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Laís Bodanzky mostra com delicadeza os dilemas da mulher moderna

'O cinema é perfeito para discutir ideias porque ele fala direto ao coração', disse a diretora de ‘Como Nossos Pais’, apresentado em Berlim

Sete anos depois de As Melhores Coisas do Mundo, Laís Bodanzky retorna com Como Nossos Pais, exibido na mostra Panorama no 67º Festival de Berlim. Em seu novo filme, ela se volta para a mulher contemporânea por meio de Rosa (Maria Ribeiro), que sofre para equilibrar a profissão, a maternidade, o casamento, os pais e a vida pessoal. Sua relação com a mãe, Clarice (Clarisse Abujamra), é no mínimo conflituosa. O casamento com Dado (Paulo Vilhena), que contribui pouco em casa e viaja sempre por conta de seu trabalho, protegendo índios ianomâmi, está por um fio. Não à toa, ela vai se aproximando de Pedro (Felipe Rocha), pai de um dos coleguinhas de escola de uma de suas duas filhas. O pai, Homero (Jorge Mautner), é artista, avoado, sem noção da vida prática.

Rosa só olha para si mesma quando é obrigada: sua mãe confessa, sem amaciar, que seu pai não é Homero, mas, sim, o político Roberto Nathan (Herson Capri). A protagonista então vai ter de descobrir quem é e como quer levar sua vida. Como Nossos Pais tem os dois pés bem fincados no naturalismo e na discussão da sociedade hoje. É um filme cheio de coração, como costumam ser os trabalhos da diretora, mas, desta vez, algumas cenas fluem com mais dificuldade do que o normal na sua obra. Laís Bodanzky conversou com o site de VEJA sobre o longa-metragem, que já tem distribuição garantida em vários países:

 

O que despertou a ideia? Eu acho que este filme surgiu um pouco da minha observação no meu cotidiano, conversando com amigas, lendo uma revista, percebendo a temática da mulher hoje. Minha ideia surgiu antes da chamada primavera do feminismo, que a gente considera no Brasil. Tanto que, quando a ESPN me convidou para dirigir um documentário sobre a memória olímpica, de tema livre, decidi focar no ponto de vista da mulher. Porque o tema da mulher me interessava. E de certa forma me serviu de base para este filme. Essas esportistas me narraram coisas que nem elas se davam conta de que era uma opressão invisível da sociedade. Comecei a falar com amigas e percebi como isso é cotidiano.

Você se percebeu também vítima dessa opressão? Muito. Mas a palavra vítima é meio engraçada. Vou dar um exemplo engraçado: eu, menina, quando comecei a trabalhar com cinema, queria ser fotógrafa. E a fotografia de cinema tem uma hierarquia muito rigorosa. É quase militar. Então ou você cumpre ou não tem direito de ter a patente. Você precisa começar como assistente do assistente do assistente. Eu consegui uma vaga e fui trabalhar. O que eu tinha de fazer? Carregar equipamentos pesadíssimos. Eu, fisicamente, não aguentei. Então desisti de uma profissão, de ser fotógrafa, que não tem nada a ver com força física, que é uma visão de mundo, um olhar artístico. Não segui uma profissão, sem me dar conta, por uma barreira física. Hoje em dia que as mulheres fotógrafas falam: Dá licença que eu vou fotografar. Nós não tínhamos nem essa consciência de que nós éramos proibidas de fazer parte desse meio. Hoje é tão óbvio, mas eu não enxergava na época.

A Rosa sente que precisa ser perfeita em tudo. Sente-se pressionada? Sim, mas não é só que os outros me cobram. Eu me cobro. É um esforço diário não se cobrar. A mudança de hábito é muito complexa. É um exercício diário, de atenção.

Acha que as relações entre mulheres são bem exploradas no cinema? Acontece uma coisa curiosa, normalmente a gente vê a relação da filha com o pai, com a figura masculina. É uma psicanálise de bar, então todo o mundo se dá o direito de ter opinião ou de fazer uma pequena análise. Mas a gente não fala da relação da filha com a mãe, que é muito profunda. Nesse sentido a gente esbarra na tragédia. São pequenas coisas do cotidiano em que no fundo nós estamos falando de relação entre mulheres e de gerações distintas, o que se torna mais complexo. Uma mãe que tem sua filha entrando na adolescência ou uma filha cuja mãe já está enxergando a morte de perto estão vivendo contrastes. É um conflito natural. É geracional. Ele existe. É um problema que talvez não tenha solução, mas, se a gente começa a falar sobre ele, a tomar consciência, ameniza. A gente pode melhorar a vida de muitos.

Maria Ribeiro e Clarisse Abujamra em cena de ‘Como Nossos Pais’

Maria Ribeiro e Clarisse Abujamra em cena de ‘Como Nossos Pais’ (Divulgação)

O que aprendeu com sua mãe? Muita coisa. Eu faço uma homenagem à minha mãe, ela ficou emocionada quando viu. A personagem fala: “Ah, obrigada por ter me levado ao show da Rita Lee”. E eu falei isso para minha mãe pelo filme. Nunca tinha falado isso para ela, mas de fato ela me levou ao show da Rita Lee quando eu era criança, e isso marcou minha vida até hoje. São pequenos atos, que a gente acha que são uma bobagem, mas não são.

Mudou alguma coisa na sua forma de trabalhar? Este filme foi um pouco diferente porque eu tive muita vontade de escrever também. Nos meus outros filmes, a ideia partiu de mim, sempre participei da confecção do roteiro, mas nunca sentei sozinha no computador. Sempre foi o Luiz Bolognesi, que é meu grande parceiro e é também neste filme. Mas num certo momento senti a necessidade de inverter com ele. Sempre ele escrevia sozinho, eu vinha, lia, a gente conversava. Desta vez foi o contrário. Fiquei sozinha com as palavras, aí ele lia, e a gente conversava. A troca aconteceu, não foi diferente.

Como chegou na Maria Ribeiro para ser a protagonista? Sempre foi ela. Conheço os outros trabalhos dela no cinema, mas o que me fez ter certeza foi ela mesma. Eu sabia que ela era uma boa atriz. Não era essa a questão. O que eu queria era uma pessoa que pensasse junto comigo o tema. E o fato de ela ter ficado quatro anos num programa como o Saia Justa, toda semana, falando sobre a temática da mulher hoje… Ela tem muita opinião, é divertida, polêmica, mas uma vibração, uma energia, que não é da vítima. Sempre enxerguei a Rosa com uma energia parecida. Achei que ela ia ter a generosidade de emprestar essa visão de mundo para a personagem, e foi o que aconteceu.

A personagem não coloca o homem como o opressor. Acha isso importante para as discussões sobre feminismo? Sim. Na verdade, seja em qual formato de família for, se você não combina as regras do jogo com os envolvidos, vai dar errado. Então a questão com o homem é essa, não é um contra o outro, é junto. Como fazer para conviver. E o filme propõe essa discussão, ele não dá a solução, tá? Mas acho que ele provoca as pessoas a voltarem para casa e baterem um papo, por que não?

Cena de ‘Como Nossos Pais’

Cena de ‘Como Nossos Pais’ (Divulgação)

Acha que o cinema também serve para isso, para mudar paradigmas? Tenho certeza absoluta por causa dos meus outros filmes, de anos que a gente fez o cinema itinerante. Você vê como o cinema é capaz de interferir na vida de uma pessoa. Não há dúvida disso. O cinema é perfeito para discutir ideias porque ele fala direto ao coração. Vou dar um exemplo bobo: fui assistir a La La Land: Cantando Estações, com minhas filhas, tudo ótimo, delícia. Não é um filme obrigatório, você vive sem ele, mas é legal. No dia seguinte, quando acordei, eu tinha tido um sonho tão gostoso… Não sonhei com o filme. Mas relacionei diretamente com a sensação do filme. Eu me senti bem por causa do filme e ganhei de presente aquele sonho.

O que representa ter exibido o filme em Berlim? Estou muito feliz. Sempre quis participar de um festival A. É meu quarto longa, nunca estive num festival assim. Estou me sentindo muito completa. Fiquei encantada. Tem os debates, os jornalistas se interessaram. Não sabia que ia ser tão importante. O filme já foi vendido para vários territórios. Nunca tive isso. Isso é mercado, gera economia, não que eu tenha pensado no mercado. É uma realização artística, fiz o filme em que acreditava, e é uma realização econômica. Estou muito feliz.