Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Di Gianne usa ‘Bíblia’ para ensinar história em presídio

Selecionado pelo prêmio Educador Nota 10, Di Gianne de Oliveira Nunes viu no livro religioso uma chance de estimular curiosidade e autoestima de detentos

Em uma sala de aula improvisada no presídio de Lagoa da Prata, região centro-oeste de Minas Gerais, o professor de história Di Gianne de Oliveira Nunes, 42 anos, ouviu de um aluno a pergunta que afetaria uma comunidade inteira. Seria a Bíblia um instrumento de fonte histórica? “Respondi que existem elementos que são da competência da fé e da teologia. Por exemplo, o Mar Vermelho realmente abriu? Cabe à arqueologia provar. Mas seria, sim, possível, estudar em passagens bíblicas questões sobre tradições, economia, geografia e aspectos de civilizações antigas”, conta o educador que se formou em direito antes de decidir, em 2004, que história era sua real paixão.

Tomando por base a curiosidade do aluno e a facilidade de acesso à Bíblia, livro comum dentro do sistema prisional por causa de ações evangelísticas de religiosos, Nunes foi além da resposta básica. “Eu poderia ter só dito sim ou não para a questão. Mas decidi transformá-los em investigadores dentro da cela.” Chamados de “recuperandos”, os sete detentos da turma, com idades em torno dos 30 anos, debruçaram-se em uma pesquisa feita a partir de livros e revistas, já que o acesso à internet é proibido no presídio.

Di Gianne de Oliveira Nunes dá aula em sala improvisada no presídio (Douglas Magno/VEJA.com)

O projeto batizado de “Regime Fechado, Visão Aberta” levou o grupo a desvendar, especialmente, a cultura de povos antigos como os fenícios, persas, gregos e romanos. A leitura fora da classe fez  os alunos tomar a iniciativa, direcionando o professor. Como quando afirmaram que os persas tinham um sistema de correios. A declaração veio da leitura do versículo encontrado em Ester 8:10: “E escreveu-se em nome do rei Assuero (da Pérsia) e, selando-as com o anel do rei, enviaram as cartas pela mão de correios a cavalo, que cavalgavam sobre ginetes, que eram das cavalarias do rei”. Juntos, alunos e educador comprovaram a veracidade da comunicação via cartas da Pérsia, precursores do sistema de correspondência, usado para estreitar as fronteiras do Império.

A averiguação dos textos bíblicos ecoou em descobertas atuais, como o conflito no Oriente Médio, e despertou um novo senso de valorização de patrimônios históricos. “Partiu dos alunos a reflexão de que o Estado Islâmico tem destruído importantes sítios arqueológicos na Síria e no Iraque, em locais citados pela Bíblia”, conta Nunes. Melhora na autoestima e no relacionamento entre os presos foi um bônus alcançado pelo projeto, que culminou em trabalhos apresentados para as outras turmas no presídio. “Alguns nunca tinham exposto um estudo em voz alta. Outros mal tinham manuseado a própria Bíblia”, diz o professor. “Um aluno dizia que sentia culpa ao pensar no livro sagrado. Como leria a Bíblia com o passado no tráfico de drogas? Mas ele quebrou essa barreira.”

As aulas no presídio acontecem graças à parceria com a Escola Estadual Monsenhor Alfredo Dohr e a Associação de Proteção e Assistência ao Condenado (Apac), sistema que oferece cursos de alfabetização até a formação no ensino médio e profissionalizante para detentos, com o intuito de ressocialização. No refeitório que se transforma em classe à noite, Di Gianne de Oliveira Nunes conseguiu não só ensinar história como também aumentou a sede dos alunos por conhecimento, melhorou a qualidade da leitura e da fala oral, movimentou a pequena biblioteca interna e plantou o desejo de um futuro fora das grades da prisão. “Alguns alunos querem fazer faculdade de história.”

“A educação muda a vida de uma pessoa. Esses homens voltarão para a sociedade com um diploma e novas habilidades”, afirma o professor. “O Estado tem que punir e recuperar. Todo sistema carcerário do Brasil deveria ser assim: transformando indivíduos em pessoas melhores.”

Di Gianne conquistou com a iniciativa um lugar entre os dez melhores professores do ano pelo Prêmio Educador Nota 10, promovido pelas fundações Victor Civita e Roberto Marinho. Ele também tem a chance de ser eleito Educador do Ano na cerimônia que acontece no dia 30 de outubro, em São Paulo.

Conheça os dez indicados


Denise Rodrigues de Oliveira
Novo Hamburgo – RS


Di Gianne de Oliveira Nunes
Lagoa da Prata – MG


Diogo Fernando dos Santos
Pindamonhangaba – SP


Gislaine Carla Waltrik
União da Vitória – PR


Luana Viegas de Pinho Portilio
Embu das Artes – SP


Rosely Marchetti Honório
São Paulo – SP