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IMPERDÍVEL: Francês faz viagem só de ida em ‘Um Doce Refúgio’

Filme tem herói vacilante que se lança em uma aventura em cima de um caiaque

(Comme un Avion, França, 2015) Há quem diga que, no fundo, todas as histórias são reescritas de Odisseia: na estrutura, todas têm um herói — ou um personagem menos potente, mas vá lá — em busca de algo que lhe é de valor. Um Doce Refúgio, longa de Bruno Podalydès que estreia agora no país, pelo menos, se encaixa na tese, e de modo gracioso. O filme tem um herói vacilante, ou com alma de artista, como se diz: o designer Michel (o próprio Podalydès), que se divide entre projetos de 3D na agência do amigo para quem trabalha e os hobbies pouco usuais com que ocupa o tempo livre, ainda mais livre agora que os filhos já saíram de casa. A cria, aliás, nem aparece no longa. O foco está sobre o sonhador Michel, que, apesar do ciúme da mulher, Rachelle (Sandrine Kiberlain), recebe dela mesma aquele apoio que faltava para se lançar em uma nova aventura. Depois de uma breve discussão sobre palíndromos no trabalho, Michel fica obcecado com “kayak” (no Brasil, caiaque), palavra que pode ser lida da mesma maneira de trás para frente. Kayak, kayak, kayak, repete sem parar, o que o leva a pesquisar e, tchanam, comprar um imenso caiaque pela internet. Como uma criança com medo da mãe, ele a princípio esconde o brinquedo novo da mulher, que termina por desconfiar das atitudes do marido e o faz confessar que, assim como fez outra vez com um ukulele, Michel acabou de descobrir um novíssimo sonho de infância. “E o que você está esperando para remar de verdade?”, questiona Rachelle, quando descobre que o marido pratica o remo na cobertura do edifício onde moram. É aí que Michel inicia a sua viagem, que faz lembrar outra máxima de Odisseia: voltar quase sempre é partir para um outro lugar.