Michael Madsen diz que seu personagem em ‘Federal’ não é apenas mais um vilão

O ator preferido de Quentin Tarantino elogia o estreante Erik de Castro e considera 'Cidade de Deus' um dos cinco melhores filmes que já viu

“Neste momento prefiro estar aqui do que no meu próprio país. O Rio é um bom lugar para estar no dia de hoje e comemorar meu aniversário. Quero passar a noite olhando para o mar, e bebendo umas caipirinhas ao lado da minha mulher”

O andar de cowboy, com botas de couro, calça jeans apertada, anel em forma de ferradura e tatuagens nos braços ajudam a compor a figura que fez Michael Madsen virar ator fetiche do diretor Quentin Tarantino, que o escalou para atuar em quase todos os seus filmes. Mas a lembrança do terrível Mr. Blonde, de Cães de Aluguel, fica por aí. Do alto de seus quase um metro e noventa, Madsen é de uma gentileza a toda prova. Em entrevista a VEJA.com, o ator disse que ficou encantado com o roteiro de Federal, do diretor estreante Erik de Castro, e, por isso, pediu ao seu agente para facilitar as negociações com a produtora Europacorp, de propriedade de seu amigo Luc Besson, sócio dos brasileiros na distribuição internacional do filme. Além de agradecer a Erik “pela paciência”, Madsen não poupou elogios aos colegas de elenco. “O que eu mais gostei foi a capacidade de improvisação dos atores brasileiros.”

Ao falar de cinema brasileiro, Madsen resgata uma obra remota: Pixote, a Lei do Mais Fraco, de Hector Babenco, rodado em 1981. Declara ter gostado muito do filme, mas guarda os maiores elogios para Cidade de Deus‘, que considera um das cinco melhores a que assistiu em toda a sua vida. Ele a compara ao seu filme predileto, o clássico A Face Oculta, imortalizado por Marlon Brando. Diz que o filme “mexeu com ele” e afirma que levou para casa a dor daquelas personagens, e que ainda pensa no drama das crianças brasileiras que passam pelos mesmos problemas abordados no filme de Fernando Meirelles.

Ao final da entrevista, Madsen revela mais uma faceta surpreendente. Além de ator e fotógrafo amador, ele também é poeta. Mostra o seu primeiro livro The Complete Poetic Works of Michael Madsen, que está negociando com um dos produtores de Federal para lançar no Brasil. O livro é um apanhado de memórias dos últimos dez anos de carreira, poesias que escrevia nos sets de gravação, fotografias tiradas dos bastidores dos filmes em que trabalhou e, até, a última carta que recebeu de seu amigo David Carradine, morto em 2009.

Madsen, que completa 53 anos neste sábado, contou que, apesar de “estar velho”, vai fazer uma pequena reunião para comemorar com a mulher, a atriz Deanna Madsen, em algum lugar com vista para as belas praias cariocas, um lugar que ele ouviu falar durante toda a sua vida e que está feliz por conhecer. “Neste momento prefiro estar aqui do que no meu próprio país. É um bom lugar para estar no dia de hoje e comemorar meu aniversário. Quero passar a noite olhando para o mar, e bebendo umas caipirinhas ao lado da minha mulher”, finalizou.

Como surgiu o convite para filmar no Brasil?

Em uma conversa com os meus amigos Luc Besson e Pierre-Ange Le Pogam em uma noite na França. Eles me falaram de um filme brasileiro que precisava da participação de um ator americano, e que eles achavam que tinha o meu perfil. Então eu pedi para eles enviarem o roteiro para meu agente nos Estados Unidos. Quando eu li achei o roteiro bom, a história boa. E é isso o que importa para mim. Se uma história é boa eu já tenho bons motivos para querer filmar. Depois vieram as negociações. Mas para mim o principal já estava resolvido.

Você representa um mau policial do Departamento de Combate às Drogas norte-americano. O que faz do seu papel como o agente Sam Gibson ser diferente de outro policial corrupto?

Em todos os filmes existem os caras bons e os caras maus. Mas eu não queria ser apenas um cara mau. Acho que o Gibson tem muitas questões internas. Ele é mais que um corrupto, é mais que um policial, é uma pessoa. Não é só um cara que saca o revólver para dar tiros, ele é uma pessoa que pensa muito antes de falar e agir. Eu quis entender o que se passava pela cabeça dele e mostrar isso na tela.

Não foi difícil o trabalho num set onde se falava português?

Não. Aprendi algumas palavras de português, mas as pessoas falavam comigo em inglês. Além disso, nos bastidores ou no próprio filme eu me entendia com os atores brasileiros olhando nos olhos. Porque a linguagem da interpretação é universal. Eu procurava entender os olhares e a expressão de cada um deles. Gosto muito disso de prestar atenção na expressão das pessoas, eu faço isso nos meus filmes como faço na vida.

O que você conhecia do trabalho do diretor do filme, Erik Castro?

Na verdade eu não conhecia os trabalhos dele anteriormente. É um jovem bastante talentoso e atencioso no set e muito paciente comigo. Ele entendia a minhas transgressões ao texto e deixava rolar. É preciso ser seguro para entender isso e ele foi. É uma pessoa tranqüila e divertida, que eu quero trabalhar novamente.

De que você mais gostou no trabalho com os atores brasileiros?

Existem atores sensacionais aqui. O que mais me impressionou foi a capacidade de improvisação dos atores brasileiros. Eles não param se algo deu aparentemente errado em uma cena. Eles se adaptam à situação e continuam interpretando até levar a cena para um caminho certo.

Você disse que Cidade de Deus é um dos cinco melhores filmes que viu na vida. Por que?

Esse filme é um show. Aqueles atores que eu nunca tinha ouvido falar dão uma aula de interpretação. Aquelas crianças… é um fenômeno como aquelas crianças conseguem filmar algo com aquilo com tanta intensidade. O filme mostra a vida com ela é. É muito emocionante. Eu me interessei por todas as personagens e até hoje penso naquelas crianças.

Seu primeiro filme como diretor The Human Factor fala a respeito desse mesmo universo de pessoas menos favorecidas. É sobre os sem teto dos Estados Unidos. Com que olhos você acha que os norte-americanos vêem os sem teto e necessitados do resto do mundo? Acho que eles não sabem o que fazer sobre isso. Eu não acho que existam políticas para resolver este problema.Os americanos não olham para os desfavorecidos, não conhecem o resto do mundo. O meu filme vai falar da corrupção no governo, um tema espinhoso para se abordar. É uma pergunta difícil de responder. Talvez depois do filme.

Você fez 187 filmes. Mas informalmente o recorde mundial é de um brasileiro já falecido chamado Wilson Grey, que dizia ter feito quase 500 filmes. Pretende bater o recorde dele?

Eu não acredito! É verdade? Uau, 500 filmes. Não sei se vou estar vivo até lá, acho que vou morrer antes! (Risos) Mas agora é questão de honra, eu tenho que atingi-lo. E superá-lo, vou fazer 600 filmes, pode escrever isso!

Como será a comemoração de seu aniversário?

Quando você fica velho, não liga para essas coisas, prefere paz e sossego. Não vou fazer nada em especial, vou apenas sair para jantar e comer um bolo com a minha mulher e alguns poucos amigos brasileiros. Estou feliz de passar esse aniversário aqui no Brasil. Eu ouvi falar sobre o Rio a minha vida inteira, mas nunca tinha tido a oportunidade de estar aqui. É um bom lugar para estar no dia de hoje e comemorar meu aniversário. Quero passar a noite olhando para o mar, e bebendo umas caipirinhas ao lado da minha mulher.