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‘Internacionalizar empresas é torná-las mais competitivas’, diz novo presidente do Conselho dos Brics

Em entrevista ao site de VEJA, Rubens de la Rosa explica que a liderança do Brasil no Conselho Empresarial do grupo deve atrair atenção dos empresários nacionais para o bloco

Numa tentativa de transformar os Brics, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, num bloco econômico consistente, os chefes de Estado dessas nações criaram o Conselho Empresarial dos Brics durante a V Cúpula, realizada em Durban, na África do Sul, em 2013. Passado um ano, o Conselho entrega nesta terça um documento aos países, listando uma série de reivindicações para viabilizar o comércio entre eles. Ao final do encontro, que termina na quarta-feira, o brasileiro Rubens de la Rosa assumirá a Presidência do Conselho Empresarial dos Brics. De la Rosa é o presidente da fabricante de ônibus Marcopolo, que está entre as cinco empresas brasileiras que formam o Conselho: Banco do Brasil, Weg, Vale e Gerdau.

Para o empresário, a liderança brasileira deve ajudar empresários nacionais e voltar mais os olhos para os demais países do bloco. Além disso, de la Rosa vê como uma oportunidade para expor as empresas brasileiras a um ambiente mais competitivo. “É como se a gente deixasse de fazer o campeonato brasileiro de futebol e ficasse o tempo inteiro disputando o campeonato mundial de futebol”, compara. Confira os principais trechos da entrevista:

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Qual a importância de o Brasil presidir o conselho?

É um processo rotativo. Todos os países vão presidir o Conselho um ano. Com a nossa presidência vamos ter capacidade maior de mobilizar o empresariado nacional e dirigir as atenções deles para o Brics. Um comentário muito recorrente (sobre o Brasil) é que nós temos um foco interno e que a internacionalização é algo que tem que ser considerado com maior atenção. O fato de estarmos na presidência facilita porque atraímos a atenção do resto do empresariado e da própria imprensa para este tema tão importante que é internacionalização das empresas. Internacionalizar quer dizer a exposição das empresas brasileiras a um cenário competitivo internacional. É como se a gente deixasse de fazer o campeonato brasileiro de futebol e ficasse o tempo inteiro disputando o campeonato mundial de futebol. Vai haver, de fato, uma competição mais intensa e mais constante, submetida a diferentes regras, diferentes aspectos técnicos, aspectos comportamentais e isso acaba aperfeiçoando a qualidade da empresa que está nessa competição.

A criação do Novo Banco de Desenvolvimento pode ser um dos pontos a convencer essas empresas a olharem mais para os demais países dos Brics?

Sem dúvida, o banco dos Brics, ao prover financiamento e garantias, vai, naturalmente, tornar mais atraente esse processo para todos os potenciais interessados em fazer negócios. Às vezes, as dificuldades dos países emergentes é exatamente o acesso aos fundos de capital para financiar projetos.

O Brasil tem hoje cinco empresas no Conselho Empresarial dos Brics. Esse número deve crescer?

Essa foi uma criação dos chefes de Estado e eles deliberaram que cinco empresas representariam cada país. É interessante que se troque e dê oportunidade para outras empresas, mas também existe um espaço de participação mais aberto, que são os grupos de trabalho. Dentro de cada país existem cinco deles: de infraestrutura, energia, desenvolvimento de capacidades, financeiro e manufaturas. Esses grupos são oportunidades claras de as empresas participarem. Agora, sem dúvida, a CNI como órgão de secretaria, já traz as empresas que ela representa para a discussão. Quanto mais empresas quiserem participar, melhor será.

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O senhor disse que agora é necessário pragmatismo no Conselho. Como alcançá-lo?

Fazendo negócio. Basta pegar um negócio que esteja prestes a ser feito, uma joint venture, uma empresa com a outra. Uma tecnologia investe em um país junto com o outro. A dificuldade de fazer cúpula entre países, ainda mais em um caso como esse, de multilateralismo, é porque muitas vezes fica-se discutindo teoria. No ambiente de negócio há uma facilidade: às vezes é simplesmente realizar aquele negócio que está na nossa frente. É, por exemplo, a Marcopolo investir um determinado país porque se descobriu que lá vai ter uma obra muito importante que vai demandar ônibus e, por conta disso, se faz uma fábrica para entregar aquele ônibus. É pragmático. Muitas vezes não muda a discussão entre os dois países de como fazer um negócio, mas surge uma oportunidade e o negócio é feito.

No caso da Marcopolo, que está presente nos cinco países dos Brics. Quais as facilidades e dificuldades de investir nesses locais?

Estamos ainda aprendendo a lidar com esse universo. A Marcopolo está na Índia em um negócio muito grande, em sociedade com a Tata Motors, que é um parceiro importante lá. Estamos operando com ele e isso cria facilidades locais. Na África do Sul temos uma fábrica desde 1998, são quase quinze anos. Somos quase que locais depois de tanto tempo. Nós temos uma fábrica na Rússia, mas é algo bem iniciante ainda. Estamos tratando de desenvolver nossa marca. Na China estamos desde 2000, mas nós não temos autorização para vender ônibus na China, temos autorização apenas para produzir partes de automóveis lá. A lei automotiva na China para venda de um ônibus, por exemplo, exige que a empresa estrangeira tenha um sócio chinês. Como não é nosso caso até agora, então não podemos vender um ônibus.

Para o caso da Marcopolo, caso os países consigam trocar moeda diretamente. De quanto seria o ganho?

Eu não tenho a precisão de quanto facilitaria. Mas ganha-se tempo e, sobretudo, qualquer porcentual de economia, seja 0,1%, é dinheiro. As margens são sempre tão baixas que as empresas acabam deixando dinheiro na transação quando não precisaria.