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John Green filosofa com adolescentes no divertido ‘Cidades de Papel’

Rito de passagem para a vida adulta é um dos assuntos principais do filme inspirado no livro do autor de ‘A Culpa É das Estrelas’

É fácil entender por que John Green conquistou o título de autor favorito dos adolescentes. Sua escrita leve, que mistura bom humor e drama, oferece histórias com pé no chão sem subestimar os leitores – elevados em seus livros ao posto de filósofos, por meio de personagens que articulam diálogos existenciais complexos, difíceis de se imaginar na boca de jovens de 16 anos. A Culpa É das Estrelas, dramalhão que fez mais de 6 milhões de espectadores no Brasil no ano passado, é um bom exemplo do estilo do escritor, que nele fala sem pudores do medo humano da finitude da vida. Já a sua segunda adaptação para as salas escuras, Cidades de Papel, mais alegre e de fácil identificação, é o tipo de história que tem potencial para, no futuro, ser lembrada como um clássico adolescente.

Muito menos dramático do que A Culpa…, Cidades de Papel, que chega nesta quinta-feira ao Brasil, segue de perto o rito de passagem para a vida adulta de um grupo de adolescentes nos últimos dias do colegial. Os clichês da fase estão ali, mas reformulados. A garota bonita inalcançável, o rapaz com uma paixão platônica, o grupo de amigos deslocados em busca de uma companhia para o baile de formatura – e, com alguma sorte, a perda da virgindade. O que não é óbvio é o modo como a história é conduzida pelo autor, que ganhou uma mãozinha do diretor Jake Schreier e dos roteiristas Scott Neustadter e Michael H. Weber, trio responsável por alterar trechos importantes do livro, deixando a trama mais dinâmica, com boas viradas.

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A filosofia para iniciantes aparece logo no título. “Cidades de papel” é uma expressão usada por cartógrafos que marcam um local em um mapa com um nome fictício, termo que não poderá mais ser usado por outro lugar. Green faz um paralelo entre a prática e as pessoas que desfilam um estilo de vida falso e pretensioso – que não estão ali de verdade, assim como os pontos do mapa. “É uma cidade de papel. Com casas de papel e pessoas de papel”, diz em certo momento a jovem Margo Roth Spiegelman (Cara Delevingne). Presente em todos os filmes adolescentes de Hollywood, a garota bonita e popular do colégio é, nas mãos do escritor, um objeto misterioso, que aparenta confiança, mas no fundo combate uma grave crise existencial. “Você nem me conhece”, diz a jovem ao ouvir a declaração de amor de seu admirador.

Quentin Jacobson (Nat Wolff) é o tal admirador que alimenta uma longa paixão platônica pela jovem. Vizinho, ele foi amigo de Margo na infância, enquanto as diferenças marcantes que surgiriam após a puberdade não os separavam. A jovem mal fala com ele ao longo de todo o colegial. Isso até a noite em que ela entra pela janela do seu quarto e pede ajuda. Quentin, chamado por ela apenas de “Q”, entra na aventura noturna em que a garota se vinga de seus desafetos, como o namorado que a traía e a melhor amiga que a chamava de gorda.

O momento rápido é crucial para o restante da trama e também para confrontar o rapaz, que ali percebe a pequena área da sua zona de conforto. O excesso de limites, que ele mesmo se impõe, parecem prontos a guiá-lo por uma vida previsível e estável, com casamento, filhos e uma faculdade de medicina – cada um em seu devido momento.


Mas então o rapaz tímido e certinho se vê desestabilizado porque, após a noite de aventuras, Margo desaparece. Quentin recruta os seus dois melhores amigos, o estável Radar (Justice Smith) e o bobalhão Ben (Austin Abrams) para ajudá-lo a decifrar as pistas deixadas pela vizinha. O roteiro aí sai da escola para tomar o formato de road trip. Juntam-se aos rapazes as belas Angela (Jaz Sinclair), namorada de Radar, e Lacey Pemberton (Halston Sage), ex-melhor amiga de Margo, que se mostra realmente preocupada com o desaparecimento dela.

Na viagem que cruzará a costa leste americana, do Estado da Flórida até Nova York, a trupe passará por situações cômicas e tristes. Especialmente Quentin, que encara as agruras da idealização de um ser humano, enquanto não valoriza os que realmente estão ao seu lado. “Que coisa mais traiçoeira é acreditar que uma pessoa é mais do que uma pessoa”, diz o rapaz quando encara sua paixão platônica.

Além do roteiro bem escrito, soma-se à produção a interessante trilha sonora, composta especialmente por jovens nomes do pop e do indie rock. Também merecem destaque as atuações do jovem elenco, especialmente de Wolff, que começou cedo em um seriado infantil no canal Nickelodeon e agora constrói uma boa carreira no cinema. A modelo Cara Delevingne aparece pouco, mas faz um bom trabalho ao construir uma personagem que vive em duas dimensões. Sua proeza, contudo, está em não chamar a atenção apenas pela beleza, mas também por detalhes como o olhar vazio e a entonação da voz rouca, um reforço bem-vindo na hora de dar vida às frases cabeças do filosófico John Green.