O dono da banca: a trajetória de Roberto Civita, criador de VEJA

Com cadência de romance e precisão de reportagem, biografia narra sua inclinação pelo risco, sua ambição de mudar o mundo e seu gosto pelo divertimento

A biografia de Roberto Civita não é um livro dirigido a iniciados. Não fala só a quem por vivência ou convivência conheceu a fundo a história do Grupo Abril e/ou a trajetória do brasilo-ítalo-americano que herdou do pai, Victor, uma editora que viria a ser a maior da América Latina.

Em Roberto Civita — O Dono da Banca não faltam atrativos para o leitor amante de um bom enredo: segredos, intrigas, amores, conflitos de família, desentendimentos, traições, brigas de negócios, ressentimentos acumulados, mágoas nunca aplacadas, afeições exacerbadas, prazeres extraordinários e uma leve atmosfera de suspense no relato de altos que muitas vezes precederam baixos com suas respectivas reviravoltas. Movimentos constantes na vida de um editor com gosto especial pela aposta no risco.

O jornalista Carlos Maranhão, um iniciado com mais de quarenta anos de Abril, conta uma história com começo (na Nova York dos anos 1930), meio (a vinda da família Civita para o Brasil, expulsa pelo fascismo italiano) e fim, a morte, aos 76 anos de idade, de um homem cujo objetivo era mudar o mundo. Se possível, divertindo-se ao máximo.

Roberto civita — O dono da banca, de Carlos Maranhão (Companhia das Letras; 528 páginas; 69,90 reais ou 39,90 reais na versão digital)

Roberto Civita — O Dono da Banca, de Carlos Maranhão (Companhia das Letras; 528 páginas; 69,90 reais ou 39,90 reais na versão digital)

Com cadência de romance, precisão de reportagem e linguagem sem rodeios, Maranhão fala para o grande público, aplicando, assim, um princípio seguido, perseguido e difundido pelo biografado: a excelência de uma publicação está na capacidade de estabelecer conexão com o leitor. É ele o alvo primordial, nunca o anunciante, o governo ou os amigos. Não por diletantismo à deriva, mas por convicta fidelidade ao foco. “Sem anunciantes não há independência, sem independência não há imprensa livre e sem imprensa livre não há democracia”, dizia, deixando subentendido que o pilar dessa equação é a credibilidade com o cidadão que vai à banca (ou compra uma assinatura) em busca de conhecimento de qualidade confiável.

Otimista, dono de si, sedutor, orgulhoso da própria cultura, vaidoso, sem a menor “vocação para coadjuvante”, difícil de aceitar um “não” como resposta, mas refratário a embates diretos, Roberto, Bob, Rob, Robbie, dr. Roberto, RC ou Dé (corruptela de daddy, usada em casa) era movido a paixão. Pelas mulheres, pelo Brasil de adoção e, sobretudo, por sua maior criação: a revista VEJA, personagem de destaque neste relato de êxitos, crises e reveses. Desde o fracasso inicial, em 1968, até o sucesso absoluto, quando viveria trinta anos depois o apogeu editorial e financeiro que antecederia uma grande crise, entre 2011 e 2012.

Dez anos antes, a Abril quase faliu em decorrência da situação econômica aliada a decisões erradas de Roberto, um homem arraigado à comunicação impressa, resistente e algo displicente em relação aos meios eletrônicos (notadamente os digitais), aos quais não dedicaria o mesmo empenho e perspicácia aplicados à editora.

A tentativa de investir em televisão durou pouco e rendeu dívidas astronômicas, além de desavenças e disputas com o Grupo Folha e as Organizações Globo, das quais sairia derrotado. Em compensação, faria história na imprensa com a introdução do conceito de publicações segmentadas (inédito no Brasil dos anos 1960), dirigidas a público de interesse específico, Playboy, Quatro Rodas, as femininas, lideradas por Claudia, e a estrela da companhia, Realidade, lançada em abril de 1966 disposta a produzir grandes, inovadoras, surpreendentes e ousadas reportagens naquele Brasil de ditadura iniciante, recalcitrante à abordagem de determinados temas, e de puritanismo reinante. De onde enfrentaria apreensões desastrosas para sua saúde financeira, não obstante o sucesso de público.

Aos maiores de 60, Carlos Maranhão presenteia ao rememorar detalhes sobre edições marcantes: Pelé com o chapéu alto e peludo (busby) usado pela guarda da rainha da Inglaterra (anfitriã da Copa do Mundo daquele ano), tendo posado 92 vezes para a foto de capa; a rejeição à presença de nossos soldados — “Brasileiros, go home” — como força auxiliar a uma intervenção americana na República Dominicana; “A juventude diante do sexo”, uma pesquisa atrevida para a época; a publicação de uma foto explícita de um bebê nascendo em parto normal; as imagens inéditas de fetos no útero; entrevistas de atrizes nacionais e estrangeiras pregando o amor livre, nome dado então ao sexo casual. Mal comparando, uma espécie de Pasquim em traje a rigor.

Não obstante os percalços, Roberto privilegiava o prazer de realizar as condições que havia imposto ao pai para desistir de uma oferta da Time para trabalhar na sucursal de Tóquio depois de um estágio na revista em Nova York, consequência do bom desempenho nas cadeiras de jornalismo e administração na Universidade da Pensilvânia, uma das três que cursaria nos Estados Unidos.

Com a editora progredindo no Brasil, Victor achou que era hora de o primogênito voltar ao país. “O que você quer fazer, quer mudar o mundo? Pois terá muito mais espaço trabalhando no que é seu”, desafiou. Depois de uma noite insone, Roberto retomou a conversa dizendo ao pai que seu projeto era fazer três revistas: uma semanal de informações, uma de negócios e uma dirigida ao público masculino.

Aceita a proposta, voltou ao Brasil, e em outubro de 1958, aos 22 anos, roupa de americano e sotaque idem, que no decorrer dos anos se tornaria leve, mas não deixaria de ser cuidadosamente cultivado mediante uma constante mistura inglês-­português, entrou no prédio da empresa fundada pelo tio César na Argentina, em 1941, e instalada no centro de São Paulo nove anos depois. Dava, assim, início a 55 anos de materialização de um sonho, a frutificação de uma árvore, não por acaso o logotipo da editora, cujo nome teria razão lógica de ser: abril é mês de primavera no Hemisfério Norte, de onde se originam os Civita, cuja vida vamos conhecer desde o nascimento do avô Carlo, em 1878, na cidade italiana de Reggio Emilia.

O autor aproveita o simbolismo para denominar as quatro grandes divisões do livro, que se inicia com A Árvore Desfolhada I. À primeira cena, com Roberto Civita já inconsciente no hospital, em maio de 2013, quatro dias antes de morrer, segue-­se uma espécie de perfil de apresentação, com um resumo dos meios e modos, hábitos e obsessões, gostos e desgostos do personagem.

A partir daí, o relato é feito em ordem cronológica. A segunda parte, A Árvore Germinada, abrange a mudança da família para os Estados Unidos e as origens da empresa no Brasil, entre 1950 e 1962. A terceira, A Árvore Frutificada, fala sobre o crescimento e a consolidação da editora, suas glórias e fracassos, entre 1965 e 2013, bem como bastidores de embates na empresa por divergência de enfoque jornalístico, estilo de gestão, desavenças em torno do conceito da separação entre Igreja (o editorial) e Estado (o comercial). Ali o leitor terá detalhes sobre a vida familiar de Roberto, sua relação com os três filhos, mulheres e ex-mulheres.

A quarta e última parte antes do epílogo e do posfácio, A Árvore Desfolhada II, retoma o relato, agora pormenorizado, da súbita partida de Roberto Civita em decorrência de uma cirurgia para a colocação de um stent, procedimento tido como relativamente simples. Havia, segundo seus médicos, 2% de risco fatal. O rompimento inesperado de uma aorta, no entanto, o levaria, em 26 de maio de 2013. À sombra de uma árvore frondosa plantada 63 anos antes pelo pai, por ele cultivada com obsessão. Mas, sobretudo, com muito, mas muito divertimento.

* Dora Kramer é jornalista, colunista do jornal O Estado de S. Paulo e comentarista de política da Band News FM

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