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Diogo fez blog com alunos e garante: ‘Escrever não é dom’

Diogo Fernando dos Santos, finalista do Prêmio Educador Nota 10, usa ferramenta online para elevar interesse de alunos por produção e interpretação de texto

Na infância, Diogo Fernando dos Santos, 33 anos, já almejava, um dia, ser professor. O arrebatamento foi motivado por bons educadores, que serviram de exemplo e fizeram com que ele optasse pelo curso de pedagogia. Antes da faculdade, contudo, Santos encarou um desafio pessoal. “Eu tinha muita dificuldade com a língua portuguesa. Precisei vencer essa barreira. Aprender a gostar da disciplina para depois ensiná-la.”

O esforço paralelo à escola durante a adolescência fez com que ele chegasse à conclusão: “Escrever não é um dom. É algo ensinável. Ninguém precisa ser um Machado de Assis. Pessoas que sabem escrever e falar bem se destacam na vida. É um diferencial. Elas ganham credibilidade”.

A dificuldade virou paixão e o levou a fazer uma pós-graduação de Gramática e Uso e, em seguida, outra voltada para alfabetização e um mestrado em linguística. Tal aprendizado é aplicado por ele em classes do 1º ao 5º ano na Escola Municipal Professora Odete Corrêa Madureira, em Pindamonhangaba, interior de São Paulo, onde leciona também outras disciplinas, como matemática e ciências.

Foi com a disciplina de língua portuguesa que ele deu início ao projeto “Quem escreve sou eu!”. O mote da iniciativa era, justamente, levar seus alunos do 5º ano, com faixa etária entre 9 e 10 anos, a encarar em sala de aula as dificuldades de produzir um bom texto.

“Não foi na escola que aprendi o português correto. Tive que procurar fora. Quando percebi que os alunos chegavam ao 5º ano sem habilidades para escrever, decidi que queria focar nesse projeto, por ser uma competência que deve ser ensinada em sala de aula”, conta. “Eles respondiam muito bem oralmente. O problema estava nos textos. Não havia coesão, parecia um empilhado de frases.”

Diogo Fernando dos Santos, finalista do prêmio Educador Nota 10 (Ricardo Matsukawa/VEJA.com)

Para não cair no lugar comum, com gramática e ortografia sendo ensinadas de forma sistêmica, Santos decidiu trabalhar com textos lúdicos de Clarice Lispector e Sylvia Orthof, que foram interpretados pelos alunos e dissecados, com foco na composição textual. Foram trabalhados com mais vigor o conto “O mistério do coelho pensante”, de Clarice, e “Os bichos que tive”, de Silvia. Com base nas características dos escritos, o docente estudou com os alunos a descrição dos personagens e lugares, o ritmo da história, a pontuação, as figuras de linguagem e a construção da narrativa. As diferenças e semelhanças entre as autoras também foram alvo de conversa, além da função das tramas, se tinham o intuito de alegrar ou emocionar quem lê.

O projeto ultrapassou as paredes do colégio quando Santos propôs aos alunos que respondessem a duas questões que ficam abertas no livro de Clarice: Como o coelho conseguia fugir da casinhola? E o que o coelho fazia fora da casinhola?

Partindo do propósito de que um escritor merece ser lido, o professor sugeriu que as histórias produzidas na classe fossem publicadas. “Foi então que surgiu dos alunos a ideia da criação do blog”, conta. “Eu não sabia mexer na ferramenta. Tive que sair da minha área de conforto.” Segundo ele, os alunos sugeriram a criação do endereço online para serem lidos e também para receberem críticas construtivas. Para isso, o docente publicou os textos prontos juntamente com o diagnóstico da produção dos jovens autores.

“É bem didático, pois os pais podem olhar e ver onde o filho estava e onde ele está. É um resultado real, sem manipulação. Respeitei o conhecimento e desenvolvimento de cada um”, diz o professor, que viu progresso em todos os alunos, apesar das diferenças. “Todo potencial tem que ser visto pelo professor.” Para ler o conteúdo é só acessar o endereço escritoresmirins.blog.

Fora do mundo virtual, Santos percebeu que o projeto aumentou o hábito da leitura e a apropriação do discurso. “Uma aluna me escreveu uma carta depois de ler O Pequeno Príncipe, dizendo: ‘Só escrevi esta carta porque você me cativou e eu te cativei’. Ela captou a essência do livro e passou isso adiante em um texto escrito. Fiquei muito feliz.”

Diogo conquistou com o projeto um lugar entre os dez melhores professores do ano pelo Prêmio Educador Nota 10, promovido pelas fundações Victor Civita e Roberto Marinho. Ele agora tem a chance de ser vencedor do título Educador do Ano na cerimônia que acontece no dia 30 de outubro, em São Paulo.

Conheça os dez indicados


Denise Rodrigues de Oliveira
Novo Hamburgo – RS


Di Gianne de Oliveira Nunes
Lagoa da Prata – MG


Diogo Fernando dos Santos
Pindamonhangaba – SP


Gislaine Carla Waltrik
União da Vitória – PR


Luana Viegas de Pinho Portilio
Embu das Artes – SP


Rosely Marchetti Honório
São Paulo – SP