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EUA x Irã

14/11/1979 15:27

O que dizia a reportagem de VEJA

Em Teerã, capital do Irã, desenrola-se um drama humano de grandes proporções - e, mais ainda, uma situação política inédita nas relações entre nações civilizadas. A embaixada dos Estados Unidos, um magniflico conjunto de edificios no centro da cidade, foi ocupada por estudantes, em seguida a uma gigantesca manifestação. Depois de resistirem como era possível a três horas de assédio, os quinze fuzileiros navais encarregados da segurança da embaixada desistiram - e os jovens, alguns com armas pesadas, tomaram conta de tudo. O ato poderia ser mais um de uma infindável série de atentados e desordens num mundo conturbado. Trata-se porém, de algo muito mais grave - um conflito capaz de provocar perigosamente uma superpotência, levar mais instabilidade à vital área do Golfo Pérsico e provocar um novo sobressalto no já confuso mercado internacional de petróleo. O Irã do aiatolá rompeu com a legalidade ao praticar o seqüestro e a chantagem política.

O que aconteceu depois

A crise dos reféns em Teerã se estendeu durante vários meses e comprometeu de vez os laços entre os dois países, que jamais voltaram a manter uma relação cordial - quase três décadas depois, americanos e iranianos seguiam trocando acusações, novamente sob a ameaça de um conflito armado. Pouco depois da publicação da reportagem de VEJA, o grupo que ocupava a embaixada soltou treze negros e mulheres, "em solidariedade às minorias oprimidas e por causa do papel especial das mulheres no Islã". Outro refém, Richard Queen, foi solto em meados de 1980 depois de ser diagnosticado com esclerose múltipla. Os mais de 50 reféns remanescentes foram mantidos em cativeiro pelos iranianos até janeiro de 1981. Antes da libertação, foram várias vezes exibidos às multidões e às câmeras de TV, sempre com os olhos cobertos e as mãos amarradas. O presidente americano Jimmy Carter suspendeu a importação do petróleo iraniano, congelou bens de Teerã em seu país e expulsou cidadãos iranianos dos EUA, mas foi muito criticado pela opinião pública por não ter sido "duro" o bastante com os rivais - para muitos, Carter gastou tempo demais apelando pela soltura dos reféns por motivos humanitários (e tentando manter viva a esperança de firmar uma aliança estratégica anticomunismo com o Irã).

Os iranianos exigiam a entrega do xá Reza Pahlevi ao país para que o ex-líder fosse julgado por seus supostos crimes no poder. O xá, que sofria de câncer, estava internado nos EUA. Com o impasse, o presidente Carter, sob pressão cada vez mais intensa do público, decidiu lançar uma operação militar para buscar os reféns. A ação, iniciada na noite de 24 de abril de 1980, foi um fracasso. Dois helicópteros quebraram numa tempestade de areia e outro ficou danificado no pouso. A missão foi abortada, mas na fuga um helicóptero se chocou com um avião, matando oito americanos. O fiasco aumentou ainda mais a popularidade do aiatolá Khomeini, que disse que a "intervenção divina" impediu o sucesso do resgate. Outra missão chegou a ser planejada, mas um novo acidente com o avião que realizaria o resgate - desta vez num ensaio da ação - fez o plano ser abandonado. Para muitos historiadores, a crise dos reféns foi responsável pela derrota de Carter na eleição presidencial do fim de 1980, em que Ronald Reagan foi o vencedor. No dia da posse de Reagan, 21 de janeiro de 1981, os reféns foram finalmente libertados, 14 meses depois da invasão à embaixada. Os iranianos soltaram os americanos depois que a Casa Branca prometeu liberar os bens congelados nos EUA - o xá havia escapado para o Egito, onde morreu, em julho de 1980. Enviados a uma base militar americana na Alemanha, os reféns contaram ter sido vítimas de abusos e tortura. Na chegada aos EUA, foram recebidos com festa.

Estados Unidos e Irã protagonizaram outra polêmica internacional nos anos seguintes, no caso Irã-Contras. Desta vez, contudo, os americanos participaram junto com os iranianos das operações clandestinas - a venda de armas ao país para financiar os Contras, guerrilha anticomunista da Nicarágua. O negócio, porém, não seria um sinal de reaproximação dos países. Ainda na década de 80, os EUA acusaram o grupo Hezbollah, apoiado pelo Irã, de envolvimento em vários atentados terroristas contra alvos americanos, como a explosão da embaixada do país em Beirute (em 1983, com 17 americanos mortos) e um bombardeio contra tropas de paz também no Líbano (1983, 241 americanos mortos). A tensão aumentou ainda mais em julho de 1988, quando os militares americanos derrubaram um avião civil no espaço aéreo iraniano, matando 290 pessoas, entre elas 66 pessoas. Os americanos, que disseram ter confundido o Airbus com um avião militar, aceitaram pagar uma compensação de 61,8 milhões de dólares a Teerã. As hostilidades prosseguiram nos anos 90 com o anúncio de sanções econômicas de Washington contra Teerã - o governo Clinton nos EUA proibiu que qualquer americano negociasse com empresas iranianas. Até hoje, o comércio entre os países se resume à compra de remédios e alimentos americanos pelo Irã e de tapetes e alimentos pelos EUA.

Com a posse do presidente George W. Bush, o atentado de 11 de setembro de 2001 e a guerra ao terror, os americanos voltaram a pressionar os iranianos, acusando o país de integrar um "eixo do mal" ao lado de Iraque e Coréia do Norte. O uso do termo por Bush, em 2002, provocou revolta em Teerã - que, ao mesmo tempo, elegia um líder radical, Mahmoud Ahmadinejad para a presidência. O polêmico líder elevou o tom das críticas a Washington e acelerou o programa nuclear iraniano, provocando mais um marco importante nas relações entre os países. Os EUA lideraram as tentativas diplomáticas de desmontar o programa, enquanto o Irã acusava o país rival de planejar uma ação militar para destruir suas instalações atômicas. Na virada de 2006 para 2007, os americanos - que já usavam aviões espiões não-tripulados para vigiar o Irã - admitiram que "todas as opções" estavam na mesa para conter o programa nuclear, incluindo uma possível ofensiva armada. Ao mesmo tempo, Bush dava ordens para capturar ou matar agentes iranianos que tentassem auxiliar o terrorismo no Iraque. Em fevereiro de 2007, integrantes do governo Bush vieram a público para acusar o Irã de participar diretamente da insurgência iraquiana - segundo os americanos, as provas disso eram os materiais explosivos encontrados nos locais de vários atentados, todos de procedência iraquiana. Dias depois, a imprensa internacional revelava que os americanos já preparavam os planos de contingência para um possível ataque ao Irã, com bombardeio das instalações nucleares e da infra-estrutura militar do país.

 

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