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‘Alice através do Espelho’ é psicodélica viagem no tempo

Filme revisita passado de personagens de ‘Alice no País das Maravilhas’ e se distancia ainda mais da obra original de Lewis Carroll

O elenco é o mesmo, os traços de Tim Burton também, mas Alice através do Espelho, sequência de Alice no País das Maravilhas (2010), se distancia ainda mais que o antecessor da obra original de Lewis Carroll – até porque o longa inicial bebeu sem pena da trama do segundo livro. Mas tudo bem. Como inspiração, Alice é uma personagem interessantíssima. Que para o espectador do século XXI é dona não só de belos figurinos e de um cabelo invejável, mas também encarna a atual onda de empoderamento feminino, em que mulheres não são obrigadas a se casar para pertencer ao mundo, nem precisam se contentar com trabalhos considerados apropriados para o gênero.

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No longa, com direção de James Bobin e Burton como produtor, Alice (Mia Wasikowska) é uma respeitada comandante do navio deixado por seu pai – fato impossível, como diz a própria, em 1870, quando a trama é ambientada. Ela retorna à terra firme para descobrir que sua família está em uma difícil situação financeira, que coloca em perigo os sonhos da moça e a posse da embarcação.

No auge do estresse, ela vislumbra uma borboleta azul, Absolem (Alan Rickman, em seu último trabalho), seu amigo sábio, antes uma lagarta, do País das Maravilhas. Ele a conduz ao espelho do local, o qual ela atravessa e se vê pequena, em um mundo surrealista.


A partir daí, a moça reencontra seus amigos do passado, liderados pela Rainha Branca (Anne Hathaway). Tudo está aparentemente bem, exceto pelo Chapeleiro (Johnny Depp), que sofre uma profunda depressão por acreditar sozinho que sua família pode voltar da morte. Para ajudar o amigo, Alice é instruída pela Rainha a procurar o Tempo (Sacha Baron Cohen) e pegar a cronosfera – aparato que mantém vivo não só a personificação do Tempo, como também a cronologia do mundo em si. A ideia é usar o objeto para viajar ao passado e salvar a família do Chapeleiro.

O longa então se transforma em uma aventura dramática e psicodélica, com direito a revelações sobre o inicio da briga entre a Rainha Branca e sua irmã, a Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter), enquanto Alice foge do Tempo, que tenta recuperar sua “bateria”.

Assim como seu antecessor, o filme tem uma estética impecável, com ótimos efeitos especiais e uma fotografia pop deliciosa. Mas o legado da produção de 2010 também trouxe a fórmula do didatismo exagerado, típico da Disney e seus roteiros para a família, além da mensagem quase de autoajuda que conduz ao final açucarado, que em nada reflete o âmago de Carroll. Se tiver sorte, com tantas similaridades, o estúdio agora deve torcer para também alcançar o mesmo resultado em bilheteria do anterior, que somou pomposos 1,025 bilhão de dólares no mundo.