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‘Comédias brasileiras têm quantidade e pouca qualidade’, critica atriz

Katiuscia Canoro, ex-‘Zorra Total’, está no elenco de ‘A Esperança É a Última que Morre’, que estreou nesta quinta, com direção de Calvito Leal e Dani Calabresa no elenco

O mercado cinematográfico brasileiro gosta de fazer comédias por um motivo simples e óbvio: dá dinheiro. As três maiores bilheterias nacionais de 2014 foram longas do gênero, que consagrou o diretor Roberto Santucci, de Até que a Sorte nos Separe (2012) e Loucas para Casar (2015), com 22 milhões de ingressos vendidos nos últimos cinco anos, período em que as suas produções tiveram faturamento bruto de nada desprezíveis 300 milhões de reais. Na quinta, o circuito comercial foi abastecido com mais uma comédia nacional, A Esperança É a Última que Morre, de Calvito Leal (Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei), que investe no humor negro e se oferece como alternativa aos roteiros do tipo pastelão que dominam o mercado. Mas está longe de empolgar. Nem por isso, a atriz Katiuscia Canoro, que protagoniza o longa ao lado de Dani Calabresa – respectivamente atual e ex-Zorra Total -, se furta a ter uma visão crítica da invasão bárbara do mercado por uma manada de filmes engraçadinhos sem pé nem cabeça. “As pessoas fazem muito pelo dinheiro, já que comédia dá retorno”, diz. “Hoje, tem quantidade e pouca qualidade.”

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Comédias são a força que impulsiona o cinema nacional

Katiuscia, que ficou conhecida por dar vida à personagem Lady Kate do Zorra Total até o ano passado, quando deixou o programa que viria a ser reformulado, pede que não se “subestime” o público e usa o programa do qual fez parte como exemplo. “É preciso um pouco mais de critério. O Zorra, por exemplo, é um programa que deu um salto gigantesco, e eles estão apostando no conteúdo.” De fato, a mudança teve efeito positivo na audiência, que cresceu um ponto em São Paulo e registra média de 16, neste ano.

As críticas da comediante não se limitam às produções, e se estendem também aos colegas, que, segundo ela, estão em um “lugar de estrela” que nunca lhes pertenceu. “Sinto que o humor é usado para depreciar o outro. Temos que nos colocar em problemas, nunca colocar o outro”, diz Katiuscia, sem citar nomes. Como exemplo de atuação que um bom comediante deveria perseguir, ela cita a função do palhaço. “Temos que dar um tapa na cara do rei e não sentar no trono junto com ele. O comediante tem de usar a comédia para colocar a realidade feia e dura na cara do povo, para que eles deem risada, mas se questionem também.”

A estreia – A Esperança É a Última que Morre também dá a sua estocadinha nas comédias nacionais. No início do filme, a jornalista Hortência (Dani Calabresa) conhece Ramon (Rodrigo Sant’Anna), um agente funerário que trabalhava no cinema, produzindo explosões em longas nacionais. Ao explicar por que abandonou a carreira pirotécnica, ele diz que o cinema brasileiro “é só comédia”. A frase, claro, diz respeito também ao fato de o filme de Leal se distinguir dos outros do gênero pela temática funérea, mas não deixa de ser significativa, já que verdadeira. Quando se olha para os campeões nacionais de bilheteria, só se vê filme de humor.

A trama de A Esperança É a Última que Morre começa interessante, de tal modo que faz o espectador crer que verá algo realmente novo. Hortência compete com a colega de trabalho Vanessa (Katiuscia Canoro) pela vaga de âncora no telejornal da cidade fictícia de Nova Brasília. A fim de conquistar a cadeira da bancada, elas iniciam uma competição acirrada, da qual Vanessa sai vencedora. No entanto, Hortência não se conforma e inventa um serial killer chamado de “Assassino dos Provérbios”, para que possa cobrir os seus “crimes” antes de todo mundo e emplacar sucessivos furos no jornal, retornando à disputa pela vaga principal. Para tanto, conta com a ajuda de Ramon e de Eric (Danton Mello), amigo que trabalha no Instituto Médico Legal (IML) e tem acesso a cadáveres. Junto com Hortência, eles forjam as cenas dos crimes para que ela dê a notícia sempre em primeira mão.

A premissa é boa, mas o filme se perde ao desenvolver o enredo de forma apressada, e com diálogos parecidos com o de humorísticos da TV. A história seria outra se a primeira versão do roteiro, assinado pelo estreante Eduardo Albuquerque, tivesse sido mantida. Nela, Hortência e companhia matam pessoas para criar o “Assassino dos Provérbios”, em vez de usar corpos não reclamados do IML (Instituto Médico Legal). Uma bela dose de humor negro, pouco explorado nas comédias brasileiras.

Segundo Calvito Leal, a trama foi concebida em 2007 e as filmagens começaram apenas em 2013. Para ele, é complicado trabalhar com esse tipo de humor no Brasil: “Tem uma frase, que não é minha, que diz: ‘Humor negro é que nem braço. Uns têm, outros não. Foi um desafio mudar de caminho, não carregar a mão no humor negro”. Pois então, fica a dica de Katiuscia: “A gente não pode subestimar o público”.