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‘Lourdes’: um milagre desperta as questões que angustiam os homens

“Nada questiona mais a fé que um milagre”. Diante da cura milagrosa de uma mulher, um grupo de peregrinos do qual ela faz parte se interroga: por que ela ? O filme “Lourdes” de Jessica Hausner, estreia nas salas de cinema da França nesta quarta-feira, desenhando um microcosmo revelador dos tormentos do Homem.

Christine (Sylvie Testud), vítima de uma esclerose em placa, uma doença do sistema nervoso central, lentamente progressiva, não domina mais o próprio corpo. Com a Ordem de Malta, ela mergulha nas piscinas da gruta de Lourdes, e confia ao sacerdote a própria revolta: “Por que eu?”

Elina Löwensoh, no papel de madre superiora impenetrável, vela pela boa orquestração do cotidiano, com todos os personagens aprendendo a coabitar e a rezar juntos.

Neste clima de fervor, quase que de opressão, desenvolve-se uma comédia humana, que chega ao auge quando Christine se descobre curada, uma noite.

Seria um milagre ? Os participantes da peregrinação às vezes fascinados, às vezes duvidosos, se interessam de repente pela jovem mulher e se veem confrontados à própria fé.

Os peregrinos evoluem num sistema social no qual cada um tem sua teoria, e se perguntam os motivos de um tal milagre, sem obter outra respostas senão a do sacerdote, que vê nisso apenas “a graça e o mistério de Deus”.

O filme aborda questões existenciais (Por que eu ? Em que acreditar?). em meio a sentimentos de beatitude (a mãe que vê sua filha sair curada de um estado vegetativo), de injustiça e de crueldade (o olhar de um inválido para Christine que agora pode andar).

A cineasta austríaca evita o patético, mas toca o espectador com seu balé de personagens desorientados.

A “Ave Maria” de Schubert, no final do filme, deixa o sentimento de que os homens deveriam se concentrar sobre a felicidade, evitando questionar a própria razão de ser.