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O que é real e o que é ficção em séries históricas como The Crown

As séries que transformam o passado em entretenimento são um gênero saboroso. Mas é preciso cautela: a dramatização às vezes sacrifica a verdade dos fatos

Em visita oficial à então colônia inglesa do Quênia, em 1952, a futura rainha Elizabeth II (Claire Foy) tem um princípio de crise existencial. Durante a agenda excruciante de compromissos ao lado do marido, o indócil Philip (Matt Smith), ela se vê dividida entre o desejo de ser uma mulher comum devotada ao casamento e o peso das obrigações institucionais que a aguardam (das quais a turnê africana é só um leve aperitivo). Em uma cena carregada de tensão da série The Crown, Elizabeth surge redigindo uma carta ao pai — fica no ar a sugestão de que queria comunicar a George VI seu desejo de abdicar precocemente do trono. Mas, enquanto rabisca suas linhas nervosas, chega a notícia: o rei está morto. O que torna o conteúdo da carta inócuo: a partir daquele instante, o destino já a transformara na rainha de fato da Inglaterra. O crescendo dramático é tão arrepiante que o espectador é levado a pensar: será que é tudo só história, no sentido de lorota mesmo? Ou seria História de verdade, com H maiúsculo?

A deslumbrante The Crown suscita, enfim, o mesmo tipo de dúvida que se forma na cabeça das pessoas toda vez que uma novidade se soma à sincrética categoria das “séries históricas”. Hoje, o rótulo revela-se tão popular que tem direito a seu cantinho no catálogo de títulos da Netflix — empresa que produziu o drama sobre os primeiros anos do reinado de Elizabeth II, ao custo de 156 milhões de dólares. Se a literatura e o cinema sempre se valeram do passado como matéria-pri­ma, as modernas séries de TV, dados seu fôlego e ambição criativa, podem ir mais longe: eventos e personagens históricos são explorados até as mais obscuras minúcias.

Diante da profusão da oferta, o desafio de desvendar quanto se aprende (ou se desaprende) sobre história causa uma aflição legítima (confira exemplos ao longo da reportagem). Pena que as respostas para ela nem sempre sejam peremptórias. Uma conhecida piada ironiza a possibilidade de aprender história medieval em Game of Thrones — fantasia com dragões e feiticeiros. Mas não é que, com alguma boa vontade, se encontram referências de teor histórico até na saga sem lastro concreto na realidade? Só uma pílula: a muralha fantástica de que fala a série da HBO se inspira em um similar real, o muro construído na Inglaterra pelo imperador romano Adriano (76-138 d.C.) para proteger a civilização dos bárbaros do norte.

Enquanto Game of Thrones se assume ostensivamente como fantasia, muitas séries adentram um terreno híbrido e capcioso: não têm pudor em misturar a ficção mais desbragada com a história de verdade — mas sem muito compromisso com, bem, a verdade. É o caso de Marco Polo, série de aventura da Netflix que transforma o viajante italiano do século XIII, sobre o qual pouco se sabe com segurança, em um Indiana Jones d’an­ta­nho. Ou da inacreditável Outlander, trama do canal Starz exibida no Brasil pela Fox Action. Baseada nos livros da americana Diana Gabaldon, mistura magia, romance açucarado e autoajuda feminista com lances de um complicado conflito real: a chamada revolta jacobita, na Escócia do século XVIII. Resumindo: no afã de simplificar e entreter, Marco Polo abusa do invencionismo e Outlander acaba pirando na maionese.

Em contraste com essa descarada liberdade, há as séries que fazem por merecer o epíteto de “históricas”. Produções da HBO como Roma, exibida entre 2005 e 2007 e que recriou com naturalismo o cotidiano do tempo dos césares, e John Adams, minissérie de 2008 que resgata a biografia do segundo presidente dos Estados Unidos, que governou de 1797 a 1801, são exemplos de rigor histórico. Aí se inclui também a primeira temporada de The Crown. Como provou no filme de 2006 A Rainha, seu criador Peter Morgan é um especialista entusiasmado no reinado de Elizabeth II. Se isso não fosse por si garantia de resultado criterioso, há mais: o fato de a série falar de personagens ainda vivos — inclusive a própria rainha e seu marido, hoje aos 90 e 95 anos — exigiu atenção obsessiva para que não se pisasse na bola em detalhes (embora a proximidade temporal com os fatos tenha, como contrapartida, conferido reverência talvez excessiva sobre a personagem).

No atacado, pode-se dizer que as cenas que parecem mais absurdas em The Crown são as de que menos se deve desconfiar. Sim, o primeiro-ministro Winston Churchill era mesmo uma figura alquebrada em seu segundo mandato, iniciado perto dos 80 anos — e pedia a suas secretárias que lessem jornais e documentos para ele enquanto gastava horas numa banheira. No que diz respeito àquela pergunta lançada no início da reportagem, acertou quem apostou na segunda opção: Elizabeth II estava realmente escrevendo para o pai no Quênia no momento em que soube de sua morte (não se conhece o conteúdo da carta). O affair de sua irmã, a princesa Margaret (Vanessa Kirby), com o oficial Peter Townsend (Ben Miles) se desenrolou de forma bem próxima da contada na série. Se houve licença poética, foi na manutenção de um equívoco histórico corrigido recentemente — um equívoco, porém, que ajuda a compor Margaret como personagem romântica: ela é retratada como uma mulher apaixonada até o fim. Mas uma carta escrita pela princesa descoberta em 2009 mostra que ela tinha dúvidas se queria mesmo se casar com um plebeu divorciado, o que causava escândalo à época (ah, como caiu na real a realeza inglesa de lá para cá!).

O desafio de separar fato de ficção é que, entre as patacoadas assumidas e as produções rigorosas, uma penca de títulos ocupa uma zona cinzenta. Tome-se as já encerradas Os Tudors ou Os Bórgias. Ambas se anunciam como dramatizações de personagens e períodos célebres — uma trata da corte de Henrique VIII na Inglaterra do século XVI, a outra aborda a ascensão do clã de origem espanhola no Vaticano, no século XV. Apesar da pompa, Os Tudors era uma chanchada. Os Bórgias não vai além da caricatura. Em outra ponta há uma série como Vikings, do History Channel, sobre a invasão da Europa por essas tribos nórdicas na Idade Média. Seu herói é um guerreiro mítico. Mas a maneira razoavelmente honesta como se reconstituem a cultura e o modo de vida dos vikings é instrutiva.

Daí se conclui: o que faz uma série ser fiel à história é sua capacidade de apreender a essência de um período ou personagem. The Crown toma liberdades — faz o Grande Nevoeiro de 1952 em Londres parecer um filme-catástrofe e adapta datas em nome da fluência. Mas é um retrato verdadeiro da transformação de Elizabeth II, de moça frágil a símbolo de uma coroa antiga de séculos. Conseguiu oferecer leveza sem abdicar do peso da história.

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