Ewan McGregor não dá conta de Philip Roth em ‘American Pastoral’

Em sua estreia na direção, ator escocês tem dificuldades com a história da transformação da sociedade americana nos anos 1960 pela ótica de uma família

Um dos maiores escritores americanos, Philip Roth não tem adaptações cinematográficas à altura de seus livros. É o caso de American Pastoral, ambiciosa estreia na direção do ator Ewan McGregor, que também interpreta o protagonista Seymour “Swede” Levov, o exemplar aparentemente perfeito do sonho americano na década de 1940. Atleta festejado, soldado na Segunda Guerra, casa-se com Dawn (Jennifer Connelly), ex-miss, com quem tem uma filha, Merry (interpretada em diferentes idades por Ocean James, Hannah Nordberg e Dakota Fanning). Levov poderia ter feito o que quisesse na vida, mas resolveu seguir a tradição e assumir a fábrica de luvas de seu pai, um negócio em extinção.

Por trás da aparência, no entanto, as coisas não são assim tão certinhas. A filha do casal gagueja ao falar, algo que a terapeuta suspeita ser uma estratégia para competir pela atenção do pai com sua bela mãe. A imagem da autoimolação do monge budista Thích Quang Duc em 1963, em protesto contra a política do governo do Vietnã do Sul, choca a menina. Adolescente, ela engaja-se nos protestos contra a Guerra do Vietnã e torna-se suspeita de explodir uma bomba na agência do correio local, matando uma pessoa. Merry desaparece, o que desestabiliza completamente a família. Seymour não desiste de encontrá-la.

No livro publicado em 1997 e vencedor do Pulitzer no ano seguinte, Roth registra o fim do sonho americano nos anos 1960, com os protestos contra a guerra, os movimentos pelos direitos civis e os tumultos em Newark que resultaram em dezenas de mortes. É um período riquíssimo, e a fratura da família Levov, na verdade, reproduz a da sociedade americana, que jamais seria a mesma.

O problema é que dificilmente dá para explorar em menos de duas horas a complexidade de um romance de mais de 400 páginas. No caso de American Pastoral, o começo já é problemático, porque o roteiro de John Romano mantém o escritor Nathan Zuckerman (alter ego do próprio Roth e interpretado por David Strathairn) como o narrador da história a partir do encontro com Jerry (Rupert Evans), irmão de Seymour, numa reunião de ex-colegas de classe. O recurso faz com que a trama seja contada, em vez de mostrada. Em vários outros momentos, o problema se repete, com soluções que funcionam melhor no papel do que no cinema. Falta força dramática. McGregor simplesmente não dá conta do denso material.