, o personagem mais arriscado do filme, pois quase resvala no estereótipo de vilã. A violência das atitudes de Bárbara ajuda a construir o conflito principal do longa, e Anna Muylaert resolveu assumir o risco. “A Bárbara foi a personagem mais difícil de criar, tanto na escrita como na direção, porque eu queria que ela fosse alguém em quem as pessoas se reconhecessem, mas chega um ponto do filme em que as ações dela são mesmo de vilã. Então, eu decidi que mais à frente ela recuperaria a humanidade, para reequilibrar a história”, conta a cineasta. “No fundo, a Bárbara é mais uma vítima de um sistema cultural e, além do mais, acho que se sente ameaçada por Jéssica, uma outra mulher que está encantando os homens da casa. Tem uma questão sexual aí, também.”

No papel da doce e ingênua Val, a atriz Regina Casé evoca o afeto que permeia as relações entre patrões a empregados para defender o roteiro. “O que a gente observa no filme é que mesmo as relações de poder são o tempo todo invadidas e irrigadas por relações de afeto. São relações muito complexas. O longa não reduziu isso tudo apenas a uma relação patrão-empregado e esse é um dos méritos do filme”, diz Regina, merecidamente premiada em Sundance, junto com Camila Márdila, com o troféu de melhor atriz do festival.

A complexidade das relações entre senhores e escravos, que por séculos constituiu a base da vida doméstica do Brasil, foi esmiuçada por Gilberto Freyre, para quem havia crueldade e doçura nos relacionamentos, e por Joaquim Nabuco, que lembra em suas memórias do carinho físico recebido dos escravos da fazenda da família. Foi Nabuco, o baluarte da abolição que certa feita defendeu Machado de Assis dizendo não ver nele “o mulato”, mas “um grego da melhor época”, contradição tão representativa do enrosco social criado pela escravidão, o que mais guiou Anna. “De todos os livros que li, A Escravidão, do Joaquim Nabuco, foi o que mais me influenciou. Para a estrutura dramática, usei bastante de A Casa Tomada, do Cortázar”, conta a diretora, que também cita entre as suas referências O Som ao Redor (2012), filme do pernambucano Kléber Mendonça sobre a sobrevivência atávica da cultura da senzala entre a classe média de Recife. Há liberdade, há afeto, mas também há servidão e aprisionamento.


A liberdade, aliás, é um conceito caro a Anna Muylaert. Desde seu primeiro telefilme – há dois anos, ela fez outro, E Além de Tudo, me Deixou Mudo o Violão, uma fonte de arrependimento, já que “passou à uma da manhã na TV Cultura, para ninguém” -, a cineasta adotou a tecnologia digital como meio de filmagem. Com ela, passou a eleger também o improviso controlado como método de direção.

“A Anna não segue o roteiro, ela dá liberdade para você improvisar”, conta Regina Casé, que vem pensando em voltar a atuar com maior frequência, por insistência de amigos. Ela está simplesmente irretocável como Val. Até o sotaque pernambucano é legítimo – embora quem more em outras regiões muitas vezes não perceba, cada Estado do Nordeste tem um sotaque próprio. “Não dava para treinar, porque não dava para decorar o roteiro. Então, usei 30 anos de viagem sem parar pelo Brasil inteiro e a influência da minha família, que é de Caruaru.”

Foi também das suas andanças pelo país e da família, mas em especial da vivência que teve em casa, que Regina Casé tirou os diferentes ângulos que compõem a personagem. “Minha filha, Benedita, hoje tem 26 anos. Quando ela era criança, era muito comum as babás virem do Nordeste e deixarem os próprios filhos por lá, para só buscar depois de se estabelecerem no Sudeste. A Ana, babá da minha filha, tinha um menino da mesma idade da Benedita, o Carlos Henrique, com quem eu convivo direto até hoje. Quando eu soube que ela tinha um filho, ele tinha uns 6 anos, e eu pude ajudá-la a trazê-lo para cá. Ele morava em Querala, no interior do Maranhão, era uma história parecida com a da Val. Hoje, ele trabalha com o meu marido na Pindorama Filmes, com a fotografia. Nesse momento, esse menininho está no sul da Índia fazendo um documentário sobre esportes olímpicos.”

Para além dos livros, Anna Muylaert se inspirou na própria vivência. Criada por babás na casa da mãe, ela também contou com ajuda quando teve filho. “Esse filme é uma colcha de várias histórias de pessoas que conheço. Uma delas é a Edna, que trabalhou comigo e hoje é minha amiga. A casa da Regina Casé, no longa, é a casa da Edna.”