John Neschling é levado a depor na CPI do Teatro Municipal

Comissão investiga fraudes e desvios na instituição, da qual músico era diretor artístico até poucos dias

Afastado do comando do Teatro Municipal sob suspeita de corrupção, o maestro John Neschling depõe na manhã desta quarta-feira na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga fraudes e desvios na instituição, instalada na Câmara dos Vereadores de São Paulo. Neschling teve um pedido de condução coercitiva expedido, mas, de acordo com a assessoria do maestro, ele aceitou participar da CPI e por isso não chegou a ser conduzido para a Câmara de maneira coercitiva.

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Na última quinta-feira, Neschling acusou o prefeito Fernando Haddad (PT) de traição. Haddad, que primeiramente disse que iria manter o maestrro no posto a menos que se provasse seu envolvimento no esquema de corrupção do Teatro Municipal, depois decidiu sacá-lo da direção artística. Em entrevista ao jornalista Mario Sergio Conti, do canal pago Globonews, o músico reafirmou que havia recebido do petista a garantia de que só deixaria o posto quando quisesse, já que nenhuma prova de seu suposto envolvimento no esquema de corrupção que desviou 15 milhões de reais do teatro foi apresentada até agora pela Controladoria Geral do Município. “Ele disse na quinta-feira: fique tranquilo. De mim, não partirá essa injustiça. Na segunda, fui demitido. Não por ele, mas pelo IBGC (Instituto Brasileiro de Gestão Cultural), com ordem dele, evidentemente.”

Segundo Neschling, o aval dado pelo prefeito tem relação direta com a campanha eleitoral — Haddad é candidato à reeleição e o caso do teatro poderia prejudicá-lo. Durante a reunião entre eles, realizada na semana passada, essa pressão política pela saída do maestro chegou a ser mencionada. “Falei que, se essa pressão continuasse e de forma extremamente desagradável para a campanha, eu iria embora. Falei que não tinha problema, mas ele falou que, pelo amor de Deus, que não fizesse isso.”

Os desdobramentos seguintes, de acordo com o músico, representaram para ele uma “grande decepção”. Durante a entrevista, disse que Haddad era uma pessoa em quem ele acreditava, confiava e com quem tinha diálogos abertos. “Nesses três anos, pensei ter encontrado um político que realmente era diferente, mas, infelizmente, vi que ele não é diferente em nada. Que na hora do vamos ver, na hora em que a vaca vai para o brejo, ele é como todos os outros políticos e trai da mesma forma que todos traem”, completou.

A gestão Haddad não quis comentar a entrevista. Na segunda-feira, após a notícia da demissão de Neschling, a Prefeitura divulgou nota na qual afirmou que o IBGC tem autonomia para definir sobre o afastamento do músico.

Investigações — O nome de Neschling foi citado nas investigações em março pelo ex-diretor da Fundação Theatro Municipal, José Luiz Herência, primeiro delator do esquema. No acordo que firmou com o Ministério Público Estadual, ele afirma que o músico não só sabia das fraudes, como participava delas, usando a indicação de espetáculos superfaturados ou a contratação de artistas internacionais por valores superiores aos praticados no País.

Um dos projetos sob investigação, o Alma Brasileira, custou 1 milhão de reais à cidade, apesar de nunca ter sido montado.

De lá pra cá, o maestro passou a ser oficialmente investigado pelo Grupo Especial de Combate a Delitos Econômicos (Gedec) e foi novamente acusado, desta vez pelo ex-diretor do IBGC, William Nacked, que também teve acordo de delação homologado pela Justiça. Assim como Herência, Nacked afirma que Neschling participava do esquema ao contratar espetáculos de agentes que depois o chamavam para apresentações no exterior, como uma espécie de “toma lá, dá cá”.

O músico nega qualquer tipo de participação e considera a demissão um ato unilateral, que pretendeu extinguir seu contrato de “forma ilegal e arbitrária”. Diante da situação, o músico afirmou que, juntamente com seus advogados, tomará as providências legais cabíveis. O IBGC não informou o motivo da demissão.

(Com informações do Estadão Conteúdo)