O discurso da Rede Globo

Conheça Glorinha Beuttenmüller, a fonoaudióloga que cunhou o padrão Globo de pronúncia e impostação

Há mais de 40 anos, a fonoaudióloga Glorinha Beuttenmüller ajuda atores e jornalistas a transformar as palavras em meios condutores de emoções

Há 35 anos, a atriz Irene Ravache recorre a um empurrãozinho toda vez que recebe convite para um novo trabalho. Para interpretar a Charlô do remake de Guerra dos Sexos, não foi diferente: a atriz retomou as aulas de preparação vocal da fonoaudióloga Glorinha Beuttenmüller. “Posso dizer que a minha vida profissional se divide em antes e depois de Glorinha Beuttenmüller. Ela é a minha grande mestra. Suas aulas me dão alicerce profissional e ampliam minha visão sobre o ser humano.”

Irene não é a única a beber nessa fonte. Aos 87 anos, Glorinha – que se recusa ser chamada de senhora pelos mais jovens – calcula ter preparado a voz de mais de mil atores e atrizes do teatro e da televisão, entre eles a atriz Fernanda Montenegro, os atores Mauro Mendonça, Sergio Britto e Ítalo Rossi, além do apresentador Fausto Silva. Desde a criação do Conselho Federal de Fonoaudiologia, em 1981, Glorinha não pode mais falar publicamente sobre seus pacientes ilustres, conforme prega o código de ética da profissão, mas sua importância para a dramaturgia nacional e para a Rede Globo vai muito além dessa lista.

Filha de agente fiscal, Glorinha morou em diferentes regiões do país durante a infância para acompanhar o pai. O contato com sotaques e pronúncias tão diversas culminou numa dificuldade de se expressar com clareza, o que levou Glorinha a frequentar recitais de declamação, no início dos anos 1950. A fraqueza na voz, que a impedia de propagar as palavras no espaço, a colocou em contato com uma professora de impostação. A prática dos exercícios tornou-se o início de uma vida dedicada ao trabalho vocal. “Nós falamos com o corpo inteiro. Por isso a fala ocupa a parte dos sentidos, dos sentimentos e das sensações. Um ator, em cena, precisa abraçar sonoramente a sua plateia.”

A partir dessa mistura de filosofia, arte e fonoaudiologia, Glorinha criou um método batizado de Espaço Direcional, usado em muitas escolas de teatro no Brasil. Foi ela também quem uniformizou a postura e a linha vocal do telejornalismo da TV Globo, criando o padrão que a emissora usa há décadas e que se tornou uma de suas marcas registradas. A contribuição para a história da televisão brasileira começou em 1974, quando a fonoaudióloga foi chamada às pressas para curar a rouquidão de Sérgio Chapelin, então apresentador do extinto Jornal Internacional. A parceria entre Glorinha e a emissora durou dezenove anos – período em que ajudou a uniformizar a fala de repórteres e locutores espalhados pelas muitas sucursais da Globo pelo país. “Ensinei a eles que não se pode ficar sentado numa postura rígida, como se estivesse num retrato de documento. Tem que ter uma entrega para poder entrar na casa do telespectador. Não pode ser arrogante, tem que ter simplicidade.”

O trabalho na emissora logo se estendeu para os bastidores de peças teatrais. Em 1977, Glorinha e Irene Ravache trabalharam pela primeira vez na peça Os Filhos de Kennedy, de Robert Patrick, respectivamente como diretora vocal interpretativa e atriz. Autora de sete livros, todos direcionados ao uso da voz, Glorinha ensina hoje seu método aos alunos de teatro da Casa das Artes de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Recentemente, seu posto havia ficado vago devido a um problema na vista que obriga Glorinha a tomar injeções no olho. “Os alunos fizeram um abaixo-assinado para eu voltar, porque disseram que eu mudei a vida deles e isso apenas em três meses. Então, voltei.”

Leia a seguir a entrevista concedida por Glorinha Beuttenmüller ao site de VEJA.

Como é feito o seu trabalho com os atores?

Nós falamos com o corpo inteiro, por isso a fala ocupa a parte dos sentidos, dos sentimentos e das sensações. Qualquer personagem de ficção é ligado a essas três palavras. É um trabalho científico e artístico. Procuro ajudar o ator a encontrar, através de palavras, a essência do personagem estabelecida pelo diretor. É através dos movimentos fisionômicos que procuramos a justa modulação da palavra. O ator tem que estar sempre num envolvimento com o público. Atuar, portanto, é uma arte de buscar e conquistar amigos.

Como a senhora criou o método de técnica vocal?

Eu trabalhava técnicas respiratórias e articulatórias quando bateu na porta da minha casa uma professora cega de nascença. Ela iria fazer um discurso e me pediu para lhe explicar o sentido das palavras, menos o vocábulo “sol”, porque ela podia sentir seu calor na pele e, portanto, sabia como era. Nesse momento, eu tive um grande impacto e percebi que podia manipular as palavras. Foi assim que dei início ao método. A palavra tem forma, tem cheiro e nunca é linear, porque na natureza não existem linhas retas. Após o trabalho com essa professora cega, fui convidada a dar uma aula de bem falar para deficientes visuais no Instituto Benjamin Constant, em 1960. Não foi fácil, os cegos tinham muita dificuldade para se expressar, ora com a voz embutida, ora estridente, numa tentativa de agredir o espaço que não enxergavam e, por isso, temiam. Não os interessava, por exemplo, dizer que o céu é azul por fazer parte da quarta camada estratosférica. Eu tinha que dizer: “O céu tem o formato de um guarda-chuva, é uma cúpula”.

Quando iniciou o trabalho com atores?

O sucesso do trabalho com os deficientes visuais foi tão grande que fui chamada a ensinar meu método em escolas de teatro. Hoje, a maioria delas o utiliza. Eu ensino meus alunos a transformar o gás carbônico que expiram em vida, através da palavra. Por isso, acredito que a poluição mais nociva que existe ao homem é a mentira.

Otávio (Tony Ramos) e Charlô (Irene Ravache) em cena de Guerra dos Sexos

Otávio (Tony Ramos) e Charlô (Irene Ravache) em cena de Guerra dos Sexos (VEJA)

Que famosos a senhora já atendeu?

Não posso dizer nomes por causa do código de ética do Conselho de Fonoaudiologia. Só comento sobre pacientes que declaram publicamente se tratar comigo. Muitos deles não gostam de contar sobre essa ajuda que recebem, ao contrário da Fernanda Montenegro, da Irene Ravache e do Fausto Silva, por exemplo, que sempre comentam sobre meu trabalho. Isso é muito bom, porque as pessoas não têm gratidão. Como tenho uma idade avançada, pensam que eu estou na menopausa da vida, mas sou bem firme.

O que os atores buscam no método?

Eles procuram a imagem nas palavras e o desenvolvimento de todos os sentidos, sensações e sentimentos ligados a elas. Por exemplo, para expressar amargura e revolta, é preciso tirar a voz de dentro do fígado. Para isso, é preciso imaginar a voz vindo de algum lugar.

A aula é dada de acordo com o teor do personagem?

Sim, quando observamos alguém, primeiro vemos sua postura, depois o andar, a fisionomia, os gestos e, por último, a linguagem. É assim que se constrói um personagem. O Sergio Britto me procurou certa vez porque estava com dificuldades para construir um personagem. Ele estava interpretando um homem muito velho e o diretor não queria do jeito como estava fazendo. Então, perguntei: “Você tem 50 anos ou meio século?” Ele respondeu “50 anos”. Tudo mudou de figura e ele conseguiu agradar o diretor. Meu método funciona como uma terapia. As pessoas melhoram de vida.

Qual é a explicação para a ocorrência de problemas na voz?

Eu sempre pergunto aos meus pacientes: de que maneira você acorda a sua voz? A maioria amanhece com a voz rouca. Nosso cérebro trabalha dia e noite com as pregas vocais. Se guardamos algum mal ou raiva de alguém, vamos dormir e o cérebro continua conversando internamente conosco. É quando a voz fica embutida e acordamos roucos. Então, é importante sempre fazer exercício de relaxamento da voz antes de dormir e ao acordar. Espreguiçar, bocejar e lavar o rosto simbolicamente — massagear a testa para eliminar qualquer pensamento ruim, passar as mãos sobre os olhos para tirar as imagens ruins e descê-las até o pescoço.

Considera o seu método um segredo dos bons atores?

Eu tenho um monte de apelidos: pronto-socorro vocal do artista, bruxinha, milagreira. O método dá certo, mas eu não gosto de me gabar. Deixo os outros falarem. Sou adepta de um pensamento de Gabriel García Márquez: “Descobri o privilégio da simplicidade”.

Quantos atores e atrizes já atendeu ao longo desses anos?

Acho que mais de mil. Eu tenho 50 anos de registro desse método e comecei a pesquisar em 1961. Resolvi registrar o método em 1972, depois de ter curado um ministro que ficou rouco de uma hora para outra, logo após um pronunciamento na televisão. O médico tinha diagnosticado uma forte faringite. Eu sabia que ele estava daquele jeito por causa do monte de mentiras ditas na TV; por isso engolia errado, o que danificou a laringe.

Há diferença entre preparar um ator para o teatro e para a televisão?

A diferença está na projeção de voz. Na televisão, o ator estabelece uma relação de intimidade com o público, já que entra na casa do telespectador sem pedir licença. No teatro, é preciso ver o espaço global para ter o ritmo certo. Uma peça no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, por exemplo, pode durar mais tempo do que se for encenada na Maison de France porque o espaço é diferente. O teor do roteiro também interfere na preparação. Se o ator interpreta uma tragédia, eu o faço realizar uma lavagem interna depois de cada apresentação, porque a atuação envolve sentimentos capazes de acabar com a voz de qualquer um. O exercício para isso é imitar uma bomba de flit e matar simbolicamente os mosquitos humanos. Fiz algo parecido com o Mauro Mendonça certa vez, quando ele me procurou por ter perdido a voz durante um espetáculo. “Glorinha, estou com tanta raiva que tenho vontade de arranhar determinada pessoa”, disse. Na mesma hora, sugeri que ele imitasse um gato e ele ficou bom. Tenho uma inspiração divina para criar exercícios na hora.

Como é a preparação de um apresentador?

O apresentador não pode representar as palavras. Tem de ser parcial e exprimir as ideias da empresa em que trabalha. Esse profissional tem de sentir a palavra na sua forma, mas a essência empregada vem da casa. Por exemplo, a palavra cadeira é dita da mesma forma por todo mundo, mas, se ela é confortável ou desconfortável, é a empresa que vai dizer. Em qualquer emissora, os apresentadores são escravos, têm que parecer imparciais e, ao mesmo tempo, ser parciais, de acordo com a vontade da empresa.

Qual foi o maior ensinamento que deu aos jornalistas do Jornal Nacional?

O poder da simplicidade, o que não significa ser frio. Há pessoas vaidosas que entram de nariz empinado nos lugares, dizem que é da TV Globo e não falam com ninguém. Isso é horrível. Tem que ter garra e não agressividade. Garra é trazer o telespectador para junto de si e sempre evitar uma voz estridente que ultrapasse o limite do vídeo.