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Os novos anos 90

Com o retorno de bandas como Cranberries e Garbage, de tendências da moda e de programas de TV como 'Beavis and Butt-Head', os anos 90 estão de volta

Uma conversa em que um amigo pergunta ao outro se ouviu o novo disco da banda irlandesa The Cranberries e escuta, como resposta, que o do Garbage é melhor, pode parecer coisa do passado, mas é atual. Cranberries e Garbage estão voltando à cena. E não só eles. Uma série de grupos, como Blur e Stone Roses, retornam com força ao lado de tendências da moda e de programas de TV como o desenho Beavis and Butt-Head e a novelinha juvenil Carrossel. O retorno de traços e ícones da produção cultural de vinte anos atrás aponta para a chegada de um revival crescente e poderoso. Os anos 90 são a bola da vez no mercado cultural.

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Por que os anos 2000 não terão revival – e por que isso é uma balela

Todas as décadas estão fadadas a ser relembradas vinte anos mais tarde. É o que dizem teóricos do que se pode chamar da tese do eterno retorno, como os críticos musicais Simon Reynolds, autor de Retromania, e Craig Marks, de I Want My MTV, livros lançados no ano passado nos Estados Unidos e ainda sem data para sair no Brasil. “Nós nos tornamos habituados a revisitar o passado assim que ele começa a fazer sentido em nossas memórias, o que tende a acontecer uns 20 anos depois que algo aconteceu”, afirma Reynolds.

Ele está certo. Quem manda, além das leis do mercado, é a memória afetiva do consumidor. A qualidade pouco importa, mas sim a proximidade que um determinado produto guarda de uma lembrança positiva. Assim, da mesma forma que os anos 1980 foram resgatados na primeira década dos anos 2000, em que pipocaram baladas como a paulistana Trash 80’s, com o pior da música produzida na chamada década perdida, a cultura pop dos 90 volta a reinar, com artistas e programas que dominaram a MTV e as rádios FM entre 1991 e 2000 novamente na estrada. Muitos deles com passagem marcada para o Brasil.

Do tempo das vitrolas – O revival não é uma novidade na indústria cultural. No ano passado, impulsionadas pela efeméride dos vinte anos do Nevermind, do Nirvana, bandas da cena grunge – um tipo de rock alternativo surgido em Seattle na década de 90 -, como Alice in Chains e Soungarden, voltaram à ativa. E também as boy bands Backstreet Boys e New Kids on the Block. Dessa vez, contudo, o retorno de símbolos dos anos 90 é mais volumoso e mais amplo: está espalhado por outras áreas além da musical, que conta com Garbage, Sinéad O’Connor, Blur, Suede e Stone Roses, entre dezenas de outros nomes – até as Spice Girls ameaçam se unir novamente.

Um dos representantes de maior peso desse retorno, a banda Cranberries lança neste mês Roses, seu primeiro trabalho original em onze anos. Meloso e com letras que falam de relacionamentos amorosos, o álbum traz uma banda não muito diferente daquela que emplacou sucessos como Linger e Ode to My Family. Junto com o disco, vem um projeto de estrada bastante ambicioso. Outro nome de peso dos anos 90 que volta ao mercado em 2012 é o No Doubt. O grupo, que tem a loira Gwen Stefani nos vocais, estourou com o disco Tragic Kingdom (1995), que trazia o hit Don’t Speak, mas nunca mais conseguiu repetir o êxito comercial. O primeiro disco depois de onze anos deve sair justamente em 2012, como o do Cranberries. A volta do No Doubt promete ser pura nostalgia. Pode-se esperar um disco cheio das velhas e boas influências de reggae e ska que o grupo já usava nos anos 1990. E também um bom faturamento com shows para a banda.

Nas araras e na TV – Para Andrea Bisker, diretora da consultoria de tendências WGSN, a moda dos anos 90 vem com tudo em 2012. “Para o inverno deste ano, detectamos nas passarelas internacionais uma tendência chamada ‘luxe grunge’, caracterizada pela mistura de texturas, camadas desproporcionais, tricôs grandes, saias até o chão, parkas e xadrez. As meninas nas ruas também estão inspiradas na estética ‘tomboy’ dos anos 90. Estão de volta os looks esportivos, vintage, jeans boyfriend, macacão e jeans com xadrez”, diz.

Na televisão, a programação também se volta para a última década do século XX. Desde o ano passado, vários programas estão sendo refilmados ou reprisados nos Estados Unidos. Na última categoria, entram os seriados Clarissa e Kenan e Kel, reexibidos pelo canal Nickelodeon. Já entre os remakes, talvez o mais emblemático seja a animação Beavis and Butt-Head, que marcou os adolescentes dos anos 1990. Entre os musicais, o retorno mais comemorado foi o do programa Pop-Up Video, que conta histórias de bastidores por meio de balões inseridos em videoclipes, e chegou a ter uma versão na MTV brasileira.

Hits do afeto Como a qualidade não é pré-requisito para o retorno de um conteúdo, é a lembrança, geralmente ligada à infância ou à adolescência de quem o consumiu, a brincadeiras e a passeios com os amigos, a festas e aos primeiros namoros, que determina essa filtragem. Capaz de sensibilizar, o critério afetivo deve arrastar muita gente. “A maioria das bandas que foram famosas nas décadas passadas fez pouquíssimos shows, então, muitos fãs não conseguiram vê-los. Hoje, esses fãs estão mais velhos e podem se dar ao luxo de pagar fortunas para ver os astros favoritos de sua juventude, mesmo que eles sejam ruins como o Duran Duran. Tanto é que as pessoas não compram os discos, elas só vão aos shows para ouvir os hits que conhecem”, diz o britânico Craig Marks, autor do livro sobre o papel da MTV na construção da cultura pop dos anos 80 e 90.

É o laço afetivo – e quem mais? – que explica por que pérolas do cancioneiro brega como Conga, la Conga ePare de Tomar a Pílula foram recuperadas há alguns anos. A mesma dedicação dos fãs pode ser esperada agora, no retorno dos ídolos dos anos 90. Embora nos shows essas bandas mostrem menos vigor, os fãs não deixam de acompanhá-las. No ano passado, o grupo sueco Roxette, sucesso nos anos 1980 e 1990, lançou Charm School, seu primeiro álbum desde 2001, e veio ao Brasil – que, aliás, paga cachês acima do valor de mercado para ter esses shows – para quatro apresentações em abril, todas com ingressos esgotados. Não foi nenhuma surpresa, portanto, quando a banda anunciou que voltaria ao país em maio de 2012 para mais cinco espetáculos.

Para o crítico americano, embora os grupos não admitam, o interesse em retornar é puramente econômico, porque o mercado sabe que, em algum lugar, haverá consumidores ávidos por aquele produto. Recordar é faturar. Além de, é claro, reviver.