Economia
Real e as crises
09/09/1998 17:06
O que dizia a reportagem de VEJA
O calote russo apanhou o Brasil em cheio. A agência americana Moody's, que calcula o risco econômico de países e empresas, rebaixou o Brasil em seu ranking. O país agora aparece no mesmo patamar de Venezuela, Nicarágua e Paraguai. Era o que faltava para que o nervosismo do mercado beirasse a histeria. Desde que o urso russo deu seu primeiro sinal de agonia, o Brasil perdeu um total de 15 bilhões de dólares. Com isso, as bolsas despencaram numa velocidade alarmante. O governo saiu em campo para defender-se. E o fez com ferocidade. O Banco Central elevou a taxa de juros cobrada em empréstimos a bancos de 19% para 29,75% ao ano. A partir de agora o investimento no mercado financeiro fica tão atraente — desde, é claro, que o mundo não acabe — que só um pessimista genético vai desprezá-lo. Pouca gente se sentirá tentada a se refugiar no dólar. A diferença é que, nas crises anteriores, havia um ataque especulativo contra o Brasil. Assim, bastou o governo disparar os juros e enfrentar os especuladores vendendo dólares, para esfriar sua cotação, que os ataques foram desarmados. Desta vez os dólares escapam porque há medo de que o BC não consiga segurar a cotação do real. Tira-se dólar do país com desconfiança de uma desvalorização significativa da moeda. Ou de uma crise tamanha nas contas externas que o governo interrompa o pagamento da dívida.
O que aconteceu depois
Em janeiro de 1999, o Brasil assumiu o centro de uma crise mundial. Para evitar a quebra do país, o governo abriu mão da moeda atrelada ao dólar e liberou o câmbio. Uma sensação de alívio foi o primeiro impacto da decisão. O mercado deu um inequívoco sinal positivo ao Brasil depois da desvalorização, mas não deixou de lado a implacável cobrança de reformas capazes de tornar o país governável financeiramente. Em abril do mesmo ano, passada a crise desencadeada pelo calote russo, quase todos os indicadores econômicos brasileiros já haviam melhorado bastante, da cotação do dólar ao desempenho das bolsas de valores. Ainda não haviam atingido níveis ideais, mas o desastre vaticinado pelos bancos estrangeiros e por economistas brasileiros meses antes estava fora de cogitação. A cotação da moeda americana girava em torno de 1,60 real. Ainda havia pontos a serem ajustados para que se retomasse a estrada em passo firme, entre eles os juros altos e o crescimento da dívida pública, mas, ainda assim, o país parecia adentrar um período de relativa calmaria.
O caldo só voltou a entornar quatro anos depois, no segundo semestre de 2002, com a iminente vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais. Em novembro daquele ano, a cotação do dólar chegou a 4 reais. O então presidente Fernando Henrique Cardoso buscava uma maneira de acalmar os ânimos do mercado em relação ao sucessor. Na guerra que travou no mercado de câmbio, a última arma que usou foi um pacote de medidas para tentar conter a disparada do dólar – nas semanas anteriores, o preço da moeda americana vinha sendo contido pelo BC com o aumento da oferta de dólares no mercado. Mas a crise devia-se não só à incerteza em relação à política econômica a ser adotada pelo petista, mas também à redução drástica da entrada de dólares no país. Com a forte concentração de vencimentos de títulos públicos atrelados ao dólar, o câmbio ficou pressionado. De um lado, os detentores das mercadorias forçavam o preço do dólar para cima; de outro, o governo tentava controlar o apetite do mercado e inibir a desvalorização do real.
Depois das eleições, a pressão cambial cedeu e, a partir de 2003, a moeda brasileira voltou a se fortalecer em relação ao dólar. Desde 1999, quando o Brasil adotou o regime de câmbio flutuante, as cotações passaram a oscilar ao sabor das forças de mercado: quando muitos querem comprar o real e poucos se oferecem para vendê-lo, a moeda brasileira sobe. E, como de 2003 a 2007 o saldo na balança comercial do Brasil quadruplicou – o país se transformou num dos principais destinos de investidores externos –, a valorização da moeda foi enorme. Isso porque toda vez que um produto brasileiro é exportado, os importadores o pagam em dólar, que é convertido para o real. A conversão do dólar em reais valoriza a moeda brasileira.
Ao longo de 2007, essa valorização foi de 22%. E assim foi ao longo dos meses seguintes. O país recebia investimentos em níveis inéditos, a cotação da moeda americana cedia e, conseqüentemente, o real se valorizava. O período de bonança, porém, começou a desmoronar no segundo semestre de 2008, quando a crise financeira iniciada nos EUA tomou proporções mundiais. Seguindo o movimento das bolsas asiáticas e européias, a Bovespa apresentou quedas bruscas – em setembro acumulou baixa de 11%. Também teve de acionar o circuit break (mecanismo que interrompe as operações em quedas acima de 10%) quatro vezes em menos de 15 dias, duas delas num intervalo de menos de 2 horas. No início de outubro, a cotação do dólar disparava: 2,45 reais, o maior valor desde agosto de 2005.
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