Escolas internacionais: por que Fuvest e Enem não são os alvos

Centros de excelência do ensino básico, as instituições estão mais voltadas à preparação de alunos para experiências no exterior. O currículo internacional e o perfil de seus estudantes ajudam a explicar a orientação

As escolas internacionais estabelecidas no Brasil são reconhecidas há tempos como centros de excelência na educação básica. Concetradas em capitais como São Paulo, Rio, Brasília e Belo Horizonte, essas instituições privadas oferecem ensino bilíngue e diploma reconhecido em outros países. Quanto à qualidade do ensino oferecido, portanto, não restam dúvidas. Mas uma questão se impõe aos pais que pensam em matricular ou manter os filhos no ciclo médio dessas escolas, americanas e britânicas em maioria: atuando no cruzamento entre a educação brasileira e a internacional, as instituições preparam de fato seus alunos para o vestibular brasileiro? E para o ingresso nas universidades de ponta dos Estados Unidos e Grã-Bretanha, por exemplo?

Leia também:

O caminho rumo às melhores universidades do planeta

‘Third culture kids’: a aventura das crianças globalizadas

Uma sala de aula em cada canto do mundo

Ao contrário do que acontece nas escolas brasileiras tradicionais, vestibular e Enem não são o foco primordial das escolas internacionais – e isso não é, de forma alguma, um descuido pedagógico. Alguns fatores ajudam a explicar a orientação diversa, como o currículo adotado e o próprio interesse de seus frequentadores. A espinha dorsal do ensino médio nas escolas internacionais é o chamado international baccalaureate (IB), programa difundido internacionalmente que permite o trânsito do aluno por instituições acadêmicas de diferentes partes do mundo. Pelo IB, o estudante cursa apenas seis disciplinas, menos da metade das treze que em média recheiam o currículo brasileiro. Para atender às exigências do Ministério da Educação (MEC), as escolas internacionais oferecem uma formação complementar, que abrange disciplinas não contempladas pelo IB. “Apesar de todos os nossos alunos serem estimulados a frequentar as aulas do programa brasileiro, para assim receber a certificação nacional, o cerne de nosso ensino ainda é o programa internacional”, diz Carlos Lima, diretor de uma das unidades da Escola Britânica do Rio de Janeiro.

Isso não significa que os estudantes que desejam seguir os estudos no Brasil fiquem desamparados. Todas as escolas internacionais ouvidas pela reportagem mantêm cursos extras para aqueles que vão enfrentar os vestibulares mais concorridos do país. “Somos um escola voltada para o público brasileiro. Não podemos ignorar as provas das grandes universidades locais”, diz Shirley Hazell, diretora do colégio britânico St. Francis, em São Paulo. Ali, por exemplo, são oferecidas aulas de reforço em disciplinas como física, química e biologia. Nesse caso, todo o conteúdo é apresentado em língua portuguesa, ao contrário do que ocorre nas aulas regulares. O objetivo é apresentar ao aluno o vocabulário específico em português, facilitando a jornada de preparação para o vestibular. As escolas costumam oferecer, também como atividade complementar, aulas de redação em português e oficinas de leitura e análise das obras literárias cobradas pelos grandes concursos. É o caso da americana Chapel School, mais antiga instituição internacional no Brasil.

Marina Travesso, ex-aluna do colégio internacional St. Francis

Marina Travesso, ex-aluna do colégio internacional St. Francis (VEJA)

“Eu me dediquei um pouco mais do que alunos de escolas tradicionais, mas me sentia preparada para seleção.”

Marina Travesso, 20 anos, ex-aluna do St. Francis que cursa administração no Insper

Nas melhores escolas tradicionais, por outro lado, a preparação para o vestibular é não apenas um objetivo a ser perseguido durante o ensino médio. É uma obsessão. No Vértice, de São Paulo, colégio que ocopou o topo do ranking do Enem, os alunos fazem simulados desde o primeiro ano do ciclo. No último, chegam a fazer mais de duas dúzias de provas preparatórias. No Bandeirantes, que tem um índice de aprovação de 60% nos principais vestibulares, são nove simulados ao longo do terceiro ano. Ao fim de cada prova, o estudante recebe um mapa que detalha pontos fortes e fracos de seu desempenho. Quem não consegue aprovação, pode frequentar a instituição para assistir a aulas e realizar simulados. “O foco do nosso aluno é a Fuvest. Por isso, esse também é o foco da nossa preparação”, diz Osmar Ferraz, coordenador de vestibulares do Bandeirantes.

O foco em outro objetivo, que não a Fuvest ou o Enem, é o segundo fator que ajuda a explicar a orientação diversa das escolas internacionais – ao lado do currículo apoiado no international baccalaureate. “Cerca de 80% das famílias nos procuram já com a intenção de enviar seus filhos para as universidades no exterior”, afirma Eloisa Galesso, diretora do ensino médio da Escola Americana de São Paulo, a Graded School. Entre os que desejam permanecer no Brasil, os destinos preferidos são instituições renomadas de ensino superior privado – caso, em São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas, do Insper e da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e, no Rio, IBMEC e Pontíficia Universidade Católica. “Em geral, eles têm predileção por carreiras ligadas à área de negócios, e universidades particulares costumam ter tradição nesse setor”, diz Eloisa.

Marina Travesso, de 20 anos, é um retrato desse perfil. Filha de brasileiros, é ex-aluna do St. Francis, onde se formou em 2011. Fuvest e Enem não faziam parte dos planos dela, que preferiu o curso de administração do Insper. “Frequentei as aulas preparatórias oferecidas pela escola e complementei os estudos com apostilas de cursinhos. Eu me dediquei um pouco mais do que os alunos das escolas tradicionais, mas me sentia bastante preparada para a seleção”, diz Marina. No ano em que se formou no St. Francis, sua classe contava com apenas dez alunos. Desses, apenas quatro permaneceram no Brasil: nenhum ingressou em universidade pública. Marina não vê problemas. “A educação internacional me proporcionou subsídios valiosos para mim e apreciados pelo mercado de trabalho.”

O fluxo de estudantes de escolas internacionais para universidades privadas pode se apoiar ainda em outros fatores. Em primeiro lugar, o custo da mensalidade não é empecilho para esse público, que chega a pagar mais de 5.000 reais por mês durante o ciclo médio. Em segundo lugar, está o fato de os processos seletivos de escolas como FGV e Insper se aproximarem cada vez mais dos realizados por instituições americanas e britânicas. Na admissão para o curso de direito da FGV, por exemplo, o candidato enfrenta uma avaliação oral, onde precisa mostrar que sabe algo além da decoreba do vestibular. Já o Insper adota a Teoria de Resposta ao Item (TRI), mesmo modelo matemático usado na correção do SAT, exame exigido por todas as universidades americanas.

Estudar no exterior – Quem pretende fazer universidade fora do Brasil encontra vantagens na escola internacional. “A maior delas é que, desde cedo, a instituição mostra que fazer um curso superior no exterior é uma possibilidade concreta. Em geral, os estudantes de escolas tradicionais só se dão conta dessa opção tardiamente, o que reduz suas chances”, diz Marta Bidoli, conselheira do EducationUSA, órgão do departamento de estado dos Estados Unidos que aproxima estudantes estrangeiros e universidades americanas.

Camila Cury, ex-aluna do St. Francis

Camila Cury, ex-aluna do St. Francis (VEJA)

“Assim como ingressar na USP demanda trabalho, conseguir vaga nas universidades mais disputadas do mundo requer dedicação.”

Camila Cury, de 18 anos, ex-aluna do St. Francis e estudante da Universidade de Nova York

Camila Cury, de 18 anos, confirma a tese. Ex-aluna do britânico St. Francis, ela acaba de ser aceita pela prestigiada Universidade de Nova York, 41ª melhor do mundo segundo a publicação Times Higher Education. “Sempre estive rodeada de amigos estrangeiros. Isso despertou meu interesse em estudar fora. Então, comecei a preparação cedo”, conta Camila. No St. Francis, ela contou com orientação pedagógica e pode frequentar aulas dedicadas à preparação para o SAT. “Assim como ingressar nos cursos mais concorridos da USP demanda trabalho, conseguir uma vaga nas universidades mais disputadas do mundo requer muita dedicação.”

Uma das principais dificuldades dos brasileiros é compreender como se dá admissão dessas instituições. Além de exigente, o processo, classificado como holístico, avalia não apenas o desempenho acadêmico do estudante. Os candidatos são estimulados a apresentar redações em que expõem visão do mundo e projeto para atuar nele. Jovens com forte atuação social também são bem vistos. Recomendação de ex-professores contam pontos. Tudo isso é algo inusitado para os estudantes brasileiros, acostumados a responder questões de vestibular. “Todo o nosso currículo é desenhado de forma a desenvolver habilidades de comunicação e pensamento crítico, qualidades indispensáveis para quem deseja estudar lá fora”, diz Eloisa Galesso, da Graded School.

Algumas escolas tradicionais estão atentas para isso também. O Colégio Bandeirantes, por exemplo, mantém um escritório de aconselhamento desde a década 1980. “Antes, os alunos estavam mais interessados em intercâmbios de curta duração. Há menos de uma década, eles passaram a ver que fazer a graduação fora é possível”, diz José Olavo Amorim, diretor do serviço. Segundo ele, o índice de aprovação é de quase 70%. Nas lista de 55 universidades que já aceitaram alunos do Bandeirantes estão Stanford, Princeton e Yale. Um histórico para escola americana nenhuma botar defeito.

Com reportagem de Lecticia Maggi

Leia também:

O caminho rumo às melhores universidades do planeta

‘Third culture kids’: a aventura das crianças globalizadas

Uma sala de aula em cada canto do mundo