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Morre Camões, o cachorro que inspirou Saramago

Cão d'água português foi base para Achado, do romance 'A Caverna', um dos muitos do escritor com personagens caninos

“Encontro nos cachorros mais humanidade que nos homens”, afirmou o autor português em 2003

Camões, o cachorro que inspirou José Saramago a criar Achado, o melhor aliado do oleiro protagonista do romance A Caverna, morreu nesta quinta-feira em Lanzarote, ilha do arquipélago das Canárias onde vivia o escritor. A morte foi anunciada pela viúva de Saramago, Pilar del Río, em um texto emocionado publicado no site da fundação que leva o nome do autor.

“Morreu Camões, o cão que inspirou Saramago” é o título dado por Pilar del Río ao texto de despedida ao animal, que chegou à casa de Lanzarote em 1995, na ocasião em que o escritor soube que havia levado o Prêmio Camões. “Entra, chegaste a tua casa. Assim entrou Camões na vida de José Saramago”, escreve a viúva do prêmio Nobel de Literatura sobre o cachorro, “doce e nobre”, que foi batizado com o nome do grande clássico português.

O escritor e sua esposa conviviam com três cachorros na casa de Lanzarote, todos recolhidos da rua: Pepe, um poodle; Greta, uma fêmea yorkshire; e Camões, da raça conhecida como cão d’água. Ele era o único que ainda estava vivo.

“Quando Camões apareceu por aqui, com seu pelo preto e a exclusiva gravata branca que o distingue de qualquer outro exemplar da espécie canina, todos os humanos de casa se pronunciaram sobre a suposta raça do recém-chegado: um poodle. Fui o único que disse que poodle não era, mas cão d’água português”, escreveu o romancista em seu blog, em fevereiro de 2009.

Nesse texto, Saramago falava do animal, de seus companheiros Pepe e Greta (“que já foram embora para o paraíso dos cachorros”), e brincava com a coincidência de o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ter escolhido um cão d’água português para as filhas. “Novos tempos se aproximam”, dizia com ironia.

O autor se inspirou em Camões para criar Achado, o cachorro de honorável comportamento que aparece — também de repente — na casa do oleiro Cipriano Algor, em A Caverna (2000).

Mas este não é o único caso no qual os cães são portadores de mensagens nos livros do Prêmio Nobel de Literatura 1998. Em Ensaio Sobre a Cegueira, um cachorro bebe as lágrimas de uma mulher, uma cena da qual o escritor se mostrava especialmente orgulhoso.

Em O Homem Duplicado, o cão Tomarctus salva o protagonista do romance, Tertuliano Máximo Afonso, e, em A Jangada de Pedra, os cinco protagonistas encontram um cachorro que o escritor batizou como Constante (entre outras opções como Fiel, Piloto e Sentinela), por seu afã de acompanhar um dos personagens até o túmulo.

“Encontro nos cachorros mais humanidade que nos homens”, afirmou o autor português em 2003 no México, uma das ocasiões nas quais falou longamente sobre sua relação com os cães, e o papel que estes tiveram em seus romances.

(Com agência EFE)