Domingos Montagner, o galã tardio

Morte por afogamento no Rio São Francisco dá fim a uma carreira breve mas intensa na televisão. A Globo perdeu o melhor astro que teve em muitos anos

Durante os testes de elenco da novela Cordel Encantado, no começo de 2011, o então desconhecido Domingos Montagner não precisou fazer muito esforço para ganhar um dos papéis principais da fantasia de cangaço nordestino que viraria um grande sucesso do horário das 6. “Quando ele entrou no estúdio, eu gritei: ‘Pronto, achei o Capitão Herculano’. Ele emanava doçura e virilidade, uma conjunção rara, principalmente num ator maduro”, diz a diretora Amora Mautner. Ela chamou o escolhido à sua sala no Projac, complexo de estúdios da Globo no Rio de Janeiro, para sacramentar a escolha. Montagner compareceu de bermuda, camiseta e chinelão. “Eu disse: ‘Domingos, sua vida vai mudar, você ganhará fama e moral na Globo. As pessoas vão ficar loucas por um galã como você’ ”, recorda-­se Amora. O ator não se abalou: “Imagina. Eu tenho filhos para criar e preciso tocar minha companhia teatral. Não quero ficar aqui por muito tempo, não”.

Montagner subestimou, evidentemente, a dimensão da guinada que o esperava: até ali conhecido apenas no circuito de teatro e artes circenses paulistano, ele viraria uma celebridade instantânea da TV aos 49 anos. Emplacou um desempenho marcante após outro, de Cordel e Joia Rara, também na faixa das 6, até chegar ao topo da pirâmide do prestígio nas novelas com o personagem Santo, de Velho Chico — seu primeiro protagonista de novela das 9. Mas a fatalidade fez cumprir-se, para consternação do público, o seu desígnio de não permanecer por muito tempo em cena. Na tarde da quinta-feira 15, o ator morreu, aos 54 anos, afogado no mesmo Rio São Francisco de que fala a trama de Benedito Ruy Barbosa. A tragédia ocorreu pouco mais de duas semanas antes do final da novela, em 30 de setembro.

O que tornou tudo mais chocante foi a sincronicidade entre os eventos da ficção e a realidade. Em capítulos recém-exibidos da novela, o agricultor Santo foi levado pela correnteza do Velho Chico após sofrer um atentado.Foi resgatado das águas por índios e ressuscitado num ritual mágico que culminou com um beijo de sua amada Maria Tereza, vivida pela atriz Camila Pitanga. No dia do acidente fatal, Montagner e a colega de elenco aproveitaram um intervalo de gravação no interior de Sergipe para um passeio pela cidade de Canindé do São Francisco, onde fica a Usina Hidrelétrica de Xingó. Os dois almoçaram e resolveram se banhar em uma prainha à beira do rio. Em seu relato à polícia local, a atriz disse que, ao perceber uma correnteza forte, se agarrou a uma pedra e tentou ajudar Montagner a fazer o mesmo. Chegou a segurar nas mãos dele por duas vezes, mas o ator foi arrastado por um redemoinho. Exausto e desesperado, afundou e voltou à tona duas vezes antes de desaparecer.

“Domingos foi dar um mergulho no rio para dar uma relaxada, como todos nós fazíamos”, afirma o colega Marcelo Serrado. No início da tarde da quinta-feira, durante uma gravação em que Serrado contracenava com Marcos Palmeira, um barqueiro da região passou na locação e deu um aviso à equipe comandada pelo diretor Luiz Fernando Carvalho: “O seu Domingos deu um mergulho e se machucou”. As gravações foram interrompidas por Carvalho quando informações truncadas, para usar as palavras de Serrado, começaram a surgir no set. Com o figurino de seus personagens, Serrado e Palmeira entraram na lancha de um barqueiro que, ao ver a região do acidente, prognosticou o pior: “Esquece. Esse lugar é terrível”. Serrado não perdeu as esperanças. “O cara é forte. Ele deve ter segurado num cipó”, avisou ao barqueiro. Com formação em educação física, Montagner era mesmo um exímio nadador.

Infelizmente, contudo, o barqueiro experiente nas manhas e meandros do São Francisco estava certo. Depois de quase cinco horas de buscas, o corpo de Montagner foi encontrado pelos bombeiros, preso a uma pedra, a 18 metros de profundidade. “Foi o lugar errado, na hora errada. O rio é muito traiçoeiro”, diz Serrado. “Poderia ter acontecido com qualquer um de nós. Eu mesmo já senti a correnteza. Mas parece que o rio queria o Domingos.”

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Comentários

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  1. Kati Negrini

    Estamos tão carentes de ter em nosso meio pessoas iluminadas como Domingos que, uma fatalidade dessa nos afeta de uma forma muito profunda! Muito triste mesmo, perder um ser humano como Domingos.

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  2. Tão exagerando… Nunca nem tinha ouvido falar desse atorzinho de novela, e só porque morreu tragicamente ficam nessa rasgacao de seda.

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  3. Jean Carlos Alves Mara Borges

    Vocês perceberam o erro na matéria? No final da reportagem onde aparece fotos dos atores que morreram durante as novelas, tem uma foto da Daniela Perez e nela há a informação de que a mesma foi morta por Guilherme de Pádua e sua esposa Yasmin. Acontece que, Yasmin era o nome da personagem da Daniela na novela, o nome da assassina e na ocasião, esposa do Guilherme é Paula.

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