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Chernobyl

07/05/1986 20:53

O que dizia a reportagem de VEJA

O governo soviético admitiu: ocorreu um acidente num dos cinqüenta reatores em operação no país - o da usina de Chernobyl, nas vizinhanças de Kiev, a terceira maior cidade da URSS. A partir daí a Europa começava a viver dias de medo ao mesmo tempo em que o mundo se dava conta, aos poucos, dos detalhes do maior acidente nuclear de todos os tempos. Em poucos dias, a nuvem radioativa estendeu-se por toda a Europa Central, atingindo a Suíça, o norte da Itália e batendo, na sexta-feira, sobre uma parte da Inglaterra. Carregada de iodo, césio e estrôncio radioativos, ela cobriu uma distância de 3.100 quilômetros, atingindo doze países, numa área equivalente à que vai de São Paulo ao Ceará. Enquanto isso, o governo soviético reconhecia o desastre em pílulas. Lacônico até mesmo diante das perguntas da Agência Internacional de Energia Atômica, à qual está filiado, ele só admitiu na noite de segunda-feira um desastre que ocorrera três dias antes. Desde o momento em que admitiram o desastre, fixou-se na versão de que o problema fora controlado, com a perda de duas vidas e a existência de 197 feridos. A estimativa dos serviços de espionagem americanos gira em tomo de 2.000 mortos, mas o governo soviético classifica todos esses cálculos como simples "boatos". Era difícil saber o que sucedera em Chernobyl na noite de 25 de abril.

O que aconteceu depois

Quando as circunstâncias da tragédia ficaram claras, soube-se que trinta pessoas morreram imediatamente em razão do acidente e que a causa foi um experimento não autorizado que fugiu ao controle dos cientistas. Nos anos seguintes, mais de 5.000 mortes foram atribuídas à contaminação e pelo menos 5 milhões de pessoas sofreram problemas físicos ou psicológicos em razão da exposição à nuvem de poeira radioativa. Ainda hoje, pesquisadores avaliam o aumento dos casos de câncer e outras doenças em razão da tragédia em Chernobyl. O colapso da União Soviética e a miséria que imperou nas ex-repúblicas na década de 1990 ajudaram a piorar o cenário. A Ucrânia, onde está a usina, interrompeu ou passou a atrasar o pagamento de compensações e ajudas às vítimas e famílias das vítimas. Em meados dos anos 90, o presidente da vizinha Bielo-Rússia, Alexander Lukashenko, permitiu que moradores pobres voltassem a morar na região contaminada, numa medida que gerou muitos protestos. Os demais reatores de Chernobyl funcionaram até 2000, quando as autoridades cederam à pressão internacional e desativaram toda a usina.

Em abril de 2003, décimo-sétimo aniversário da tragédia de Chernobyl, autoridades russas fizeram alertas sobre a possibilidade de colapso do escudo de concreto erguido, pouco após o acidente, ao redor do reator problemático, para minimizar o vazamento de material radioativo. "O sarcófago foi construído para durar cinco anos, mas já está instalado lá há dezessete. E ninguém investiga a sério as reações que acontecem dentro dele", disse o ministro da Energia Atômica da Rússia, Alexander Rumyantsev. "Há buracos nele e o teto pode cair. Precisamos de um novo escudo ao redor do antigo", acrescentou. O governo da Ucrânia negou a possibilidade de um novo acidente e garantiu que as medidas necessárias estão em execução e serão finalizadas a tempo se houver ajuda financeira do Ocidente. Técnicos da usina reconheceram os problemas e divulgaram um plano para estabilizar as condições do escudo antigo rapidamente e, até o final de 2007, erguer um novo caixão de concreto em volta do atual.

Em setembro de 2005, o relatório "O Legado de Chernobyl: Impactos Sanitários, Ambientais e Sócio-Econômicos", preparado pelo Fórum Chernobyl, que inclui oito agências da ONU, dava como 56 mortes diretas no acidente. O relatório, resumo de outro com três volumes e 600 páginas, realizado por centenas de cientistas, economistas e médicos, e apresentado em Viena, dava ainda que o saldo final de mortos deve ser de menos de 9.000 — muito abaixo de algumas estimativas — e que o maior dano à saúde humana foi psicológico.

Em abril de 2006, no dia 26, no vigésimo aniversário do acidente, centenas de pessoas foram às ruas com velas. Houve protestos contra a criação de novas usinas nucleares pelo mundo e personalidades mundiais disseram que a principal lição é a adoção de uma abordagem coletiva para a segurança nuclear.

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