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Paris apresenta 1ª grande exposição do dissidente chinês Ai Weiwei

Paris, 20 fev (EFE).- O museu Jeu de Pomme de Paris anunciou nesta segunda-feira a primeira grande exposição que a capital francesa dedica ao artista e dissidente chinês Ai Weiwei, em regime de liberdade controlada em Pequim desde junho do ano passado.

‘Ai Weiwei: Entrelacs’ será aberta para visitação a partir da próxima terça-feira e as 20 telas e mais de 500 imagens ficarão expostas até 29 de abril. A exposição percorre o trabalho fotográfico do artista, que retrata com ironia o poder autoritário da China com imagens essencialmente conceituais.

Entre estes trabalhos encontra-se a série ‘Estudo de perspectiva’, epígrafe inaugurada em 1995 com uma foto em que o artista mostra seu dedo médio em direção à Praça da Paz Celestial, que conta com imagens de várias capitais – entre elas, Paris e a Torre Eiffel – em que o artista mostra o dedo anular.

‘É um gesto simples que diz muito da perspectiva do artista sobre a autoridade e o direito autônomo do indivíduo à liberdade de expressão’, explicam os responsáveis pela exposição.

Essa atitude contestatória que transformou Ai Weiwei (Pequim, 1957) em um símbolo da dissidência chinesa e também o fez ganhar a antipatia das autoridades do país, para onde retornou, em 1993, após passar dez anos vivendo em Nova York.

Suas incisivas reflexões sobre as mudanças que estão acontecendo na China, como seus trabalhos sobre o desaparecimento dos tradicionais becos denominados ‘hutongs’ ou as áridas fotografias de espaços tomados pelo cimento imobiliário, o levaram à prisão em abril do ano passado.

Depois de 81 dias de grande mobilização por parte de instituições culturais, como o Museu Guggenheim de Nova York e o próprio Jeu de Pomme de Paris, Ai Weiwei foi libertado.

Acusado de fraude fiscal e pornografia e submetido a uma estreita vigilância, o artista adotou desde então um perfil mais discreto, embora continue divulgando seu trabalho através das redes sociais.

Em 2009 – um ano após trabalhar como assessor artístico no ‘Ninho de Pássaro’, o estádio olímpico de Pequim, o Governo chinês fechou o blog de Weiwei e destruiu seu estúdio de Xangai, para reduzir sua capacidade de atuação.

‘O que preocupa o Governo são os intercâmbios com os meios de comunicação estrangeiros e minhas atividades na internet’, declarou o artista ao ‘Le Monde’, jornal que o elegeu a personalidade mais importante de 2011.

A exposição dedicada a Ai Weiwei se concentra em cada um desses olhares irônicos com os quais o artista dilacera a negação do individualismo, a militarização do Estado e a onipresença do poder estabelecido.

Posando com ar inocente e mostrando sua roupa íntima perante a imagem do histórico líder comunista chinês Mao Tsé-tung, na entrada da Cidade Proibida de Pequim, a também artista e esposa de Weiwei, Lu Qing, protagoniza outra de suas fotografias mais marcantes, feita em 1994.

‘Pedi a Lu Qing que fizesse como Marilyn Monroe, com essa vontade de liberdade, que é o que simboliza’, comentou o artista, antes de lembrar que teve que fazer a foto rapidamente porque estava cercado de policiais à paisana.

Em ‘Retratos de um conto de magas’, um trabalho coletivo que articula pela internet, o fotógrafo se fixa em 1.001 compatriotas que sonhavam em traspassar as fronteiras chinesas.

‘Me transformei em uma personalidade simbólica da rede. Os jovens pensavam que eu era capaz de iniciar esse tipo de movimento, que tinha a capacidade de mobilizar o povo, de estimular o individualismo’, comentou.

‘Ele é um artista conceitual comprometido. Por isso o Jeu de Pomme, que frequentemente apresenta artistas que oferecem um olhar crítico sobre a sociedade, achou interessante convidá-lo’, salientou a diretora do museu.

Desde o fechamento de seu blog em 2009, Ai Weiwei costuma divulgar suas fotografias através de sua conta no Twitter (@aiww), geralmente feitas com a câmera de seu telefone celular. EFE