BEBIDA
Cervejas de fermentação espontânea  | |
Cantillon: a cerveja mais radical |
A
cerveja, por ser muito presente na vida do Brasil, quando apresenta uma personalidade
muito diferente da usual pode causar estranhamento ou, na melhor das hipóteses,
comoção. Assim como as grandes obras de arte, elas não pegam
no primeiro ato. Uma modalidade do mundo das cervejas
onde personalidade é o que não falta são as belgas tipo Lambic.
É uma receita de mais de 500 anos, em que o malte, a cevada e o lúpulo
fermentam espontaneamente numa espécie de piscina e o contato com as bactérias
do ar formam uma película na superfície do líquido, assim
como a "flor" dos Jerez na Espanha ou os vin jaune na França.  | | Produção
da Kriek: adição de cerejas |
Nesse
processo podem ser misturadas Lambic de diferentes anos (como nas Champagnes),
chamadas de Gueuze,
ou adicionadas framboesas e cerejas, que produzem os tipos Framboise
e Kriek,
respectivamente. São cervejas de acidez muito presente, que precisam de
comida - ostra, tartar de peixe, sushi. Assim como grande parte das cervejas especiais,
a tampa é de rolha de cortiça. Apesar da delicadeza, podem envelhecer
até dez anos; algumas são safradas e estagiam em madeira. Produtores
mais comerciais fazem Lambic menos adstringentes e ácidas com xarope de
banana, kiwi, pêssego, ou mesmo com as tradicionais framboesa e cereja.
Em alguns casos, quando acompanhadas de uma boa sobremesa, caem como um refrigerante
melhorado. Mas nada se compara com o prazer de beber uma parte da história
representada pelas Lambic tradicionais. O produtor
exemplo e militante da pureza das Lambic é a família Cantillon.
Quando comecei a me interessar por cerveja, já me instiguei pelas Lambic
mais comerciais como Belle-Vue. Me lembro quando os mestres Cassio e Norberto,
do templo da cerveja em São Paulo, o Frangó, me informaram que a
Lambic mais interessante era a Cantillon. Provei as primeiras vezes nas turnês
européias, principalmente em meu pub londrino favorito, o White Horse,
o único que serve Cantillon em Londres.  | | Barris
de carvalho: bebida envelhecida como vinho |
O
cervejólogo e importador Xavier
Depuydt, um entusiasta das Lambic, sempre comentava nas degustações
que estava para trazer a Cantillon, uma cerveja difícil de se encontrar
mesmo na Bélgica. Mas quando conseguiu importar, trouxe o crème
de la crème, como a série safrada Lou Pepe, envelhecida em barris
de carvalho e disputada a tapas pelos connoisseurs por sua produção
mínima. Fiz uma degustação com
todas as Cantillon à venda no mercado brasileiro.  | Cantillon
Gueuze A Cantillon básica, uma perfeita Gueuze tradicional. Amêndoas,
nozes no nariz e boca com ataque ácido. Perfeita para ostras. No rótulo
a Cantillon afirma que a garrafa dura até 2030. E os livros afirmam o mesmo. |
Cantillon Kriek Minha favorita, tanto essa mais simples como a especial
Lou Pepe safrada. O frescor das cerejas é explosivo. Nariz com herbáceo
muito presente, boca cheia e sempre a acidez bem-vinda de uma verdadeira Lambic.
A cor é impressionante, acho que ao lado do vinho Sauterness é o
alimento líquido visualmente mais bonito do planeta. |  |
 | Cantillon
Rose de Gambrinus Essa aparecia no livro do Michael Jackson, não
o cantor mas o crítico de cervejas e whisky inglês, e já dava
água na boca. A Cantillon descreve perfeitamente a cor da cerveja como
"casca de cebola vermelha", essa Lambic fermentada com framboesas tem
aroma mais terra, mineral e boca frutada, menos ácida, mas menos prolongada
do que a Kriek. Ótima companhia para queijos de cabra. |
Cantillon
Grand Cru Bruocsella Uma das mais complexas. Envelhecida três anos
em barris da carvalho, praticamente não tem gás, lembra Jerez, ou
o famoso vin jaune francês Chateau Chalon, e também vinhos naturais
brancos não filtrados, já comentados aqui na coluna. Retrogosto
longo, muita amêndoa, nozes. Considerado o Montrachet (o grande vinho branco
da Borgonha) das cervejas. Com presunto pata negra fica muito bom, por ser parecido
com Jerez. |  |
 | Cantillon
Fou Foune Uma das mais raras, pouca produção. Damascos orgânicos
são fermentados com Lambic de dois anos de envelhecimento. Aroma floral,
e boca mais densa, a Fou Foune é aconselhável beber o mais jovem
possível, para manter a presença da fruta. Comida oriental é
uma boa pedida de harmonização. |
Cantilon
Lou Pepe O topo de linha da Cantillon, Gueuze, Framboise e Kriek safradas
e com processo cuidadoso de produção. Envelhecem em barris de Bordeaux,
e, no caso das frutadas, com 300 gramas de fruta por litro, 100 graams a mais
das demais cervejas. A Lou Pepe Gueuze 2002 tem um caráter parecido
com a Grand Cru Bruocsella, só que com mais gás e potencial de envelhecimento,
é a Krug das Gueuze, "para cortar com faca". Lou Pepe Framboise
2002 é uma cerveja top muito boa, mas entre as três Lou Pepe é
a que menos me impressiona. Quando envelhece ganha maior complexidade, provei
ano passado a 2000, tinha mais notas; o tempo melhora a Framboise. A Kriek Lou
Pepe 2002 é o ápice da Cantillon para mim, eu tenho sensação
de colocar um cacho de cereja com cabo e tudo na boca. A fruta é abundante,
uma geléia sem açúcar. Lou Pepe com sushi, combinação
perfeita. |  |
Já
provei outras Cantillon não disponíveis no momento no mercado brasileiro
como a Vigneronne com uvas muscat, a Saint Lamvinus com uva cabernet franc e merlot
e a floral deliciosa Iris. A cervejaria está
desenvolvendo uma cerveja com uvas afetadas pelo fungo Botrytis e outra com uvas
pinot noir em barris onde passaram vinhos de Nuits-Saint Georges, na Borgonha. Tudo
isso totalmente natural, sem "maracutaia" tecnológica e atitude
mais do que low profile, poeta, radical diante de uma indústria gigante
como a da cerveja.
DICAS
•
Para beber uma Cantillon, denominada um "vinho de cereais", é
recomendado usar o copo de degustação ISO.
Fetichistas
da cerveja e colecionadores completistas encontram à venda no Brasil o
copo original da cervejaria belga. Não gelar
demais... • Como guardar Vários especialistas
afirmam que ao contrário do vinho, a cerveja deve ser guardada em pé, mesmo as
com rolhas. | |
ONDE
COMPRAR
Belgian
Beer Paradise ONDE
BEBER Frangó
(SP) Largo da Matriz de Nossa Senhora do Ó, 168, Freguesia do Ó Tel:
(11) 3932-4818 http://www.frangobar.com.br/
Belgian Beer Paradise Rua Normandia, 52, Moema, São Paulo Tel:
(11) 5044-3956 Fax.: (11) 5543-3032 Avenida das Américas, 500, BL9,
Lj 120, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro Tel: (21) 3153-7675. http://www.beerparadise.com.br/
Emiliano (SP) Rua Oscar Freire, 384, Jardins Tel.: 3068-4399 http://www.emiliano.com.br/
White Horse (UK) http://www.whitehorsesw6.com/
NOTAS
• Na família das Lambic, existe uma cerveja para
sobremesa: a Faro, levemente adocicada. Cantillon produz pouquíssimo, a 3 Fontainen
(http://www.3fonteinen.be/)
que por enquanto não chega aqui, faz uma Faro muito boa, que bebi num bar de cervejas
belgas na Holanda. • Outro produtor excelente de Lambic
tradicional é Oud Beersel (http://www.oudbeersel.com/)
| | |