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Bitcoins: uma viagem louca ao passado das moedas

Moeda totalmente virtual oferece mais uma experiência de retorno aos primórdios dos sistemas monetários que propriamente um olhar sobre o futuro

No início da colonização europeia na América, o valor de uma moeda era algo intimamente ligado ao material de que era feita: ouro, prata ou bronze. As descobertas de gigantescas jazidas de metais preciosos no Novo Mundo trouxeram então uma lição econômica. Crentes de que tinham descoberto uma fonte quase infinita de riqueza, os monarcas espanhóis Carlos V e Felipe II não hesitaram em transformar em moeda grande parte de tudo o que extraíam das minas. Foi assim que a divisa espanhola da época, o duro, transformou-se na primeira moeda global e causou também o primeiro fenômeno inflacionário de raiz monetária. Como o número de peças em circulação aumentava, a moeda de prata foi perdendo valor e a chamada ‘revolução dos preços’ atormentou o continente por cem anos, de 1540 a 1640 – tudo porque não havia um banco central que controlasse a moeda em circulação. Eis que hoje há outra moeda com a mesma proposta – nada ‘revolucionária’, portanto – de dispensar a figura de um regulador. Trata-se do bitcoin, divisa virtual por meio da qual usuários podem comprar e vender produtos (veja infográfico). Longe de oferecer qualquer risco às moedas tradicionais, os bitcoins podem ser encarados como uma experiência quase arqueológica de economia – uma forma de observar em pleno século XXI os avanços e retrocessos típicos do nascimento de qualquer sistema monetário.

Criada em 2009 pelo programador japonês Satoshi Sakamoto (que muitos acreditam ser um pseudônimo), o bitcoin está por trás de 479 transações a cada hora – um número que nada representa perto dos milhões de operações financeiras que ocorrem a cada segundo na internet com as moedas tradicionais. “É um experimento. Nunca tivemos antes uma moeda digital e descentralizada”, afirma Gavin Andresen, líder da bitcoin.org, a organização de programadores que está por trás da moeda. Tal como as primeiras divisas que as sociedades criaram, os bitcoins dispensam os controles típicos dos sistemas financeiros modernos. Com isso, flutuam sem controle ao puro sabor das leis de oferta e demanda. Enfim, sua roupagem pode ser das mais tecnológicas, mas a humanidade já viu esse tipo de volatilidade antes.

O dinheiro na história – De conchas a punhados de sal, de sacos de feijão a animais, são inúmeros os itens que ao longo da história foram empregados como instrumentos de troca. “Contudo, à medida em que os bens comercializados aumentavam, a importância de se ter um instrumento único e comum para as transações cresceu”, conta Fábio Kanczuk, professor de Economia da Universidade de São Paulo (USP). O uso da moeda para troca de bens e serviços, unidade de conta e reserva de valor já é, portanto, bastante antiga – a primeira moeda de metal surgiu na China há mais de mil anos atrás.

O uso dinheiro no começo da Idade Média na Europa, por volta do século V, era, a propósito, como o bitcoin na internet hoje: restrito a alguns círculos das relações humanas. Com a crise do sistema agrário e fechado que caracterizava o feudalismo, o meio de pagamento começou a se popularizar, conforme os camponeses rumavam às cidades em busca de oportunidades. Entre os séculos IX e XIV, durante o chamado Renascimento Comercial, a classe urbana – composta por artesãos e comerciantes – se desenvolveu e, com ela, a moeda tornou-se a maneira mais eficiente de transacionar bens e serviços.

A despeito do avanço que representou para o comércio e a economia europeia, os problemas não tardaram a aparecer. As diversas regiões detinham suas próprias moedas, cuja quantidade em circulação era indeterminada. Surgiram as primeiras crises inflacionárias de raiz monetária – como a do duro espanhol. Fez-se necessário, então, o desenvolvimento de um órgão que colocasse ordem nesta “produção de dinheiro” e desse coerência ao sistema. Aos trancos e barrancos, foram surgindo os primeiros bancos centrais: o sueco Riksbank, em 1668, e o britânico BoE (Bank of England), em 1694.

Aqui os bitcoins atuais também espelham o passado. A falta de sintonia na oferta da moeda ante a demanda já mexe com os preços, mas, no caso deste experimento, a consequência tem sido a deflação. Da mesma maneira que os sistemas monetários tradicionais, o bitcoin, caso se consolide, passará por modificações. “Eu não conheço nenhum (sistema monetário) que nunca tenha mudado. Mudanças são tão antigas quanto o próprio dinheiro”, esclareceu Edward Castronova, professor da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos.

O valor da moeda – Entre o século XIX e a Segunda Guerra Mundial, um novo aperfeiçoamento se impôs. Os países passaram a adotar o chamado ‘padrão-ouro’ pelo qual a emissão de moeda implicava a existência de determinada quantidade do metal precioso como garantia (lastro). A ideia é que, se solicitado, o portador pudesse a qualquer momento receber ouro em troca do seu dinheiro. Com as conferências de Bretton Woods, na Inglaterra, em 1944, as principais economias mundiais da época decidiram fazer uma modificação no modelo. Começava a faltar ouro para tanta moeda e as nações concordaram em atrelar suas moedas ao dólar, o qual manteve a conversibilidade direta com o ouro. Em 1971, o sistema teve nova reviravolta. O então presidente americano Richard Nixon decidiu extinguir, unilateralmente, o lastro da moeda em ouro e, em troca, passou a oferecer como garantia apenas papeis soberanos (títulos da dívida americana). “O valor de uma moeda está intimamente conectado ao poder de seu emissor”, destaca Simone Deos, economista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Stephen Gornick, morador da cidade de El Segundo, na Califórnia, é o típico programador empolgado da costa oeste. Um dos membros mais ativos do fórum do bitcoin, ele trabalhava em uma de suas startups quando ouviu falar da moeda pela primeira vez, em novembro de 2010. Convencido de que estava diante de uma solução promissora, criou vários sites relacionados à moeda, como um de leilão em que as ofertas são anunciadas em bitcoins. “Quando uso o PayPal, tenho que pagar taxas. Uma transação com bitcoin demora apenas duas horas e dispensa taxas.”

Ninguém garante – No caso do bitcoin, essa espécie de seguro (lastro) é, por ora, inexistente. É como se nada garantisse o valor da moeda digital, a não ser os bits de memória que o geram. “A grande ideia por trás do bitcoin é que não existe uma pessoa ou entidade a controlar a oferta. Todas as moedas disponíveis hoje dependem de bancos centrais, que decidem a quantidade de dinheiro que deve circular na economia”, afirma Andresen, do bitcoin.org.

Hoje, além de terem um BC como guardião, as moedas tradicionais possuem em comum a necessidade da confiança das sociedades para que possam valer alguma coisa. “Temos fé no dinheiro. É algo muito importante para a moeda”, diz Castronova. Isso significa que as pessoas depositam confiança em seus governos. Em última instância, elas acreditam que, caso algo dê errado, o dinheiro que possuem poderá ser trocado por outros bens de valor. “Quando uma moeda não tem lastro todo o jogo se baseia na confiança”, diz Kanczuk, da USP.

Riscos da moeda virtual – Inspirar confiança não é o forte dos bitcoins – exceto, talvez, para um reduzido número de aficionados por tecnologia. Muitas dúvidas ainda pairam sobre seu funcionamento, a começar pela maneira como são gerados. O usuário tem de ser cadastrar no site http://www.bitcoin.org, baixar um programa de compartilhamento de arquivos e receber uma identificação. A geração da moeda virtual é extremamente complexa: um computador com capacidade de processamento convencional pode levar de cinco a quinze anos para criar 50 bitcoins (veja infográfico).

A oferta total de bitcoins na rede é restrita a 21 milhões de unidades – hoje há cerca de 6,5 milhões – e alguns economistas já apontam que essa rigidez torna o sistema vulnerável. “Se a oferta de moeda é fixa, existe a possibilidade de fenômenos inconvenientes aparecerem. Como um número maior de unidades de bitcoins não é colocado em circulação, as pessoas podem parar de ofertar bens e serviços em troca delas”, prevê Kanczuk. Castronova, da Universidade de Indiana, acredita que, dada esta limitação, o sistema só funcionará se todos de fato se empenharem em fazer circular seus bitcoins com grande regularidade.

Prestar serviços, vender ou comprar produtos utilizando bitcoins é uma atividade para poucos. O dinâmico setor de e-commerce, por ora, passa ao largo dessa discussão e a divisa acabou se tornando uma excentricidade de geeks. Ainda assim, este público tem demandado mais bitcoins que o sistema foi programado para oferecer. O resultado é que sua cotação é volátil e crescente – os bitcoins variaram, em dois meses, de sete para 30 dólares. Os preços dos bens e serviços cotados exclusivamente em bitcoins – que vão desde músicas e livros em alguns sites, a trabalhos de design em outros – por sua vez, declinaram. É um típico fenômeno de deflação.

Segurança em xeque – Outra questão controversa é que a moeda virtual ainda não inspira grande segurança. Nada garante que os bitcoins de uma pessoa que decidiu aderir a esse mercado não virarão pó do dia para a noite. Há algumas semanas, a MT Gox – maior casa de câmbio de bitcoins do mundo – sofreu uma falha de sistema que gerou o desaparecimento de 500.000 bitcoins. Segundo o economista especializado em internet Adam Cohen, problemas como esse acentuam a falta de confiança do mercado em uma moeda virtual. “Falhas de segurança tornam uma moeda volátil. Como o bitcoin está competindo com divisas estáveis, como o dólar, o euro e o real, é pouco provável que se torne, algum dia, uma moeda primária para alguém”, diz.

O fator “novidade”, na avaliação de Cohen, é o único ponto que torna a moeda virtual atrativa. “As pessoas podem usá-la para propósitos específicos, como jogos online, por exemplo, mas elas não irão acumular dinheiro em bitcoins para fugir de taxas bancárias. Isso não faz o menor sentido”, afirma.

Dragonai, como é conhecido o músico de 16 anos em seus perfis on-line, é fã do bitcoin há dois meses. O adolescente, que diz gostar particularmente do fato de a moeda ser descentralizada, está vendendo seu segundo álbum on-line por 0,2 bitcoin. É um dos poucos anunciantes do site Bitcoin Classifieds que já possui feedback positivo de seu serviço. “Antes de saber de bitcoins, disponibilizei meu primeiro álbum para download gratuito. Não fazia mesmo sentido colocá-lo a venda, pois não era tão bom”, brinca.

No entanto, apesar de parecer inofensiva e de poucos adeptos, a nova moeda virtual está incomodando o “mundo real” por outra razão específica: o flerte com a ilegalidade. O governo americano descobriu que internautas estavam usando o site de jogos Silk Road para comprar substâncias ilegais com bitcoins, de acordo com a reportagem do site Gawker. O tema despertou a atenção dos senadores Charles Schumer e Joe Manchin, que pediram ao advogado-geral da Casa Branca, Eric Holder, que tomasse providências contra os bitcoins. Tais medidas poderiam incluir desde a regulação da moeda pelo banco central americano até a proibição de seu uso.

O serviço PayPal chegou a bloquear recentemente as contas de duas empresas que comercializam a moeda. Segundo a porta-voz da PayPal, Adriana Bello, a atividade exercida pelas companhias era conflitante com a política interna do grupo. “Essa política restringe atividades como venda de armas, pedofilia e jogatina e venda de moedas”, diz Adriana.

Idealismo – “O objetivo do projeto é criar uma moeda estável e eficiente”, diz Andresen, do bitcoin.org. Para ele, essa é a primeira moeda transparente do mundo, visto que todas as transações com bitcoins são públicas. “É possível criar um sistema sujeito a auditorias”, completou.

A moeda virtual, por enquanto, segue distante da tão sonhada estabilidade e refém de uma série de outras variáveis, como a aceitação do governo e, mais importante, das pessoas. “A consolidação de um sistema monetário passa por diversos processos, inclusive o legal e o de credibilidade”, diz César Frade, economista do Ibmec.

Assim como o sistema monetário da atualidade demorou séculos para acertar seus passos, o bitcoin terá de percorrer caminho semelhante. Como realidade, ainda não se firmou, mas, como uma louca viagem pela história econômica, o bitcoin é bastante elucidativo.