É preciso inverter a lógica do ensino no Brasil

Destinar maior volume de recursos ao ensino básico e fundamental é principal desafio do país no campo educacional

O estado brasileiro gasta com educação o equivalente aos países ricos, mas os resultados não poderiam ser mais diferentes. A razão de tamanha discrepância está no planejamento. Nos desenvolvidos há um trabalho de longa data no sistema educacional, com priorização do investimento no ensino básico e fundamental, qualificação dos professores e combate a desvios e desperdícios. Mesmo os países emergentes, com destaque para a China, têm adotado com sucesso essa estratégia. No Brasil, o sistema, além de caótico, funciona às avessas (veja quadro). Gasta-se absurdamente mais com a universidade pública, que, pela peneira do vestibular, abriga os mais ricos. Além disso, são conhecidos os desvios de recursos pela via da corrupção, a lentidão na promoção de mudanças e pauperização da classe docente (confira outras dicas).

O governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o da presidente Dilma Rousseff pouco avançaram para inverter essa lógica – embora se percebam tanto uma leve queda do gasto público com ensino superior enquanto proporção do Produto Interno Bruto (PIB) per capita quanto um crescimento dos dispêndios nos outros níveis (veja quadro). O Partido dos Trabalhadores (PT) na Presidência da República escolheu, inclusive, a expansão da educação superior como uma de suas plataformas políticas com o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). O resultado tem se mostrado um desastre. Universidades foram construídas em localidades com baixa demanda, enquanto outras expandiram o número de alunos sem que houvesse infraestrutura adequada. A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), por exemplo, aumentou em 520% o número de vagas, mas faltam laboratórios, refeitórios e até salas de aula nos novos campi criados. No Rio de Janeiro, a expansão acontece em universidades de lata. Tudo isso proporcionado pela farra do desperdício de dinheiro público.

Os escândalos recentes nas universidades federais mostram que ampliar o gasto não é condição suficiente para a reversão dos problemas da educação no país. Antes de tudo, é preciso saber planejar e gerir de forma eficiente os recursos públicos. “Não adianta ter muitas vagas e o ensino estar aquém do mínimo necessário”, disse Nilson Oliveira, do Instituto Fernand Braudel.

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Especialistas ouvidos pelo site de Veja defenderam a urgência da reforma do sistema educacional do país de modo a, primeiramente, reduzir a concentração dos recursos no ensino superior. Adicionalmente, mas não menos importante, é preciso investir na formação e remuneração dos professores; aumentar a carga horária do currículo; envolver mais os pais no universo escolar; combater a corrupção; tornar as transferências mais transparentes; apoiar a meritocracia; e diminuir a burocracia. Em resumo, tornar todo o sistema mais eficiente.

Privatização – Entre os especialistas uma ideia polêmica não é incomum: a privatização total ou parcial das universidades públicas. Eles argumentam que o Brasil deve seguir o exemplo de nações que têm educação pública de qualidade ao longo de quase toda a vida escolar e um ensino superior majoritariamente privado, como, por exemplo, a Inglaterra. Este modelo é tido como mais justo, pois os recursos, outrora consumidos pelas universidades estatais, destinam-se a melhorar a base do sistema de educação. Alunos provenientes tanto de famílias pobres quanto de abastadas passam assim a ter a mesmas oportunidades de aprendizagem para, no futuro, concorrer em condições mais equânimes nas instituições privadas. A barreira financeira para uma universidade no setor privado geralmente é vencida com linhas de financiamento de longo prazo com juros subsidiados. “As universidades, mesmo sendo públicas, devem ser pagas. Quem pode pagar, tem de pagar”, disse Mansueto Almeida, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

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