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Atração Perigosa mostra evolução de Ben Affleck como diretor

Filme dirigido, co-roteirizado e estrelado por galã hollywoodiano surpreende por costurar tão bem as referências a bons filmes policiais

Não há nenhuma novidade na forma e no conteúdo do bom thriller policial. Mas é justo a maneira dedicada como Affleck parece ter aprendido sobre roteiro, direção de atores e direção geral, que torna a fita tão palpitante.

A escolha de Atração Perigosa como título nacional para The Town (A Cidade) não poderia ser mais infeliz. Falou mais alto como chamariz o longo currículo de comédias românticas, besteirol e filmes de ação medianos do galã Ben Affleck, diretor, co-roteirista e protagonista do título.

Affleck, com perdão do clichê, não é só mais um rostinho bonito. Entre bobagens cheias de sacarose como Pearl Harbor (2001) e Armageddon (1998), e comédias dispensáveis como Sobrevivendo ao Natal (2004) e Ele Não Está A Fim de Você (2009), há um Oscar de Melhor Roteiro Original por Gênio Indomável (1997), que ele dividiu com o parceiro Matt Damon, além de competentes atuações em filmes cults como Dogma (1999) e O Balconista 2 (2006, dirigidos por Kevin Smith.

A estreia de Affleck como diretor de longa-metragem aconteceu em 2007, com Medo da Verdade, uma boa adaptação de Gone Baby Gone, romance do escritor americano Dennis Lehane, estrelada por Casey Affleck, seu irmão. Era um bom prenúncio, agora confirmado por um claro sinal de evolução artística.

Atração Perigosa narra a vida marginal de quatro amigos de origem irlandesa criados no bairro mais violento de Boston. Pequenos furtos da infância se transformam em grandes assaltos a carros-fortes e bancos na vida adulta. No entorno, dramas familiares e nenhuma perspectiva além das decorrentes do crime: morte ou cadeia, onde, aliás, mofa o pai de Doug (Ben Affleck), Stephen (Chris Cooper) bandido de longo tempo. Em resumo, um bando de perdedores. Ao tentar apagar um rastro que pode levar o grupo para a cadeia, Doug (Bem Affleck) se envolve com uma das vítimas, a gerente de banco Claire (Rebecca Hall).

O dilema da escolha entre o novo inesperado e o confortável previsível pautam o protagonista a partir daí. Refazer a vida livrando-se das marcas do passado doloroso ou se manter acomodado no lugar e entre as pessoas que ele conhece como a palma da mão, como o amigo Coughlin, numa segura atuação de Jeremy Renner, definem os limites e riscos a que Doug se dispõe a correr. E eles são muitos e sem nenhuma garantia de recompensa. Pelo menos não quando se tem um implacável delegado à espreita, como Frawley, vivido por John Hamm, estrela da série de TV Mad Men.

Não há nenhuma novidade na forma e no conteúdo do bom thriller policial. Mas é justo a maneira dedicada como Affleck parece ter aprendido sobre roteiro, direção de atores e direção geral, que torna a fita tão palpitante. A origem dos ingredientes desta receita vão se mostrando à medida que a saga de redenção e correção moral se desenrola.

Há um conflito entre amigos como em Sobre Meninos e Lobos (2003), do mesmo Lehane adaptado em Medo da Verdade (2007); perseguições e embates bem filmados que lembram a direção de John Frankenheimer, com quem Affleck trabalhou em Jogo Duro (2000); uma pitada de moralismo beirando o piegas como nos filmes de Clint Eastwood; um par de reviravoltas e a tão perseguida ‘última missão no crime’ antes da vida sossegada ao lado de uma grande e inesperada paixão, como em O Pagamento Final (1993), estrelado por Al Pacino. Affleck costura essas referências numa história de diálogos secos que nada tem de novo e ainda assim soa fresca.

As ressalvas surgem mais ao fim do filme, mas se perdem no conjunto da obra, um surpreendente trabalho que deveria fazer o ator — e agora diretor consagrado — se sentir à vontade para abandonar de vez todos os motivos pelos quais o filme foi grafado no Brasil com um título tão lastimável.