Estagiários quarentões não são invenção do cinema

Só no banco de dados do CIEE, há quase 6.000 pessoas com mais de 40 anos cumprindo a etapa que liga a universidade ao mercado de trabalho

Na comédia Os Estagiários, os quarentões Billy (Vince Vaughn) e Nick (Owen Wilson) são vendedores de relógio que perdem o emprego e, por isso, são obrigados a procurar novo trabalho. Acabam como estagiários do Google – aí, pretensamente está a graça do filme, já que a dupla não entende nada de tecnologia. A história é mais crível do que parece e reflete, à sua maneira, uma nova realidade do mercado de trabalho: estágio não é mais exclusividade de pessoas na faixa dos vinte e poucos anos. Uma pesquisa inédita de âmbito nacional realizada pelo Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) revela que, somente no banco de dados da instituição, há 5.910 estagiários com mais de 40 anos em todo o Brasil. Só na cidade de São Paulo são 1.146.

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O próprio CIEE e outros especialistas acreditam que duas razões alimentam o fenômeno. De um lado, há os quarentões que, como Billy e Nick, buscam oportunidade em uma nova carreira em número cada vez maior. De outro, estão as pessoas que, pela primeira vez, chegam à universidade – outra cifra em crescimento. Para estas, o estágio ainda é porta de entrada para o mercado de trabalho.

Ana Ligia Finamor, coordenadora dos cursos de MBA em gestão de pessoas e gestão empresarial da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Rio), tem se dedicado a explicar a primeira razão a impulsionar pessoas com mais de 40 anos de idade para os estágios. “No passado, a carreira era vista como uma escolha definitiva: a pessoa escolhia uma área e seguia nela indefinidamente, estando satisfeita ou não. Hoje, o dinamismo é muito maior. O profissional questiona mais seu futuro e está mais esclarecido sobre as possibilidades de mudança”, diz a especialista. Para esclarecer o que mudou, ela propõe um paralelo entre vida pessoal e profissional: “No passado, assim como o casamento, a profissão era para a vida toda. Isso não ocorre mais.”

Ana Neri, estagiária no colégio Santa Marina, na Vila Carrão, em São Paulo

Ana Neri, estagiária no colégio Santa Marina, na Vila Carrão, em São Paulo (VEJA)

A trajetória de Ana Neri Macedo, de 44 anos, é exemplo do que a especialista descreve. Após 15 anos de atuação na área para a qual se graduou, serviço social, ela decidiu deixar tudo para trás para se tornar professora. Ingressou no curso de pedagogia em 2009 e hoje cumpre estágio no colégio Santa Marina, em São Paulo. Pedagogia, aliás, é a escolha mais comum entre os estagiários “maduros” do bando de dados do CIEE: 55% fizeram essa escolha; direito vem em segundo lugar, com 14%.

Abandonar uma carreira estabelecida, é claro, não é tarefa fácil. Não foi para Ana Neri. O primeiro desafio foi convencer a família, o marido e os quatro filhos, com idades entre 14 e 24 anos: “Um deles perguntou se eu não estava muito velha para trocar de carreira. Respondi que nunca estamos velhos para mudar”, diz. Outro obstáculo foi financeiro. Como estagiária, ela passou a receber um quarto do que ganhava como assistente social. Só foi possível driblar a situação com a ajuda do marido, convertido à crença de que a mudança era necessária a Ana Neri. O último obstáculo, mas não menos importante, foi lidar com a questão da idade. “Em duas das escolas em que procurei estágio, ouvi como resposta que talvez não fosse a pessoa mais adequada ao trabalho, porque teria que lidar com crianças pequenas, pegá-las no colo”, diz. “Senti que eles queriam alguém mais jovem.”

O superintendente educacional do CIEE, Eduardo de Oliveira, reconhece que muitos quarentões (cinquentões e assim por diante) de fato se deparam com alguma resistência ao fator idade. Mas acredita que ela vem arrefecendo à medida que os estagiários mais velhos formam um grupo mais numeroso. “Por tradição, o mercado espera receber estagiários na faixa dos 20 anos. O que fazemos ao nos deparar com restrições por parte das empresas é argumentar que não há limite de idade para estagiar e que os mais velhos são tão ou mais capacitados do que os jovens”, diz. Dados do Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube) apontam que o mercado de trabalho está absorvendo parte desses novos estagiários. Entre 2011 e 2012, o porcentual de “quarentões” contratados por intermédio da companhia cresceu 32%.

O segundo motor a impulsionar os quarentões para o estágio – o acesso à universidade – é fruto direto da uma evolução medida no passado recente. De acordo com dados do Ministério da Educação (MEC), o número de estudantes matriculados em cursos de graduação no Brasil subiu 122% entre 2001 e 2011, fechando o período com 6,73 milhões de pessoas. Os universitários com mais de 40 anos pegaram carona nesse movimento. Entre 2009 e 2011, o crescimento relativo desse grupo foi maior do que o da média geral de alunos do ensino superior, passando de 545.982 para 622.305 (alta de 13,9%), segundo dados do MEC organizados pelo matemático Mauro de Oliveira, gerente de comunicação do Nube.

“Há um numeroso grupo de pessoas que não tiveram condições de estudar antes. Agora, com eventual auxílio de financiamento, elas conseguem chegar à universidade”, diz Oliveira, do CIEE. Esse é o caso de Mauro Matheus, de 44 anos, da cidade de Santa Barbara D’Oeste, no interior de São Paulo. Ex-operário, ele ingressou em 2012 no curso de pedagogia. A mensalidade de mais de 1.000 reais é paga com ajuda do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). A bolsa, proveniente do estágio em uma escola municipal da cidade, ajuda nos demais gastos. “Depois da graduação, quero me especializar em psicopedagogia e, quem sabe, fazer um mestrado ou doutorado.”

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