Eles trocam carreiras promissoras por uma vocação: ensinar

Recrutados pelo programa Ensina!, jovens formados nas melhores universidades do país começam a lecionar nas piores escolas públicas

Para o engenheiro aeronáutico Lúcio Carlos Signore Júnior, de 23 anos, recém-graduado pela respeitada Universidade de São Paulo (USP), conseguir uma colocação no mercado de trabalho não é tarefa difícil. Antes mesmo de se formar, ele recebeu duas propostas de emprego. Recusou ambas. Optou, então, por uma carreira a que jovens como ele – egressos de cursos concorridos das melhores instituições de ensino superior do país – dificilmente aspiram. Desde janeiro, Lúcio ensina matemática para crianças da oitava e nona séries do ensino fundamental em duas escolas municipais localizadas na favela carioca Cidade de Deus, a mesma que inspirou o filme homônimo. Não se trata de trabalho voluntário. Para conseguir o emprego, Lúcio enfrentou um processo seletivo rigoroso, cuja concorrência chegou a 75 candidatos por vaga, promovido pela organização não-governamental Ensina!.

O programa traz para o Brasil a fórmula bem-sucedida do Teach For America, em atividade há duas décadas nos Estados Unidos e que já se espalhou por vinte países. A proposta é recrutar os melhores estudantes das melhores universidades e treiná-los para lecionar nas piores escolas do ciclo fundamental de seus países por dois anos. “Para que esses jovens abracem a causa, é preciso que descubram o impacto que podem exercer sobre alunos do ensino básico. Nesse sentido, a experiência em sala de aula é insubstituível: graças a ela, eles se sentem inspirados a trabalhar pela mudança, onde quer que estejam, pelo resto de suas vidas”, diz a americana Felicia Cuesta (leia entrevista completa), uma das diretoras do Teach For All, rede que integra todos os programas inspirados no Teach For America espalhados pelo mundo.

O Rio foi a primeira cidade brasileira a abraçar a ideia e testar o formato. Desde o início do ano letivo corrente, Lúcio e outros 31 jovens oriundos de instituições nacionais conceituadas lecionam em 14 escolas municipais da capital fluminense que acumulam notas baixas no Índice de Desenvolvimento de Educação Básica (Ideb), sistema do governo federal que afere a qualidade do ensino nas escolas brasileiras. Nas unidades em que Lúcio leciona, por exemplo, as notas variam entre 2,8 e 3,4, em uma escala de zero a dez. A média nacional para os anos finais do ciclo fundamental de ensino (sexto a nono anos) é 4.

Em sala de aula, os jovens professores – tecnicamente chamados de “agentes de reforço” – ensinam português, matemática e ciências. Eles trabalham no contraturno, ou seja, durante a manhã, os alunos assistem ao curso regular e, à tarde, voltam à sala para repassar os ensinamentos com os professores do Ensina!. Antes de entrar na sala de aula, os jovens mestres foram treinados por professores e diretores das instituições de ensino. Com eles, aprenderam técnicas de planejamento de aulas e avaliação de alunos. Continue a ler a reportagem

A primeira avaliação dos professores será conhecida no segundo semestre. Mas o exame preliminar é animador. No curso de verão, aplicado pelos novos professores durante três semanas dos meses de janeiro e fevereiro, 118 crianças compareceram às aulas. O resultado foi um acréscimo de 2,6 pontos na média dos participantes. “Nossa meta era ver a nota das turmas subir dois pontos. Superar essa expectativa em um prazo tão curto é emocionante”, conta Maíra Pimentel, diretora executiva do Ensina!.

Se seguir os passos do Teach For America, o programa brasileiro colherá resultados ainda melhores. Um estudo americano recente constatou que alunos de professores oriundos do programa obtêm desempenho até três vezes superior ao dos demais estudantes. Pesquisas brasileiras colhem resultados semelhantes. Após reunir estudos locais sobre ensino, o movimento Todos pela Educação, em parceria com o Instituto Ayrton Senna, concluiu que o aprendizado de alunos de uma mesma escola varia de acordo com a qualidade das instituições superiores nas quais se formaram seus mestres. Outra conclusão do Todos pela Educação: quando orientados e bem treinados, profissionais com formação superior “podem tornar-se excelentes professores” – ainda eles não possuam licenciatura, curso que habilita o profissional a lecionar no ciclo fundamental de ensino. É o caso do grupo do Ensina!.

A constatação de que graduados bem treinados dão bons professores é um dado especialmente relevante para o Brasil. Por aqui, 22% dos profissionais do ensino fundamental nunca pisaram em uma universidade. Entre os que chegaram ao curso superior, meio milhão ensina no ciclo básico disciplinas que nunca estudou na faculdade. Ou seja: pode ser de grande ajuda a participação dos jovens do Ensina! e de outros programas que eventualmente repitam o modelo. Os jovens professores podem ainda ser um incremento importante ao modelo de ensino, avalia Verônica Boix-Masilla, professora da Faculdade de Educação da Universidade Harvard e pesquisadora de projetos inovadores na área. “Para muitos educadores, disciplinas como história e biologia passam, com o tempo, a ser vistas apenas como uma coleção de informações que atendem exigências curriculares. Nesse contexto, recrutar os melhores profissionais recém-formados pode ser uma chance de refrescar a abordagem dessas matérias em sala de aula.”

Há, contudo, quem questiona a adoção do formato por longo prazo. É o caso de Márcia Malavasi, coordenadora do curso de pedagogia da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Todo tipo de ajuda é bem-vinda na educação, pois essa é uma área carente de melhorias”, diz “Porém, programas como esse não podem ser uma desculpa para o governo deixar de investir na capacitação de professores concursados e naqueles que ainda estão nos cursos de pedagogia. O Ensina! deve ser suporte e não substituição.” Continue a ler a reportagem

Arte Ensina Teach for America

Arte Ensina Teach for America (VEJA)

A “importação” do Ensina! para o Brasil começou há quatro anos, quando pós-graduandos e profissionais do setor privado preocupados com a (má) qualidade da educação brasileira conheceram o Teach for America e suas crias pelo mundo. A primeira oportunidade de colocar a ideia à prova em terras brasileiras surgiu no ano passado, com uma parceria com a Secretaria Municipal de Educação carioca. Todos os custos do programa, inclusive o salário dos jovens professores, que gira em torno de 2.000 reais por 40 horas semanais (o piso nacional do professor é de 1.187,97 reais), são bancados por patrocinadores privados como o gigante da internet Google e a consulturia McKinsey.

Assim que o processo de seleção de professores foi aberto, veio a primeira surpresa: 2.400 jovens recém-formados em universidades de ponta demonstraram interesse por uma das 32 vagas oferecidas. Daí, a relação de 75 profissionais para cada posto. É uma disputa mais acirrada do que a travada entre os candidatos à carreira de medicina no vestibular da Fuvest: 49,25.

A procura supreende ainda mais quando se considera que o programa não oferece uma carreira a longo prazo – os contratos do Ensina! se restringem a dois anos – e que a carreira de professor é uma das menos desejadas pelos brasileiros. Levantamento feito pela Fundação Victor Civita revelou que apenas 2% dos estudantes do ensino médio desejam encontrar na universidade uma carreira ligada ao ensino. “Quando um jovem recém-formado com boas perspectivas profissionais aceita um trabalho de dois anos dentro de uma sala de aula de escola pública, ele demonstra ousadia”, resume Maíra Pimentel, do Ensina!.

Nos Estados Unidos, os jovens têm ainda um incentivo extra para mergulhar no Teach for America: as empresas valorizam tal experiência. Pesquisas de mercado mostram que o programa é atualmente responsável por alavancar carreiras. De acordo com a revista Business Week, a instituição já é considerada pelos universitários americanos como uma das princiapais portas de entrada para o mercado de trabalho. Não à toa, a Universidade Harvard estima que 18% de seus formandos devem se candidatar a uma vaga no Teach For America; em Princeton, a taxa de adesão deve ser de 16%.

Até o ano passado, o programa americano já havia recrutado mais de 20.000 jovens talentos. Desse total, 61% escolheram seguir na área da educação e mais de 35% ainda atuam como professores, mesmo após o período de dois anos. Por aqui, o fenômeno pode se repetir, garante Vanessa Gomes Sampaio, de 23 anos, analista de relacões internacionais que abraçou o projeto. “Estar diariamente em uma sala de aula é desenvolver constantemente minha capacidade de liderança. Vou carregar essa habilidade para toda a minha vida profissional, seja ela dentro ou fora da sala de aula.”

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