O shopping vai à favela

Projeto prevê, no Complexo do Alemão, no Rio, o primeiro shopping dentro de uma grande favela, com promessa de uso de mão-de-obra dos moradores

Ainda é uma promessa, com o governo do estado de um lado e um grupo de empresários de outro, mas não deixa de ser algo animador. Um projeto de 20 milhões de reais prevê, dentro do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, um shopping-center de verdade, completo, com cinemas, praça de alimentação e 500 lojas variadas. A construção do empreendimento, em uma área de 15 mil metros quadrados, seguida de toda a atividade econômica que deve movimentar o conjunto de favelas, pode ser o ponto de virada definitivo para essa região da cidade, depois de três décadas de degradação, esvaziamento econômico e crescimento da criminalidade.

O que possibilita o investimento, claro, é a ocupação das favelas pela polícia, iniciada de forma traumática em dezembro de 2010, depois de uma onda de ataques que apavorou o Rio. Sem chance de recuar, o governo do estado, apoiado pelas Forças Armadas, alterou o cronograma de ocupações das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) e encarou os bandidos do Alemão, numa ação cinematográfica que pôs o Brasil e o mundo de olhos nos blindados que galgavam posições na encosta. Foi o primeiro passo, e desde então forças de segurança fazem no Alemão o trabalho permanente de tentativa de evitar a volta do tráfico.

A proposta de criar um grande shopping numa área que, até 2010, era temida até pela polícia, não deixa de ser ousada. E é necessária: é sabido que, sem alternativa de geração de emprego e renda, a população fica vulnerável à informalidade, ao subemprego e, claro, jovens pobres sofrem o constante assédio do tráfico de drogas. O shopping no Alemão tem, em uma das cadeiras de comando, alguém intimamente ligado às favelas cariocas: Celso Athayde, criador da Central Única das Favelas (Cufa), fundará a Favela Holding Participações, que atuará com o know-how local para tornar a linguagem e as necessidades dos investidores adequada aos anseios da população.

O empresário Elias Tergilene, de acordo com um comunicado desta sexta-feira, divulgado pelo governo do estado, é um dos sócios do projeto. Os empreendedores planejam ter 60% das franquias em poder dos moradores da favela. “Essas pessoas receberão treinamento próprio e estarão aptas a tocar uma das franquias. O comerciante da favela já sabe o que tem que fazer”, diz Terligene, na nota do governo do estado.

A previsão é de que as obras do novo shopping duram seis meses, mas ainda não há data para início das obras.

Athayde apresenta sua visão para a oportunidade que o shopping representará para o Alemão. “A economia foi aquecida e as favelas estão sendo vistas de outra maneira. Não ser apenas consumidora, mas também gestora dos negócios. Qualificamos os jovens, mas a porta de saída são as oportunidades de emprego”, disse.

Segundo o governo do Rio, a Favela Holding Participações planeja ter também empreendimentos em outras favelas.

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