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Por que os anos 2000 não terão revival – e por que isso é uma balela

Estamos vivendo agora a volta dos anos 1990, com uma nova investida sobre o mercado de programas como Carrossel e de bandas como Cranberries e No Doubt, mas este será o último revival que veremos. Os anos 2000 são o fim da linha para os retornos de produções culturais de décadas anteriores. É a aposta que faz o crítico musical inglês Simon Reynolds no livro Retromania: Pop Culture’s Addiction to its Own Past (Retromania: O Vício da Cultura Pop em seu Próprio Passado, em tradução livre), lançado na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos no ano passado e ainda sem data para sair no Brasil.

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Segundo Reynolds, os artistas atuais buscam inspiração em um passado cada vez mais recente, o que impossibilita o distanciamento necessário para um retorno em breve dos anos 2000. “Os ciclos culturais sempre acontecem de vinte em vinte anos. Mas nunca houve, na história, uma sociedade tão obcecada com os artefatos culturais de seu passado imediato como a atual. É difícil distinguir o que é ‘retrô’ do que é história nova”, afirma Reynolds no livro. Essa situação, para ele um reflexo do fácil acesso a informações possibilitado pela internet, criaria um círculo vicioso em que as influências sofridas por cada artista têm mais peso que a própria inspiração.

“Repare: uma parte enorme dos anos 2000 é feita de colagens de décadas anteriores. Até as bandas novas se inspiram nas antigas. Como poderemos sentir nostalgia de algo que por si só já é baseado na nostalgia?”, diz Reynolds ao site de VEJA. “O que enxergo como novidade são alguns poucos gêneros eletrônicos, como o grime (estilo de Dizzee Rascal), o dubstep (de Skrillex) e um pouco do rap e do R&B de hoje. No rock, não vejo nada suficientemente bom para ser revivido em 2020. Claro que há artistas elogiados pela crítica, que busca sempre um novo burburinho e supervaloriza quem não merece”, segue o autor, para então fazer um prognóstico pessimista. “O sistema atual, baseado em reviver tudo o que é retrô, vai quebrar.”

Balela – Para outro crítico musical, o americano Craig Marks, que lançou no ano passado o livro I Want My MTV, o revival é puramente econômico e não tem nada a ver com talento. Ele também concorda com a tese de Reynolds de que a internet dificultou a criação de fenômenos pop unânimes, mas, diferentemente do britânico, o americano acredita no retorno dos anos 2000. “A internet prejudica a adesão de fenômenos principalmente entre as pessoas mais velhas, porque elas não têm paciência de saber quem é o queridinho da semana”, diz. “Mas, daqui a vinte anos, haverá o retorno do que for popular hoje, como sempre acontece.”

Tanto Retromania quanto I Want My MTV ainda não foram lançados no Brasil, mas editoras brasileiras já demonstraram interesse em lançá-los neste ano. O último deve sair pela Penguin/Companhia das Letras.

Uma efervescente produção na TV, na literatura e no cinema mostra que, na briga de braços entre os críticos, Craig Marks é quem deve levar a melhor. Confira abaixo os conteúdos produzidos na primeira década dos anos 2000 que podem voltar com força renovada daqui a alguns anos, no primeiro revival do século XXI.

(Com Raissa Pascoal)