Guerras
Vietnã
31/01/1973 19:31
O que dizia a reportagem de VEJA
Como a guerra, a paz chegou aos poucos. Durante quase vinte anos, ela resistiu incólume às profecias do otimismo oficial. Nos EUA, que deveria ser um curto entreato na diplomacia de uma grande potência adquiriu os contornos angustiantes de uma tragédia internacional. No ápice, a escalada militar chegou a significar mais de meio milhão de soldados americanos em combate e todos os recursos militares do mais poderoso país do mundo. Não se tratava mais de uma entre muitas guerras - era a guerra da década de 60, travada simultaneamente nos arrozais vietnamitas e na consciência da opinião pública americana, e deixando, em ambos os campos de batalha, crateras e cicatrizes indeléveis. Tudo isso acabou em janeiro de 2003, no antigo Hotel Majestic, em Paris, na assinatura do cessar-fogo. A paz estava feita, testemunhada, fotografada. A trégua entraria em vigor e os pontos principais dos acordos poderiam se colocar em marcha: retirada de todas as tropas americanas do Vietnã e libertação dos prisioneiros de guerra. Para Henry Kissinger, o presidente Richard Nixon e a nação americana, é a grande oportunidade de cicatrizar profundas feridas. Além de lhe custar 46.000 vidas e 110 bilhões de dólares, a guerra criou ou acentuou divisões profundas em sua sociedade - entre jovens e adultos, ricos e pobres, brancos e negros -, enquanto desviava atenções e recursos de problemas sociais prementes e desgastava o prestígio e a força de seus líderes e instituições. Se na Indochina estes são os dias de reconstrução, se na política mundial é o momento da reorganização, nos Estados Unidos soou a hora do reencontro. A hora de voltar para casa, não para um frágil cessar-fogo mas para a geração de paz prometida por Nixon.
O que aconteceu depois
Assinada a trégua, os soldados foram embora e as tropas de paz estrangeiras chegaram à região. No entanto, o combate entre tropas de Saigon e do Vietcong durou até abril de 1975, quando Saigon anunciou sua rendição. Era o fim oficial da guerra no Vietnã. A região continuou sob extrema tensão até fevereiro de 1979, quando as tropas da China invadiram o Vietnã, sob pretexto de que havia uma grande mobilização militar do vizinho na fronteira. Um mês depois, as tropas chinesas recuaram. A ocupação vietnamita no Camboja durou mais dez anos, e terminou apenas em setembro de 1989.
Em 11 de julho de 1995, os Estados Unidos restabeleceram relações diplomáticas com o Vietnã. Na segunda metade da década de 90, os americanos investem pesado em negócios no país. Marcas como Coca-Cola, Pepsi e McDonald's passaram a fazer parte do dia-a-dia dos vietnamitas. Nas ruas de Saigon, agora Ho Chi Minh, as pessoas vestem jeans, camisetas e falam ao celular. Os outdoors anunciam marcas como Visa e Federal Express. Os primeiros shopping centers, as sagradas catedrais do capitalismo, foram erguidas na cidade. A profissão com maior expansão no mercado de trabalho passou a ser a de professor de inglês, e a internet já faz parte do dia-a-dia dos vietnamitas.
Ainda em 1973, o prêmio Nobel da Paz foi entregue em conjunto a Henry Kissinger e Le Duc Tho, que comandaram as negociações pela trégua. Tho, porém, não aceitou o prêmio. Entre os chefes de estado e diplomatas envolvidos no conflito, vários morreram, incluindo os presidentes americanos Lyndon Johnson (1973) e Richard Nixon (1994) e os líderes vietnamitas Le Duc Tho (1990) e Nguyen Van Thieu (2001).
Em março de 2002, os EUA divulgaram gravações realizadas na Casa Branca que revelavam que Nixon pretendia usar a bomba atômica no Vietnã. Kissinger convenceu o presidente do contrário. O ex-assessor de Nixon, aliás, é o único nome de destaque no conflito que continua em evidência. Kissinger dá palestras e participa de conferências no mundo todo. No fim de 2002, ele foi escolhido para chefiar a comissão que investigaria o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001. A indicação foi criticada no meio político americano e ele renunciou ao cargo.
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