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IPCA-15 acelera alta a 0,43%, com cigarro e habitação

Por Camila Moreira

SÃO PAULO, 24 Abr (Reuters) – O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15) -considerado uma prévia da inflação oficial- subiu mais do que o esperado em abril ao acelerar a alta para 0,43 por cento, devido principalmente aos custos de cigarros e habitação, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta terça-feira.

Na opinião de economistas, entretanto, a aceleração não deve provocar alterações na estratégia do Banco Central de estímulo ao crescimento e nem deve levar a mudanças nas perspectivas em relação à taxa de juros.

Em meio à expectativa em torno da divulgação na quinta-feira da ata da última reunião, o Relatório Focus divulgado pelo BC na segunda-feira mostrou que o mercado manteve inalterada a previsão de que a Selic será mantida em 9 por cento em maio, uma vez que os agentes ainda esperam ter uma ideia mais clara dos próximos passos da autoridade monetária.

“O cenário internacional adverso vai contribuir para que não haja uma aceleração da inflação. E se o BC quer fazer ajustes, ele não tem que fazer em agosto. Ele faz logo, porque se tiver que elevar os juros depois, eleva muito pouco”, avaliou a economista-chefe da Icap, Inês Filipa.

Em março, o IPCA-15 havia registrado variação positiva de 0,25 por cento, mostrando uma forte desaceleração frente à alta de 0,53 por cento em fevereiro, puxada pelos preços do segmento de educação, que perderam força no mês passado.

Pesquisa realizada pela Reuters apontou que o indicador subiria 0,37 por cento em abril, de acordo com a mediana de 21 previsões de bancos e corretoras. As estimativas variaram de 0,24 a 0,45 por cento.

De acordo com a economista da Tendências Alessandra Ribeiro, os dados de abril estão em linha com o que se observa em relação à atividade econômica. “É uma surpresa ter ficado um pouco acima do que o mercado esperava, mas agora está mais compatível com o cenário da atividade, o que não aconteceu março”, disse ela.

“De qualquer forma, o resultado do IPCA-15 não atrapalha as decisões do governo. Com a ideia de um crescimento na casa de 4 por cento, ele vai fazer de tudo para estimular a economia e ajudar a indústria”, acrescentou.

No acumulado dos últimos 12 meses, o IPCA-15 registrou alta de 5,25 por cento, abaixo dos 12 meses imediatamente anteriores, quando ficou em 5,61 por cento. O acumulado no ano é de 1,87 por cento, abaixo do resultado de igual período de 2011, de 3,14 por cento.

HABITAÇÃO E DESPESAS PESSOAIS

Segundo o IBGE, a aceleração da alta do IPCA-15 deveu-se aos grupos Habitação, que avançou 0,75 por cento em abril ante alta de 0,44 por cento em março; e Despesas Pessoais, que subiu 1,43 por cento, ante alta de 0,60 por cento no período anterior.

Juntos, os dois grupos responderam por 58 por cento do índice no mês, com impacto de 0,25 ponto percentual, sendo 0,14 ponto relativo às Despesas Pessoais e 0,11 ponto à Habitação.

Em Despesas Pessoais, o destaque foi o cigarro, que avançou 5,56 por cento em abril ante estabilidade em março. Antecipando o aumento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre cigarros a partir de maio, a Souza Cruz anunciou no começo do mês um reajuste médio de 24 por cento nos preços de seus produtos. Destacou-se também o item empregado doméstico, que avançou 1,87 por cento, ante 1,38 por cento anteriormente.

Já em Habitação a pressão veio de aluguel residencial, que acelerou a alta para 0,82 por cento, ante 0,45 por cento em março; condomínio, com alta de 1,01 por cento ante 0,48 por cento; e mão de obra para pequenos reparos, com avanço de 1,31 por cento ante 1,03 por cento.

O Banco Central vem repetidamente afirmando que a inflação vai convergir para o centro da meta oficial de 4,5 por cento pelo IPCA no fim do ano. Na segunda-feira, Relatório Focus divulgado pela autoridade monetária mostrou que as estimativas do mercado apontam que o IPCA fechará 2012 em 5,08 por cento, e 2013 em 5,50 por cento.

Em março, o IPCA subiu menos do que o esperado, com alta de 0,21 por cento no mês e de 5,24 por cento no acumulado em 12 meses, ante 5,85 por cento nos 12 meses até fevereiro.

Para a economista-chefe da Icap, Inês Filipa, os números do IPCA-15 estão em linha com a sua perspectiva de alta de 0,50 por cento do IPCA em abril. Ela prevê que o IPCA terminará o ano com alta de 4,9 por cento. “Mas sem atingir o centro da meta. Para isso seria preciso haver uma deflação, e isso não vejo”, disse ela.

POLÍTICA MONETÁRIA

A perspectiva de que a inflação se aproximará da meta após atingir o maior nível em sete anos no ano passado é crucial para o BC. A desaceleração da inflação justifica o processo de afrouxamento da política monetária, que culminou na semana passada com a redução da taxa Selic em 0,75 ponto porcentual, para 9 por cento ao ano.

Foi o sexto corte seguido desde agosto passado, e o Copom deixou em aberto a possibilidade de continuar reduzindo a taxa básica de juros, segundo analistas. Por isso as atenções se voltam agora para a divulgação da ata da reunião do Copom, em busca de indicações sobre os próximos passos da autoridade monetária em relação à taxa de juros.

Após a reunião, a curva de juros futuros dos contratos DI chegou a precificar uma queda de 0,50 ponto percentual na Selic na reunião de maio do Comitê, com outras apostas indicando redução menor, de 0,25 ponto percentual.

Para o governo, o controle da inflação é fundamental para dar espaço a um afrouxamento maior da política monetária e garantir crescimento da economia brasileira na casa de 4 por cento neste ano. Por enquanto, a atividade continua patinando, conforme mostram dados recentes, como o Índice de Atividade Econômica do BC (IBC-Br).

Considerado uma espécie de sinalizador do comportamento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, o indicador caiu 0,23 por cento em fevereiro ante janeiro. Foi o segundo mês seguido de contração, indicando que a economia terá um primeiro trimestre ainda ruim. No acumulado de 12 meses, o IBC-Br mostrou expansão de apenas 2,05 por cento em fevereiro.

Por conta disso, o governo também anunciou uma série de medidas para estimular o crescimento, com foco especial na indústria nacional.

(Reportagem adicional de Silvio Cascione)