‘Não estamos pregando o aborto’, diz diretora de vídeo que despertou fúria

Petra Costa, premiada no mais recente Festival do Rio pelo filme 'Olmo e a Gaivota', diz que se surpreendeu com a agressividade das respostas na internet ao vídeo 'Meu Corpo, Minhas Regras', que fez com atores da Globo

Autora de dois belos documentários, Elena (2012), sobre a irmã que se matou, e Olmo e Gaivota (2014), sobre um casal às voltas com a gestação do primeiro filho, este assinado em parceria com a dinamarquesa Lea Glob e vencedor do último Festival do Rio, a mineira Petra Costa passou da comemoração do troféu às críticas nas redes sociais em questão de poucos dias. O vídeo Meu Corpo, Minhas Regras, que dirigiu com um punhado de atores da Globo, questiona a proibição ao aborto – e ela recebeu, ao lado do elenco, uma saraivada de críticas, com frequência, muito agressivas.

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“Não esperávamos que fossem tão agressivos”, diz ela. “Mas, historicamente, tudo o que diz respeito ao universo feminino é cercado de tabus, proibições, deturpações, silenciamentos, condenações.”

Inspirado no documentário vencedor do Festival do Rio, o vídeo, segundo Petra, não tem a intenção de “pregar” o aborto. “É um vídeo que levanta questões sobre a mulher e não um vídeo de campanha”, diz ela.

Abaixo, a cineasta de 32 anos fala do vídeo, de sua posição a respeito do aborto e das críticas que recebeu:

O vídeo “Meu Corpo, Minhas Regras” nasceu para ajudar na divulgação do filme Olmo e a Gaivota ou para reclamar o direito ao aborto? Ele foi idealizado a partir dos temas de Olmo e A Gaivota, um filme que acompanha, em uma mistura de ficção com realidade, a gravidez da atriz italiana Olivia Corsini (do Théâtre du Soleil). O direito ao aborto não é o tema mais importante no teaser, e menos ainda no filme. O que nos motivava era chamar atenção para a invisibilidade da mulher. E essa invisibilidade é transversal em nossa sociedade, aparece em diversos setores e, infelizmente, contamina toda a discussão sobre direitos sexuais e reprodutivos, incluindo o tema do aborto. Há algo de errado em um país em que as mulheres são mais de 50% da população e ocupam menos de 10% dos assentos no Parlamento. Há algo de errado no cinema em que as personagens femininas falam em menos de 30% dos filmes, segundo o Teste de Bechdel [que homenageia a cartunista americana Alison Bechdel e avalia se em uma obra de ficção há pelo menos duas mulheres que conversam entre si sobre algo que não sejam homens] e, muitas vezes, não têm sequer nome. O vídeo surgiu do desejo de levantar questões a partir das temáticas do filme. Claro que o roteiro foi mesclado com improvisações no momento de filmagem. Decidimos brincar com a imagem de homens e mulheres “grávidos”, vestidos com o figurino da protagonista do longa, Olivia, um vestido vermelho e uma peruca azul. Um dos intuitos era colocar a questão: o que aconteceria se os homens engravidassem? Em segundo lugar, queríamos levantar também a questão de como a gravidez no cinema é geralmente representada como algo “cor de rosa, sublime”, esvaziado de complexidade. Hoje, a gravidez é uma escolha e, como toda escolha, pode se tornar um dilema. É curioso que uma escolha tão crucial na vida tanto dos homens quanto das mulheres seja tão pouco explorada nas telas.

Por que o aborto entrou no script? Dentro desse espectro, aparece o aborto, que é uma das questões levantadas no vídeo. Alguns dos textos referentes ao aborto presentes no vídeo foram retirados dos comentários que recebemos na página do filme após a premiação do Festival do Rio, em que dediquei o troféu às mulheres no desejo de que nenhuma brasileira seja vítima do machismo, físico ou verbal, e que toda mulher possa ter soberania sobre o próprio corpo. Comentários como “vadia, se não quer ter filho, fecha as pernas” inundaram a nossa página. Incorporamos tanto os comentários agressivos quanto os que defendiam os direitos das mulheres sobre o próprio corpo. Não estamos “pregando o aborto”. Como falei, é um vídeo que levanta questões e não um vídeo de campanha. Já no meu discurso no Festival do Rio, eu falei a favor da descriminalização do aborto. Se a questão principal é salvar vidas, é preciso dizer que, onde se legalizou o aborto, reduziu-se drasticamente não só o número de mulheres mortas em abortos clandestinos mas o número de abortos realizados. A taxa de abortos nos Estados Unidos, por exemplo, onde a prática é legalizada desde 1973, é duas vezes menor do que no Brasil. A experiência recente do Uruguai mostra que, após a legalização em 2012, o número médio caiu de 33.000 para 7.000 abortos em 2013. Estamos falando de 26.000 abortos evitados por ano. Por quê? Porque, além de ter promovido sua descriminalização, o governo rompeu o tabu e implementou políticas públicas de educação sexual e reprodutiva, planejamento familiar e uso de métodos anticoncepcionais, assim como serviços de atendimento integral de saúde sexual e reprodutiva.


Como se deu o engajamento de diversos atores da Globo na campanha? Eu já conhecia e era amiga de boa parte deles. A maioria assistiu ao filme no Festival do Rio e, quando falei que tinha a ideia de fazer um vídeo que levantasse questões do universo feminino a partir do filme Olmo e A Gaivota, eles aceitaram participar. Ninguém recebeu cachê – os atores são Bruna Linzmeyer, Barbara Paz, Johnny Massaro, Nando Alves Pinto, Ricardo Targino, Alexandre Borges, Julia Lemmertz, Mumu, Nanda Costa, Gus Machado e Julia Bernat. Trabalharam com extrema generosidade doando seu tempo e talento. Acredito que participaram também no desejo de ajudar a divulgar um filme independente, de arte, que sempre enfrenta dificuldades de acesso ao público.

Você conversou com os atores sobre as críticas recebidas pela campanha? Atores e atrizes que colaboraram no vídeo com extrema generosidade passaram a ser perseguidos com mensagens de ódio e ameaças. Os agressores vêm propondo o boicote ao vídeo, ao filme, aos atores e atrizes e até às empresas que os empregam. Nanda Costa se viu forçada a fechar suas contas nas redes sociais diante da virulência dos ataques. Chegou-se ao cúmulo de um vereador de Campinas propor uma moção de censura ao vídeo, na mesma Câmara que aprovou uma “moção de repúdio” a Simone de Beauvoir, após a questão do Enem que citava a frase “Uma mulher não nasce mulher, torna-se mulher”. Temos conversado diariamente sobre esses ataques. Não esperávamos que eles fossem tão agressivos. Mas, historicamente, tudo o que diz respeito ao universo feminino é cercado de tabus, proibições, deturpações, silenciamentos, condenações.

Que críticas a incomodaram mais? As críticas que mais incomodaram foram as que nos ofendem como mulheres. Críticas de baixo nível, inaceitáveis, que expressam o machismo mais agressivo. Deveriam ser passíveis de processo como ocorre com o racismo. Alguns exemplos são: “Vocês têm tem que morrer, suas assassinas”, “Cambada de p***, fecha as pernas”, “Seus doentes, tenho nojo da classe de artistas”, “Fedorentas, vulgares, mal amadas”, “Arranca os úteros, bando de satânicas”, “Ao invés de abortar, se mate”, “Pena de morte é a única pena justa para uma homicida como você”.

Por que é tão difícil tocar nesse tema no Brasil? Por sermos um país majoritariamente cristão, temos evitado sistematicamente falar da questão do aborto. O assunto ainda é sensível ou tabu em diversas crenças. Algumas religiões ainda condenam até mesmo o uso de anticoncepcionais! No entanto, como diz a OMS (Organização Mundial de Saúde), “acabar com a epidemia silenciosa de abortos clandestinos é um assunto urgente de saúde pública e imperativo aos direitos humanos.”

O que acha do projeto do deputado Eduardo Cunha para restringir a possibilidade de aborto no país? Um retrocesso. No Brasil, estamos andando na direção contrária ao que recomenda a OMS desde que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, colocou em pauta a questão do aborto, ao aprovar em primeira instância o Projeto de Lei 5.069, de sua autoria, que, entre outras coisas, dificulta a realização do aborto legal, complica ainda mais o atendimento de vítimas de abuso sexual e, conforme o entendimento, pode vir a proibir a pílula do dia seguinte. O projeto não leva em consideração as condições em que a violência sexual pode acontecer, às vezes dentro de casa, nem a fragilização a que uma mulher vítima de abuso pode ser submetida. A violência contra a mulher tem diversas facetas no Brasil. Desde os ataques machistas verbais que tantas recebem diariamente, às milhares de mulheres estupradas que morrem anualmente como vítimas de violência doméstica. É chocante se dar conta de que mais mulheres morrem assassinadas no Brasil do que na Síria, e de que o nosso país é o quinto no mundo onde mais se matam mulheres: 13 são assassinadas por dia. Mais de 5.000 por ano. A proteção dessas mulheres é o que deveria estar em pauta na Câmara.

Você acaba de lançar um filme que acompanha a trajetória de uma gravidez. Nele, a mãe, Olivia, se sacrifica para ter o bebê, já que a gestação se mostra delicada logo no início. Ela fica de repouso, se arrisca a perder o trabalho, enfrenta uma crise no casamento. Uma leitura possível do filme é de que vale a pena fazer de tudo por uma vida. Isso não contrariaria a campanha pelo aborto? Em primeiro lugar, como expliquei, o vídeo não é uma campanha pelo aborto, mas um vídeo que levanta diversas questões do universo feminino que são suscitados pelo filme. Em segundo lugar, a descriminalização do aborto, se bem feita, levaria a menos abortos, e menos mortes em abortos clandestinos. Portanto, salvaria muitas vidas. Eu sou a favor de acabar com uma epidemia silenciosa de mortes.

Na sua opinião, há situações em que o aborto é condenável? O limite máximo de 3 meses de gravidez deve ser respeitado, tempo aceito por cientistas e especialistas da saúde. Acredito que o Estado e a sociedade deveriam fazer campanhas de planejamento familiar muito mais amplas, com educação e distribuição de diferentes tipos de anticoncepcionais com o acompanhamento necessário. E esses métodos ainda não são perfeitos, falham, e aí entra a hipótese do aborto, mas sempre em último caso. Defender que uma mulher não seja criminalizada por abortar é diferente de defender o aborto como método anticoncepcional. Isso é uma confusão que muitos que nos atacam cometem. Eu não estou em posição de condenar uma mulher pela atitude que ela tomar durante uma gravidez. Quando a gravidez é sacrifício ou prazer, se a mulher se acha em condições ou não de ter um filho, acho que cada mulher tem que julgar por si. A escolha é da mulher em última instância. E não se pode impor um pensamento religioso sobre outra pessoa. Vivemos em um estado laico.

A atriz Patricia Arquette fez um discurso na última premiação do Oscar afirmando que homens e mulheres são tratados de maneira desigual em Hollywood. Como você percebe essa questão no cinema brasileiro? Nunca sofri discriminação no cinema como mulher. No entanto, comecei a fazer cinema por não ver na tela filmes que tratavam das questões que eu vivia como jovem e mulher. Já como atriz, vi algumas vezes discriminação e assédio. Como atriz, algumas vezes me vi tendo de representar papéis maniqueístas, que dividem a mulher entre a imaculada e a profana. O universo feminino é muito mais rico e complexo do que isso. Comecei a fazer cinema por desejo e também por uma sensação de dever de adentrar nessas complexidades. Algo que acontece sistematicamente no cinema é que muitas mulheres conseguem fazer o primeiro filme com poucos recursos. O quadro se complica nas grandes produções que dependem de muito financiamento e que estão nas mãos de produtores. Na maior parte dos casos, esses produtores são homens brancos que querem convidar diretores parecidos com eles para dirigir o filme que eles idealizam. Isso é o caso nos Estados Unidos, que têm uma indústria bem estabelecida. No Brasil, à medida que nossa indústria vá se fortalecendo, espero que possamos traçar um caminho diferente e mais justo.