Brasil
Angra
05/09/1986 21:23
O que dizia a reportagem de VEJA
Três anos após a inauguração, a primeira usina nuclear brasileira, Angra 1, já tinha quebrado 22 vezes. Uma análise feita por especialistas consultados por VEJA mostrou uma quantidade imensa de erros na execução do projeto. A usina fora comprada praticamente pronta, em 1969, da americana Westinghouse. O objetivo era que iniciasse o fornecimento comercial de energia elétrica em 1977, com um custo total de construção de 300 milhões de dólares. Porém, Angra 1 só entrou em funcionamento seis anos mais tarde, após ter consumido 1,8 bilhão de dólares (seis vezes o custo inicial). O contrato de compra do ultrapassado reator nuclear não dava ao governo brasileiro garantias sobre o funcionamento do produto. Antes mesmo da certeza de que a usina funcionaria, 2 bilhões de dólares foram gastos na importação de 75% do material para a construção de uma segunda unidade, Angra 2. A participação dos militares no projeto não deixava dúvidas de que havia interesse no uso da tecnologia nuclear para fins bélicos.
O que aconteceu depois
Durante quinze anos, Angra 1 operou como um vaga-lume que alterna períodos em funcionamento com outros de paralisação por problemas técnicos. Em 1999, a usina conseguiu seu melhor desempenho - permanecendo ligada 96% do tempo - e deu lucro pela primeira vez: 20 milhões de reais. Somados os gastos de reposição de peças e manutenção nesse período, Angra 1 custou 2,5 bilhões de dólares aos cofres públicos. Em abril de 2001, a usina foi desligada para manutenção e deve voltar a operar em maio. Já a usina de Angra 2 foi inaugurada em setembro de 2000 após dois anos de testes. As obras foram retomadas em 1995 e se arrastaram até 1998. No final, a empreitada durou nada menos que 23 anos e tragou 10 bilhões de dólares. Até janeiro de 2001, Angra 2 gerou 2,815 milhões de megawatts, o suficiente para abastecer uma cidade de 1,5 milhão de habitantes por dez meses. Atualmente, discute-se um projeto de viabilização de Angra 3, que, para ser finalizada, precisaria de um investimento de 3 bilhões de reais. Até agora já foi gasto 1,4 bilhão. Se um dia funcionarem a todo vapor, as três usinas juntas vão gerar 4% da energia consumida no país. Quanto à produção de uma bomba atômica brasileira, hoje é apenas um página virada nas histórias de megalomania do regime militar.
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