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Fórum discute desafios do crescimento em meio à revolução digital

Para Samuel Pessôa e Demétrio Magnoli, o fenômeno Trump pode ser explicado como a reação dos perdedores da globalização

Que valores queremos levar para o país no futuro? Como combinar crescimento com redução de desigualdade social? Esses foram alguns dos temas discutidos nesta segunda-feira no fórum “A Revolução do Novo – A Transformação do Mundo”, promovido por VEJA e EXAME em parceria com a Coca-Cola.

Na abertura, o presidente do Grupo Abril, Walter Longo, falou sobre o trilema digital – formado pelas características da exteligência, tribalismo e compartilhamento. Segundo o executivo, o universo digital traz infinitas possibilidades, mas alguns desafios muito relevantes.

“A primeira característica, que deve chamar nossa atenção, é a exteligência”, diz. Ou seja, hoje o conhecimento não precisa mais ser armazenado no cérebro, uma vez que basta um toque no smartphone para ter acesso a um mundo de informações. “O problema é que, se tudo o que eu tiver de guardar, eu fizer em outro lugar que não o meu cérebro, os neurônios não se conectam e não fazem sinapses. Não há geração de insights”, afirma Longo.

O segundo tema preocupante desse trilema digital é o tribalismo, que faz com que as pessoas hoje só leiam, ouçam e leiam o que gostam. “A polarização política que a gente enxerga hoje no Brasil tem seu palco nas redes sociais, que só reforçam essa tendência maniqueísta”, disse Longo, apontando que o uso crescente de algoritmos torna esse fenômeno mais agudo.

Longo fez um alerta sobre o impacto econômico do avanço da sociedade de compartilhamento. “Vamos ter menos carros particulares e mais carros compartilhados, menos hotéis e mais casas compartilhadas, menos escritórios e mais espaços de coworking. Essa é uma tendência sem volta, mas que traz o risco de criar a desaceleração da espiral econômica. Vamos ter aí na frente um desafio”, diz Longo.

Para o ministro Luiz Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), estamos atravessando o momento da revolução digital. “Uma revolução que muda a forma como vivemos, pensamos e nos relacionamos.”

Segundo ele, essa revolução digital permitiu a massificação do computador e celular, gerou acesso ilimitado ao conhecimento e informação. “Mudou a forma como a gente pesquisa, faz compras e pede táxi. Incorporamos um novo vocabulário. Não há um setor da economia que não tenha sido afetado. No STF também é tudo eletrônico, posso decidir qualquer coisa estando em Brasília, Londres ou Açores.”

Para o ministro, o empoderamento feminino e a proteção dos direitos humanos são discussões chave do mundo contemporâneo. “A história avança para o bem. A busca da felicidade, o respeito ao próximo e a justiça são os valores de ontem e continuam a ser os valores do futuro”, afirmou.

Trump e Brexit

O economista Samuel Pessôa disse que a vitória de Donaldo Trump e o Brexit (saída da Inglaterra da União Europeia) podem ser explicadas pelas pessoas que perderam com a globalização. “O fenômeno Trump é a reação dos perdedores da globalização. Pergunto-me por que demorou tanto para esse fenômeno ocorrer, deveria ter sido 20 anos atrás.”

Segundo ele, a globalização gera ganhadores e perdedores. “O comércio não é neutro, favorece fatores abundantes em certos lugares. Locais com trabalho desqualificado abundante começam a ter a renda valorizada. É a derrota da classe média.”

Para o sociólogo Demétrio Magnoli, a eleição de Trump e o Brexit expressam o descontentamento de setores que ficaram de fora dos benefícios da globalização e viram no nacionalismo e na extrema direita uma forma de expressar sua insegurança.

Na opinião de Magnoli, o momento é de renascimento do nacionalismo, motivado por fatores como uma crise econômica de grandes proporções e pela sensação de falta de representatividade dos partidos políticos. “Não existe uma fadiga da política, existe fadiga dos partidos políticos tradicionais. É um fenômeno mundial”, diz o sociólogo.

Por outro lado, o sociólogo diz que Trump acabou fazendo o papel involuntário de salvador da União Europeia. O temor de acirramento do nacionalismo não se verificou em outras eleições europeias, como Áustria, Holanda e França.
“O que há em comum nessas eleições: o aumento da participação eleitoral nas grandes e médias cidades. Pessoas que não estavam indo votar foram às urnas assustadas com emergência da extrema direita. Talvez tenhamos que dizer que ele é salvador da União Europeia.”

Era dos extremos

No debate sobre a era dos extremos, Denise Chaer, fundadora do Novos Urbanos Laboratório de Inovação Social, falou sobre a dificuldade de colocar, em uma mesma mesa de negociação, ativistas produtores orgânicos, Itaú-Unibanco, Coca-Cola, MST, Monsanto e Instituto Alana para discutir mudanças na oferta de bebidas para crianças em idade escolar.

“A polarização partiu primeiro não de você conseguir aceitar que empresas como a Coca-Cola e a Pepsico podem ser parte do solução do problema de obesidade infantil. Quem normalmente aceita sentar para conversar com as empresas não é, em geral, que faz grandes transformações na ponta”, diz Denise.

Celia Cruz, diretora da do Instituto de Cidadania Empresarial, lembra que 1% da população detém 50% de toda riqueza no mundo. “E isso gera extremos de quem tem muito e de quem está na pobreza”, diz.

Segundo Caio Magri, presidente do Instituto Ethos, existem experiências bem-sucedidas e mal-sucedidas em relação aos diálogos intersetorial, e há três anos existem as dificuldades de se colocar na mesa partes opostas desse processo.

Esse foi o terceiro de três eventos, que reuniram empresários, empreendedores e especialistas para discutir as transformações pelas quais passa o mundo. O primeiro, em janeiro, debateu a transformação das pessoas. O segundo, em março, tratou do impacto da evolução tecnológica no dia-a-dia das companhias.

Comentários

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  1. Não é choro de “perdedores”. É insubmissão de cidadãos contra os intelectuais e os jornalistas que lhes querem impor o politicamente correto da esquerda.

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  2. Defender as fronteiras, a nacionalidade e a terra em que nasceu. Ideias de pessoas anormais, de “extrema-direita” e “fascistas”…É clara a falta de conexão entre os “especialistas” e as pessoas comuns. O mundo já teria acabado, caso esses “intelectuais” decidissem tudo. As pessoas do povo não os conhecem e não estão nem aí para eles. Ainda bem.

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