‘Third culture kids’: a aventura das crianças globalizadas

Priscilla tem nove anos. Allan, seu irmão, seis. Devido ao trabalho do pai, executivo em uma multinacional, os dois já viveram na Suíça, Estados Unidos e agora estão de volta ao Brasil, onde nasceram. Não por muito tempo. Filhos de um americano e uma francesa, Priscilla e Allan Stalker fazem parte do grupo conhecido como third culture kids (TCKs) – ou crianças de uma terceira cultura -, aquelas que passam parte da infância e da adolescência longe de seu país e cultura de origem.

Quando criou a expressão third culture kids, há cerca de 40 anos, a socióloga Ruth Hill Useen estudava jovens americanos que viviam na Índia. Ela descobriu que, durante o processo de inserção na sociedade indiana, aquelas crianças acabavam por desenvolver uma espécie de cultura própria – nem completamente americana, nem integralmente indiana. Naquele tempo, no entanto, a maioria das famílias expatriadas era formada por pais de uma mesma nacionalidade e geralmente permaneciam no mesmo local por muito tempo. Não é o caso de Priscilla e Allan. Depois da passagem por três países, a mãe, Isabelle Stalker, dá como certa uma mudança no prazo de três anos.

As constantes mudanças já se expressam no modo de ver o mundo das crianças. Priscilla, por exemplo, diz sentir-se brasileira, mas admite preferir os Estados Unidos como lar. Além disso, diz que não se incomodará quando tiver de, mais uma vez, mudar de país. “Eu já me acostumei. E vou gostar de ir para outro lugar”, conta, em português, depois de uma rápida conversa em francês com a mãe. Na visão desta, o garoto Allan, devido à pouca idade, se sente ainda mais “internacional”.

Isabelle acredita que seus filhos têm sorte por vivenciar tantas experiências culturais distintas ainda tão jovens. “Eles têm mais capacidade de se acostumar e de respeitar as diferenças”, diz. Outra vantagem é a fluência em três idiomas. “Eles olham para mim e sabem que devem falar em francês. Já com o pai, é em inglês. Entre os amigos e com a babá, só em português. As TCKs são as crianças do futuro”, resume.

Para minimizar os eventuais efeitos de tantos câmbios, muitas famílias optam por colocar seus filhos em escolas internacionais. Ali, as crianças mantêm contato com outras que vivem a mesma situação. É o caso da Chapel School, em São Paulo, que reúne 700 estudantes de 30 nacionalidades. “Estas crianças já não se sentem parte do país em que nasceram”, diz John Ciallelo, diretor da Chapel. “Por outro lado, desenvolvem muita afinidade com aqueles que passam pela mesma experiência”. Para auxiliar na adaptação, as instituições internacionais tendem a combinar a filosofia de um país estrangeiro com a da nação em que estão sediadas.

Cisne ou patinho feio? – Não há dúvida de que o multilinguismo é uma vantagem das TCKs. Mas a aventura cobra seu preço também. Elas podem sofrer com falta de identificação com uma só cultura, como lembra Maria Laura Balbikian, argentina casada com um italiano e mãe de três filhos. “Se você me perguntar do que os meus filhos sentem mais falta, eu diria que são de raízes”, revela. “Eles se acarinham menos pelas coisas, se enraízam menos. A vida mostrou a eles que eles são cidadãos do mundo”, conta. Além do Brasil, Lucas, Nicolas e Ignácio Balbikian já viveram na Argentina e no Chile. Outra mudança dentro de pouco tempo é dada como certa.

A pesquisadora americana Ruth E. Van Reken avalia que a longa temporada no exterior pode provocar conflitos na formação da identidade da criança. “Como naquela história do patinho feio � que na verdade era um lindo cisne, mas não sabia disso até estar entre cisnes �, as TCKs podem ter dificuldades em identificar qual cultura, entre as tantas que conhecem, define melhor sua identidade”, diz a pesquisadora. Confira a entrevista com a especialista.

Brice Royer entende bem os “efeitos colaterais” de ser uma TCK. Filho de pai franco-vietnamita e mãe etíope, ele viveu em sete países distintos antes de atingir a maioridade. Aos 19 anos, desenvolveu uma doença que o impossibilitava de mexer as mãos. Cumpriu uma longa jornada em busca da cura, até finalmente ouvir um diagnóstico: o mal era psicológico, resultado de tantas mudanças e da falta de raízes. “Os médicos diziam que eu ia morrer. Mas descobri que sofria porque não sentia que pertencia a qualquer lugar, grupo ou cultura”, conta. “Eu estava sozinho, incompreendido e não conseguia me relacionar com as pessoas”. Após a recuperação, Royer criou a comunidade TCKid.com (leia mais a respeito), que ajuda mais de 21.000 crianças e jovens a lidar melhor com as constantes mudanças de endereço.

Nem sempre, é claro, os efeitos da experiência são tão severos. Cabe aos pais, é claro, pesar prós e contras. Nascidas no Brasil, as gêmeas Carolina e Mariana Bilia, de nove anos, cedo partiram para Chile e depois Argentina. Agora, aos oito anos, acabam de chegar à África do Sul, onde devem permanecer por mais dois ou três anos. O primeiro laço com a cultura materna perdido foi a língua: elas não dominam o português. “Se tivesse que voltar ao Brasil, teria dificuldades. Hoje, lido melhor com o inglês”, conta Mariana. Para a mãe, Denise Bilia, apesar das dificuldades, as filhas colherão frutos da experiência. “Elas têm a cabeça mais aberta, terão uma bagagem que uma criança que sempre viveu na mesma cultura jamais terá. Isso será um diferencial”, diz.

John Ciallelo, da Chapel School, concorda. “Eu vejo estas crianças assumindo posições de liderança no mundo”, afirma o diretor. O TCK Royer, também. “Devido às condições em que fomos criados, podemos nos adaptar muito facilmente a cidades, países, pessoas e culturas antes desconhecidas”, diz. “Assim, podemos construir pontes culturais”.