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Argentina decide pagar dívida de US$ 1 bilhão com credores americanos

Decisão inesperada foi anunciada na manhã desta quinta pelo ministro Axel Kicilloff; pagamento foi feito antes do prazo de 30 de junho

Em meio à disputa judicial com os fundos de hedge que detêm bônus de sua dívida, a Argentina surpreendeu o mercado e anunciou, nesta quinta-feira, que saldou suas obrigações que venceriam em 30 de junho. O anúncio foi feito nesta manhã pelo ministro da Economia, Axel Kicillof, o chefe de gabinete do governo, Jorge Capitanich, e o secretário Técnica, Carlos Zannini. O pagamento, segundo o ministro, é de “cerca de 1 bilhão de dólares”.

O que são fundos abutres?

Fundo abutre é um jargão do mercado financeiro usado para classificar fundos de hedge que investem em papéis de países que deram calote – atuam, em especial, na América Latina e na África. Sua atuação é perfeitamente legítima. O termo abutre foi criado para diferenciá-los dos fundos convencionais, justamente por trabalharem como ‘agiotas’ de países caloteiros, emprestando dinheiro em troca de ‘títulos podres’. São considerados pelo mercado uma espécie de ‘investidor de segunda linha’. Sua atuação consiste em comprar títulos da dívida de nações em default por valor irrisório para depois acionar o país na justiça e tentar receber ganhos integrais. Os ‘abutres’ compraram os papéis da dívida argentina por 48,7 milhões de dólares em 2001 e querem receber, hoje, cerca de 1 bilhão de dólares. A Argentina, por sua vez, tenta escapar do pagamento. O país teme que, caso aceite pagar os ‘abutres’ integralmente, os 92% de credores que aceitaram a renegociação da dívida em 2005 e 2010 possam buscar na Justiça o direito de receber ganhos integrais. Neste caso, o pagamento poderia reduzir as reservas internacionais do país a praticamente zero. Outro agravante é que, devido ao histórico de calotes e decisões econômicas escandalosas do país, sua credibilidade para negociar com credores está fortemente abalada.

O depósito foi feito nesta quinta, quatro dias antes do vencimento e mais de um mês antes do prazo máximo antes de ser declarado o calote, que seria em 30 de julho. O pagamento ocorreu um dia depois da viagem de Kicillof a Nova York, onde discursou na assembleia da ONU e fez um apelo para que o juiz americano Thomas Griesa reconsiderasse a decisão que forçava a Argentina a efetuar o pagamento de 1,33 bilhão de dólares aos credores. “Diante disso, a Argentina ratifica sua firme e irrestrita vontade de honrar suas dívidas e descartar qualquer interpretação capciosa que implique a menção do eufemismo ‘default técnico'”, afirmou Kicilloff em seu discurso.

O pagamento anunciado nesta quinta contraria o plano inicial proposto pela Argentina na semana passada, de adiantar entre 300 milhões e 400 milhões de dólares em dinheiro aos credores e saldar o restante da dívida por meio de novas emissões escalonadas de títulos públicos. Desde a decisão do juiz Griesa, há pouco mais de uma semana, o governo argentino não havia dado sinais de que pagaria o total da dívida até o prazo de 30 de junho. Aventou-se, inclusive, a séria possibilidade de calote, fazendo com que a bolsa de Buenos Aires despencasse.

Os fundos de hedge, chamados pelo governo argentino de ”fundos abutres”, não aceitaram a reestruturação da dívida proposta pelo governo Kirchner em 2010 e respondem por 7% dos credores. O que a Casa Rosada teme é que a vitória dos fundos na Corte na última semana não só tenha servido para resolver o imbróglio, mas também possa abrir precedentes para que outros fundos que aceitaram as condições de reestruturação busquem mais ganhos por meios legais. Estimativa da Moody’s aponta que, caso os demais credores também entrem na Justiça, a Argentina poderá ter de desembolsar mais de 16 bilhões de dólares – valor considerado inviável diante das baixas reservas internacionais do país, que estão em torno de 28,6 bilhões de dólares.

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