Em tempos de Bienal, Thalita Rebouças deixa Justin Bieber no chinelo

Escritora tem mais um dia de assédio no Riocentro, dá autógrafo até para o segurança e atribui às redes sociais sua popularidade entre os jovens

“Essa bienal é diferente da de 2009. Não é mais o boca a boca, é o byte a byte. As mídias sociais ajudaram muito a divulgar. O adolescente tuita coisas do livro. Há dois anos não tinha, como hoje, 160 mil seguidores no Twitter”

No estande da editora Rocco na Bienal do livro, o movimento de crianças e adolescentes castiga o totem de propaganda que anuncia o livro de outro jovem – bastante famoso, aliás. Mas a multidão parece não saber quem é Justin Bieber, que, na fotografia em tamanho natural, poderia ser apenas mais um dos cerca de 500 fãs de Thalita Rebouças, a verdadeira celebridade da tarde. Por ora, a escritora que atingiu a marca de um milhão de livros vendidos em julho parece adaptada à vida de celebridade. Mas sabe que, no Brasil, esse assédio é exclusividade dos dias de Bienal.

“Quando muito, aparece alguém para tirar uma única foto comigo, não mais que isso. Escritor só tem momento de popstar na Bienal. Se for a uma praça de alimentação de shopping, aqui perto, ninguém vai falar comigo, não há assédio”, exagera Thalita, que, a essa altura, não anda sozinha em qualquer lugar onde possa haver uma adolescente – ou alguém enviado por uma de suas leitoras.

A fama da autora de ‘Era uma vez minha primeira vez’ é crescente. E tornou-se indiscutível para o Brasil na tarde de quainta-feira, quando ela foi retirada em um carrinho de golfe do estande de uma livraria. O motivo: o excesso de público fez a estrutura começar a balançar, e os organizadores trataram de tirar Thalita do lugar para evitar riscos para os fãs.

Thalita recorda que teve, ela própria, uma relação de fã e celebridade com seus autores favoritos. Na adolescência, idolatrava Luís Fernando Veríssimo, Fernando Sabino e João Ubaldo Ribeiro. Mas também já quis se casar com os menudos – “Queria me casar com todos eles” – e derreteu-se por Paulo Ricardo, o baixista e cantor de voz rouca do RPM, que hoje certamente não movimentaria metade da platéia que se deslocava atrás dela pelo Riocentro.

Mas escritor é escritor, celebridade é celebridade. E Thalita Rebouças se sente mais confortável na condição de autora. “Durante a Bienal, não tenho tempo de comer. As pessoas substituem por besteira, mas não como besteira. Acabo ficando sem comer”, conta, enquanto recebe, como uma dádiva, um refrigerante light trazido por uma assessora da editora. A maratona a fez perder dois quilos – originalmente, ela pesa 52, agora está com 50 -, o que não é pouco para alguém com 1 metro e 61 centímetros de altura.

O assédio fez com que, nesta sexta-feira, ela fosse escoltada permanentemente por três seguranças – uma delas mulher. Foram precisos mais dois, devido ao assédio. E eis que um deles pede licença e faz uma solicitação. “Você tira uma foto comigo também”, propõe o grandalhão. “Você é marmanjo para os meus livros”, brinca a escritora. “Tenho alma de criança”, ele explica.

O dia de Thalita Rebouças na Bienal começou com uma palestra para professores- devidamente acompanhados de seus filhos – às 15h. Em seguida, mais uma sessão de autógrafos, na qual foi recebida, por volta das 17h, com gritos de “ita, ita, ita, nós amamos a Thalita”. Ela retribui, fazendo um coração com as mãos e repetindo: “Eu amo vocês”.

A emoção com a Bienal, como conta, começa na véspera. “Eu me lembro muito de 2001, e tenho vontade de chorar. Passa na minha cabeça o filme daquela Bienal, quando eu subia na cadeira para gritar e chamar os leitores, convidar a conhecer meus livros”, lembra. Agora, a cadeira serve para receber uma longa fila de fãs.

A primeira da fila era Thaís de Paula, 12 anos, estudante do 6º ano. Moradora de Jacarepaguá, bairro próximo ao Riocentro, ela chegou às 11h30 ao estande da editora, para ser recebida pouco depois das 17h. “Comprei o primeiro livro, me apaixonei e li todos os outros”, explica a jovem, típica fã de Thalita, pelo que se pode supor pelos temas como “primeira vez”, relação com a mãe, crises da adolescência e “coisas de menina”.

Eis que chega o segundo da fila. Renato Motta, estudante de Administração, tem 19 anos e chegou para guardar lugar para a namorada. Com uma camisa do Fluminense, não resistiu e também acabou pedindo para ser fotografado ao lado de Thalita. O autógrafo era para a namorada, Maria Alice, 18 anos, que teve medo de não chegar a tempo. Ela também não chega a ser a típica leitora de ‘Era uma vez minha primeira vez’. “Eu me identifico com os livros da Thalita. Acho que ela entende o jovem. Não dá para não se apaixonar por ela, porque é uma fofa. Veja como ela trata as pessoas”, elogia. Detalhe: Renato também se rendeu, e quer ler para saber o que tanta gente descobre nas páginas da autora.

Os fãs acompanhados acabam rendendo trabalho extra para Thalita. “Cada menina vem com uma irmã, uma amiga, uma prima. Acabei dando 500 autógrafos”, dizia a escritora, ao fim da maratona.

Thalita parece não se deslumbrar, e atribui à internet o efeito celebridade. “Essa bienal é diferente da de 2009. Não é mais o boca a boca, é o byte a byte. As mídias sociais ajudaram muito a divulgar. O adolescente tuita coisas do livro. Há dois anos não tinha, como hoje, 160 mil seguidores no Twitter”, analisa. “Tenho orgulho de ter vendido um milhão de livros em livraria. Nunca tive ajuda de programa de incentivo à literatura do governo”, diz.

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