Nova fase da Lava Jato revela propinoduto de empresas estrangeiras

Companhias de Cingapura que prestam serviços para a Sete Brasil pagaram mais de 10 milhões de dólares ao PT e a diretores da empresa

DÁDIVA OU MALDIÇÃO? - O navio-plataforma Cidade de Anchieta, o primeiro a produzir no pré-sal: contrato de arrendamento
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DÁDIVA OU MALDIÇÃO? – O navio-plataforma Cidade de Anchieta, o primeiro a produzir no pré-sal: contrato de arrendamento
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A nova fase da Operação Lava Jato, deflagrada nesta quinta-feira em São Paulo, Bahia, Santa Catarina e Rio de Janeiro, que leva o nome de My Way, revela um detalhado esquema de pagamento de propina de duas multinacionais da indústria naval, Keppel Fels e Jurong, para diretores da Petrobras e para o PT, por intermédio de seu tesoureiro João Vaccari Neto.

As duas multinacionais também pagaram propina a diretores da Sete Brasil, a empresa de afretamento de sondas do pré-sal, as chamadas plataformas FPSO (sigla para o termo em inglês floating production storage and offloading), nome técnico das sondas flutuantes que perfuram, armazenam e descarregam o petróleo retirado em alto mar. Segundo o documento de delação premiada do ex-diretor da Sete Brasil Pedro Barusco, Vaccari abocanhava em nome do PT dois terços da dinheiro pago por cada um dos estaleiros para levar o contrato de construção das sondas. A “comissão” equivalia a 1% sobre cada contrato firmado com a Petrobras e a Sete – porcentual que, por vezes, recuava para 0,9%, para que o montante total do contrato, inflado pelo dinheiro sujo, não “destoasse” dos preços internacionais.

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As asiáticas se juntam à holandesa SBM no rol de empresas multinacionais envolvidas no escândalo, o que ameaça estreitar ainda mais o campo de ação da Petrobras na contratação de grandes fornecedores. Em fevereiro, a estatal fará sua primeira grande licitação depois do início da Lava Jato, para comprar módulos de compressão para seis navios-plataformas. O serviço vinha sendo executado pela Iesa, que também é investigada na Lava Jato, mas o contrato foi rompido em dezembro do ano passado. Fontes do setor afirmam que a estatal não convidou nenhuma empresa brasileira para o certame. Apenas estrangeiras – entre elas, a Keppel Fels e a Jurong. É mais um indício de que o esquema de cobrança de propina na Petrobras era “endêmico e institucionalizado”, segundo disse Barusco no depoimento, e não apenas o assalto de um grupo de empreiteiras brasileiras à estatal.

O propinoduto – Segundo Barusco, na Petrobras recebiam a propina, além dele próprio, Renato Duque, ex-diretor de Serviços, e Roberto Mendonça, gerente de Engenharia. Na Sete Brasil, o dinheiro era pago ao presidente, João Carlos de Medeiros Ferraz, e ao diretor Eduardo Musa, ex-diretor da OGX e ex-gerente da Petrobras.

O pagamento a Vaccari, conhecido nos arquivos de Barusco como “mochila”, por sempre portar uma mochila nas costas, também era feito por empresas nacionais: o Estaleiro Atlântico Sul, que desembolsou alguns milhões para o tesoureiro, tem como controladores a Camargo Correa e a Queiroz Galvão, também investigadas no âmbito da Lava Jato. Contudo, a documentação apresentada por Barusco à Polícia Federal mostra que o tesoureiro recebeu até março de 2013 pelo menos 4,53 milhões de dólares da Keppel Fels e da Jurong por meio de sua offshore que leva o sugestivo nome de “Drenos”. Barusco não soube detalhar como era feito exatamente o pagamento a Vaccari porque, segundo ele, as tratativas eram feitas diretamente entre o tesoureiro petista e os operadores do esquema nas próprias multinacionais: Guilherme Esteves de Jesus na Jurong e Zwi Skornicki na Keppel.

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Os documentos apreendidos pela PF nos computadores de Barusco mostram que apenas em 2013 Renato Duque recebeu 4,35 milhões de dólares em propina das duas empresas estrangeiras, enquanto Mendonça, da Sete Brasil, abocanhou 1,73 milhão de dólares no período. Já o próprio Barusco admitiu ter levado 2,71 milhões de dólares das duas empresas, enquanto Musa recebeu 1,48 milhão de dólares. Os valores eram depositados em contas de empresas offshore criadas pelos executivos nos bancos suíços Cramer e Delta.

Indústria naval – Tanto a Keppel Fels quanto a Jurong são multinacionais de Cingapura renomadas pela atuação na indústria naval. No caso da Keppel, seus contratos com a Petrobras remontam à década de 1980, apesar de não constarem da lista de contratos disponibilizada pela estatal em sua página de transparência. A empresa ainda é dona do maior estaleiro da América Latina, o BrasFELS, em Angra dos Reis, e detém 75% do consórcio construtor das plataformas P-51 e P-52 da Petrobras, as maiores semi-submersíveis do mundo

Já o estaleiro Jurong Aracruz faz parte do grupo SembCorp Marine (SCM), uma companhia de capital aberto, com cerca de um terço de suas ações pertencentes ao governo de Cingapura. Atua no Brasil há 14 anos e, segundo sua página institucional na internet, é responsável por mais de 50% das plataformas brasileiras de produção de petróleo.

Barusco afirma, na delação, que as empresas navais representam um tipo de “cartel”, já que todos os serviços da área são adquiridos sempre das mesmas companhias. Diz o texto da delação do ex-diretor: “Em seus 32 anos de trabalho na Petrobras, observou que a contratação de sondas sempre envolvia as mesmas companhias internacionais, e toda iniciativa no mercado nacional era repelida, de maneira que existia, aparentemente, uma espécie de cartel na aquisição de sondas, embora não tenha conhecimento profundo sobre isso”.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) foi o maior financiador da Sete Brasil, criada em 2010 para gerir as sondas do pré-sal. À época, a empresa foi considerada um bem-sucedido exemplo de financiamento de projetos, em que bancos, fundos de pensão e o BNDES se uniram em sociedade para criar uma empresa de um setor promissor no Brasil. Atualmente com uma dívida de 4 bilhões de dólares, a Sete Brasil deixou de honrar seus contratos e està à beira da falência.