No Rock in Rio, pais se esforçam para injetar ‘metal’ nos filhos

Em tempos de domínio do pop, do sertanejo e do funk, fãs de 30 a 50 anos tentam passar adiante a paixão pelo preto e pelo rock de fibra

O primeiro dia de metal do Rock in Rio não é uma oportunidade apenas para os fãs verem algumas de suas bandas favoritas no palco. É também, para aqueles de 30 a 50 anos, uma chance de injetar a adrenalina do rock de fibra nos filhos, na tentativa, cada vez mais dura em tempos de domínio do pop, do sertanejo e do funk, de fazer a paixão pelo preto e pelos acordes pesados seguir adiante.

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Em muitos casos, dá certo. O pai, que tem um ídolo no rock, chega mesmo, sem perceber, a ser um para o próprio filho. Igor Ozzy, 11, sorri com gosto quando o pai revela que seu nome duplo foi inspirado em Cavalera e Osbourne. Com picolé em riste, assente com um “Aham” efusivo a cada declaração paterna. “Eu dei o nome Igor, a mãe escolheu Ozzy, tudo certo. Mas tem umas coisas que ele ouve…”, diz Douglas Cirino, de 32 anos, hesitante em divulgar a heresia sonora cometida pelo filho. Que acaba revelada por ele mesmo: Bruno Mars, diz o menino, ao que é seguido por uma careta.

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A estudante rondoniense Elis Melo, 22 anos, veio com o marido, o gastrônomo Iago Silva, 24, apenas para ver o Metallica. Eles se conheceram há dois anos, no show da banda, e o filho deles, de 1 ano, também leva o rock no documento: ganhou o nome de James (como o vocalista do grupo), por nascer no mesmo dia que o músico.

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A família Mazzei Segala traz consigo outros dois troféus da hereditariedade do rock. João, de 11 anos, faz positivo com o polegar enquanto abre um pacote de bottons do festival. O pai ri com orgulho do caçula com uma camisa do Metallica. “Lá em casa, a gente sempre foi rock. O Henrique (o filho mais velho) já foi em alguns shows comigo, esse é o primeiro do João”, diz Ricardo Segala. Henrique, 15, não veste preto. Mas revela apressado a predileção pelo hardcore californiano, como o feito pelo Offspring. “Lá na escola, tenho uns amigos funkeiros”, diz, desdenhando do gosto dos outros.

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Mais à frente, também saindo de uma loja, estão Ítalo Rodrigo e Jaqueline Costa. Ele, 12 anos e também fã de Metallica, diz ser o tutor da mãe. “Ela ouve uns pop, uns hip-hop”, inicia. Não é bem assim. A mãe explica com jeitinho. “É uma troca. Eu mostro muitas coisas para ele. O Ítalo me acompanhou para ver o Justin Timberlake, então lhe dei de presente o dia do metal”, ameniza, antes de revelar uma biografia de dar orgulho ao filho. “Eu estudei na Escola Afonso Pena, em Minas Gerais, com o Max e com o Igor, do Sepultura.” O garoto, que aprendeu a gostar de rock com o jogo Guitar Hero, arregala o olho e, ao lado da mãe-ídola, já não importa muito se ambos os mineiros não fazem mais parte da banda que criaram.

Com roupas coloridas, Ênia, 19, e Victoria Brandão, 12, destoam do pai, todo de preto. “Sim, todos ouvem rock”, garante Laercio Coutinho, apressado para a barulheira que se inicia no Palco Sunset, onde acaba de chegar o Dr. Sin. Sorrindo marotamente e nem tão apressadas, as filhas não mostram a mesma paixão. O rock não é, afinal, essa unanimidade familiar. Enquanto a reportagem comenta o fato, elas riem – e quem ri consente. O respeito pelo rock do pai era óbvio. Já o delas…

Próximo ao Palco Mundo, Leonardo Brana, 17, também se dizia responsável por trazer a mãe ao festival. “Eu estou iniciando”, dizia entre risos do grupo que tinha outro par filho-mãe, só que em relação musical distinta. Sandra Maria Petri, 50, é quem trouxe o filho Athos, 25, como companhia. “Mas eu gosto”, garantia ele, olhando para a mãe vestida a caráter. Todos a postos para ver o Metallica. “Bom, eu gosto do Caetano. Será que pode falar?”, confessava Rosana Magalhães, 45, de branco, a ovelha negra da turma.