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Relógios suíços: os segredos de sua precisão

Arantza Valls.

Genebra, 4 mar (EFE).- A universalmente conhecida precisão dos relógios suíços fica perfeitamente justificada após uma visita ao município de Plan-les-Ouates, situado na região metropolitana de Genebra, onde estão concentradas várias das fábricas dos mais renomados relojoeiros.

No coração da mais antiga delas, Vacheron Constantin, é possível conhecer os segredos da fabricação destas joias, assim como dar uma olhada (sempre com a ajuda de um microscópio) nas minúsculas peças que compõem suas engrenagens.

Aqui, uma legião de relojoeiros jovens e de meia idade trabalha em conjunto com outros já aposentados, mas tão apaixonados por seu ofício que ainda o exercem três dias por semana.

É o caso de Chrystian Lefrancois, especialista em relógios complexos, que começou nesta ‘arte’ em 1966 e, embora tenha aposentadoria programada para daqui a seis meses, decidiu que continuará trabalhando com uma jornada reduzida ‘porque é um ofício apaixonante e intenso’ que não está disposto a abandonar.

Na mesma empresa de Lefrancois trabalha um mestre relojoeiro que, aos 76 anos, continua encaixando as minúsculas peças dos relógios com a ajuda de um monóculo e dezenas de pequenas ferramentas, enquanto diz taxativamente que não está pronto para se aposentar.

Juntos, aprendizes e professores iniciam a montagem em série, sempre manual, das centenas de peças que mais tarde se transformarão em relógios da mais alta qualidade.

O primeiro passo consiste em encaixar todas as rodas e engrenagens que vão produzir o movimento do relógio, um trabalho de grande delicadeza, o qual muitos trabalhadores fazem ouvindo música para ajudar a se concentrar em tão meticuloso processo.

O seguinte é o ajuste da frequência do relógio, ou seja, fazer com que ele seja perfeitamente preciso. Para isso, os relojoeiros usam um aparelho regulador da hora com o qual comprovam se ‘o coração da criatura’ bate na velocidade adequada.

O coração em questão consiste em uma pequena roda dentada (os parafusos que fazem seus encaixes são três vezes mais finos que um fio de cabelo) unida à uma espiral ‘feita de uma liga leve de metais secretos’, brinca o relojoeiro Hubert Hirner.

Estas peças se inserem no esqueleto do relógio e, uma vez ajustadas, são enviadas para a oficina de encaixe e testes, onde são fechadas em armações de metais e pedras preciosas.

O monopólio destes relógios não se deve unicamente à complexidade de seu funcionamento, mas também às detalhadas decorações.

Segundo Hirner, atualmente a empresa conta com 12 aprendizes e as escolas de relojoeiros ‘estão cheias’ graças à boa reputação da profissão entre os jovens suíços.

A ‘carreira’ de relojoeiro consiste em três anos de estudo e prática, quando o aluno se transforma em um relojoeiro ‘de produção’, ou seja, que pode participar das linhas de montagem manual dos relógios. No entanto, para se transformar em um relojoeiro suíço especialista, é necessário mais um ano de experiência.

Essa disponibilidade não é a mesma quando se trata de esmaltadores, gravadores e outros especialistas na decoração das peças, já que são profissões muito incomuns e de grande dificuldade.

‘Aqui temos um esmaltador e uma pessoa que grava os relógios à mão. São profissões muito raras, existem menos de 20 esmaltadores na Suíça e só 25 pessoas capazes de fazer gravuras à mão’, assegura Hirner.

Por sua parte, o executivo-chefe da Vacheron Constantin, Juan Carlos Torres, explica que a companhia atualmente fabrica 19 mil relógios ao ano e que planeja aumentar sua produção para 30 mil unidades em 2016, após um investimento de 83 milhões de euros em infraestrutura, equipamentos e contratação de pessoal.

A demanda destes artigos de luxo aumentou consideravelmente a partir da ‘abertura’ da Rússia e da China, quando famílias dos dois países passaram a não esconder os centenários relógios suíços que tinham guardados até então, com medo de que os regimes que os governavam os confiscassem, e os enviarem à Suíça para reparos, o que popularizou a marca nos dois países.

Torres assegura que os russos estão entre os melhores clientes da firma, mas também estão aumentando os compradores de países emergentes, como Brasil, Índia, México e, sobretudo, China, onde às vezes há exigências excessivas.

‘Um banco chinês queria comprar relógios para dar de presente de aniversário a seus clientes VIP. Vieram à empresa, escolheram os relógios e então perguntamos quantos queriam, se 100 ou 200. Responderam que queriam dez mil peças, o que não podemos produzir’, exclamou. EFE