Novo ‘Sete Homens e Um Destino’ bebe em Akira Kurosawa

Feito e refeito: filme é versão do faroeste de 1960 que era inspirado em'Os Sete Samurais', de Kurosawa. Que se inspirou nos faroestes americanos

Akira Kurosawa (1910-1998), um jovem cineasta que já ganhara grande destaque ao vencer o Festival de Veneza com Rashomon, de 1950, conhecia em profundidade a herança samurai — a cinematográfica e a histórica. Mas era também fascinado pelos westerns do diretor John Ford. Em 1954, ele se saiu com uma façanha de hibridização que talvez permaneça inigualada: combinou os genes da tradição japonesa aos do mito americano e fez um filme de samurai que é também, profundamente, um western — e vice-versa. Encabeçado pela figura carismática do ator Toshiro Mifune, Os Sete Samurais estourou no cenário internacional, consagrou Kurosawa como um dos maiores de todos os tempos (posto no qual ele permanece firme) e inspirou um sem-­número de cineastas, notadamente o George Lucas de Star Wars. Inspirou, também, um dos mestres do faroeste: John Sturges, de Sem Lei e sem Alma e Duelo de Titãs. Em 1960, Sturges repolinizou o fruto da imaginação de Kurosawa: transformou a história do bando de samurais vira-latas que defendem um vilarejo dos malfeitores que o atormentam — a princípio em troca de comida, e depois por brio e honra — no western Sete Homens e Um Destino, em que um bando de pistoleiros sem eira nem beira topa defender um vilarejo mexicano dos bandidos que o atazanam. Encabeçada pelas figuras carismáticas de Yul Brynner, Steve McQueen, Charles Bronson, Eli Wallach e James Coburn, a versão americana foi um sucesso, e virou molde para tantos outros westerns e filmes de guerra. Não é o faroeste mais cheio de garra que já se fez, mas certamente é um dos mais cheios de charme. Agora, esse enredo perde umas tantas coisas — por exemplo, as tiradas deliciosas sobre a convivência entre os pistoleiros e os aldeões — e ganha enxertos adicionais em um novo Sete Homens e um Destino (The Magnificent Seven, Estados Unidos, 2016), em cartaz desde esta quinta-feira no país.

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Apesar de tanto o título original quanto o nacional serem idênticos aos do bangue-bangue de 1960, o filme do diretor Antoine Fuqua é menos uma refilmagem dele, e mais do clássico japonês — tanto que Nic Pizzolatto (da série True Detective) e Richard Wenk dividem os créditos de roteiro com Akira Kurosawa e os coautores de Os Sete Samurais (coisa que Sturges não fez). O apropriado seria dizer que é uma refilmagem no mesmo espírito que moveu Kurosawa seis décadas atrás: Fuqua junta um caudal de influências na história dos pequenos fazendeiros do Velho Oeste que, em 1879, prestes a ser dizimados por um barão do garimpo (Peter Sarsgaard) e seu bando violento, pagam com suas poucas economias pela intercessão do caçador de recompensas Chisolm (Denzel Washington) e dos outros seis tipos que ele recruta para a tarefa. Chris Pratt, Ethan Hawke e Vincent D’Onofrio compõem o grupo junto com Martin Sensmeier, como um índio letal no manejo das armas nativas; o astro sul-coreano Byung-­hun Lee, como um ás das lâminas; e Manuel Garcia-Rulfo, como um bandoleiro mexicano de moral duvidosa.

Já nos personagens, portanto, o diretor anuncia os muitos tributários da sua refilmagem: os westerns que no fim dos anos 50 começaram a desestigmatizar o papel dos índios, os filmes orientais de artes marciais, os filmes de Guerra Civil (Chisolm, o pistoleiro negro, tem um passado com o atirador sulista interpretado por Ethan Hawke). Sobretudo, percebe-se neste Sete Homens a marca dos western-spaghetti de Sergio Leone. O cineasta italiano é homenageado não só no bandoleiro de humor trocista e naqueles planos que fizeram história por contrapor super close-ups a paisagens abertíssimas, mas na qualidade de um companheiro de armas, por assim dizer: foi também inspirado em Kurosawa — precisamente em Yojimbo, de 1961 — que Leone inaugurou, em 1964, com Por um Punhado de Dólares, sua ultrainfluente “trilogia do homem sem nome”.

Com tudo isso, este Sete Homens e Um Destino não tem o caráter pós-­moderno da nova leva de faroestes, como os de Quentin Tarantino. Sua natureza é conciliadora e reverente: em vez de deglutir essas referências, ele as deixa inteiras e nítidas. Antoine Fuqua, além disso, é um diretor de mão algo pesada, bem menos luminoso do que John Sturges e decididamente menos brilhante do que Akira Kurosawa. Mas é também um ci­neas­ta competente, cumpridor e que tem grande afinidade com Denzel Wa­sh­ing­ton, a quem já dirigiu em Dia de Treinamento e O Protetor. O que lhe falta em leveza ou em rasgos de imaginação lhe sobra em robustez. Seu Sete Homens talvez não seja magnífico como as fontes em que vai beber ­— mas é sólido o bastante para não passar vergonha.

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