Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Entrevista: David Nicholls, de ‘Um Dia’, um best-seller de respeito

Autor do fenômeno de vendas que virou filme vem ao Brasil para participar da Bienal do Livro do Rio. Na mala, mais do que títulos que vendem como água: uma boa narrativa, críticas elogiosas e uma indicação ao Man Booker Prize

Depois de vender 5 milhões de cópias do romance Um Dia pelo mundo – 450.000 só no Brasil – e de adaptar a obra para um filme estrelado por Anne Hathaway e Jim Sturgess em 2011, o inglês David Nicholls se lança novamente no universo dos relacionamentos em Nós (tradução de Alexandre Raposo, Intrínseca, 384 páginas, 39,90 reais a versão impressa ou 24,90 reais o e-book), publicado no país no começo de agosto. Ao contrário do livro que o alçou à fama internacional, no entanto, a nova história não é centrada apenas na relação amorosa entre um homem e uma mulher, mas abre espaço para as interações nem sempre amistosas entre pai e filho. Os personagens são o bioquímico Douglas, sua esposa, Connie, e o filho adolescente do casal, Albie. Eles fazem uma viagem juntos – talvez sua última jornada como família. A narrativa de Nicholls, longe daquela dos best-sellers açucarados que entopem as prateleiras das livrarias, escapa ao sentimentalismo e oferece uma visão realista dos relacionamentos. A diferença foi reconhecida pelo prestigiado Man Booker Prize, que colocou o escritor em sua lista de treze pré-finalistas, em 2014. David Nicholls, que desembarca no Brasil para participar da Bienal do Livro do Rio nesta semana, é um best-seller de respeito.

LEIA TAMBÉM:

Autor de ‘Um Dia’ e fenômenos brasileiros participam da Bienal do Livro do Rio

Colm Tóibín brinca com expectativas do leitor no romance ‘Nora Webster’

Por que isso é ficção? Uma conversa com Cristovão Tezza

“A tristeza, a ansiedade, o constrangimento e o arrependimento estão sempre à espreita, mesmo nos nossos momentos de maior alegria”, diz o inglês em entrevista ao site de VEJA. O tom agridoce de fato impera em Nós, que começa com uma discussão de relacionamento (a famosa DR) no meio da noite entre Douglas Petersen, de 54 anos, e Connie, que o acorda para dizer que quer se separar após mais de duas décadas. Apesar da decisão, o casal decide manter os planos de levar o filho, Albie, adolescente e rebelde, a uma viagem pelos museus e galerias da Europa, em uma espécie de versão econômica do Grand Tour, roteiro feito por jovens nos séculos XVII e XVIII para aprender história e arte, como uma espécie de rito de passagem para a vida adulta. Albie, que está prestes a entrar para a faculdade, preferia curtir as férias com os amigos em Ibiza ou fazer um mochilão pela Colômbia, mas é convencido pela mãe, com quem sempre teve uma relação mais próxima, a ir, pois essas seriam as últimas férias que os três teriam juntos. O narrador é Douglas, que confidencia ao leitor apostar na viagem para reconquistar mulher e filho. Ele também relembra, ao longo das páginas, os momentos mais importantes da sua vida desde o encontro com Connie.

De início, Douglas chega a despertar pena por se mostrar um homem metódico que parece venerar a mulher e que só recebe olhares de desprezo do filho, mas no avançar das páginas fica claro que ele não é tão “inocente” quanto aparentava ser. Seu jeito organizado demais sempre bate de frente com o espírito livre de Connie, que na juventude tinha o sonho de ganhar a vida com as artes plásticas, universo que Douglas nunca compreendeu muito bem – em visitas a galerias de arte, seus comentários se resumem ao que ele aprendera em guias turísticos e a observações óbvias (“L’Automne, por Arcimboldo. Veja, Albie, o rosto é feito de frutas e legumes!”). Com o nascimento do filho, a situação não melhora. Douglas transforma sua neurose em implicância com Albie, que acredita ser uma decepção para o pai.

O livro de Nicholls, que vendeu 15.000 exemplares no Brasil em menos de um mês, foi recebido com festa também pelo mercado editorial britânico. Além de uma indicação a um prêmio importante, o escritor colheu diversos elogios da crítica especializada. Sua bibliografia, composta também por Um Dia, O Substituto e Resposta Certa, já foi traduzida para mais de quarenta idiomas. Não é uma obra extensa, mas é suficiente para atestar que Nicholls entende de unir amor e de comédia, fusão irresistível principalmente no cinema, que não raro entrega resultados desastrosos, cheios de clichês e de soluções fáceis. Temperada com bons diálogos e personagens redondos como os que oferece o escritor, contudo, a fusão é capaz de proporcionar entretenimento – por que não? – de qualidade.

A intimidade do inglês com as palavras precede a sua produção literária, iniciada com Resposta Certa, romance publicado em 2002 no Reino Unido. Nicholls, que hoje trabalha diariamente em um escritório próprio, a partir das 9h da manhã, se formou em literatura inglesa e artes dramáticas na Universidade de Bristol e passou também pela Academia Americana de Musicais e Drama em Nova York antes de iniciar carreira como ator. Após alguns anos de papéis pequenos no teatro, conseguiu um emprego como leitor crítico de peças para a BBC Radio Drama e mais tarde começou a atuar como editor de roteiros para duas emissoras de televisão britânicas. Escreveu seu primeiro roteiro para o cinema, uma adaptação da peça de teatro Simpatico, de Sam Shepard, com o amigo Matthew Warchus, que dirigiu o filme resultante dessa parceria, lançado em 1999 com os atores Nick Nolte, Jeff Bridges e Sharon Stone como protagonistas. Escreveu também para a televisão – e recebeu duas indicações ao Bafta por esse trabalho – antes de adaptar seu segundo romance, O Substituto, para um longa estrelado por James McAvoy que recebeu o título de Garoto Nota 10 (2006).

Por levar as duas carreiras, a de escritor e a de roteirista, em paralelo, algo que faz até hoje, Nicholls também escreveu a versão para o cinema de seu best-seller Um Dia, que mostrava os encontros e desencontros de Emma (Anne Hathaway) e Dexter (Jim Sturgess) ao longo de 23 anos. O escritor afirma que adaptar os próprios livros foi uma escolha natural, já que ele já trabalhava com roteiros antes, mas garante que não foi um processo fácil. “É impossível proteger seu trabalho ao adaptá-lo – você ainda tem que ser impiedoso e cruel, e o autor que faz isso com seu próprio romance vai ter suas decisões eternamente atropeladas”, diz. Ele afirma que não vai se arriscar a fazer isso de novo. “É muito doloroso. Nós será adaptado para a TV, mas por outro escritor, graças a Deus.”

Confira a entrevista de David Nicholls ao site de VEJA:

Por que acha que Um Dia fez tanto sucesso? Se eu tivesse uma ideia clara, suspeito que eu repetiria a fórmula de novo e de novo, mas acho que foi uma combinação de coisas – uma ideia de estrutura forte e clara, uma mistura de comédia e drama, uma história de amor que não era tão sentimental ou previsível. A resposta mais comum que ouvi de leitores foi “Eu conheço um Dexter na vida real” ou “Eu sou Emma”, o que é muito lisonjeiro e sugere que um grande senso de identificação também fez parte do apelo do livro. O romance fez com que as pessoas refletissem sobre seus passados, amizades perdidas, arrependimentos, escolhas que tinham feito, trouxe um tipo de tristeza prazerosa, nostálgica.

>>>LEIA AQUI O RESTANTE DA ENTREVISTA