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Academias investem em segmentação para driblar onda low-cost

Para lidar com as mudanças do setor, muitas academias preferiram se especializar e oferecer serviços para públicos específicos

A expansão da rede Smart Fit, modelo de academia baixo custo, obrigou todo setor a se reinventar. Com planos mensais de R$ 59,90, a Smart Fit engoliu concorrentes e se tornou a maior rede de academias do país.

“Esse mercado não era atendido. Só existia academia de rico. A gente resolveu atender essa turma menos favorecida, entregando um produto top. Essa foi a grande ideia”, afirma Edgard Corona, presidente e fundador do Grupo Bio Ritmo e Smart Fit.

Mesmo na liderança, o grupo também tenta se manter atualizado para oferecer aos clientes serviços cada vez mais personalizados.

“Trabalhando fortemente nos últimos anos para melhorar a Smart Fit, e quando você a melhora, ela passa mais consistência e coloca um pouco de pressão nessas academias tradicionais. Nós tivemos que nos reinventar tanto na Smart quanto na Bio Ritmo”, diz.

A Bio Ritmo trabalha com o objetivo de oferecer experiências aos alunos durante as aulas. O grupo criou um modelo chamado de “Mall Fitness”, que são microacademias dentro das próprias unidades. Neste conceito, o aluno pode comprar cada treino (custa 45 reais cada um), sem precisar pagar mensalidade. São cinco tipos de exercício, cada um com seu propósito. O “Race Bootcamp”, por exemplo, é realizado em uma sala com iluminação diferenciada e com sensibilidade térmica. Das 30 unidades, 18 já contam com essas atividades. As outras estão sendo preparadas.

“As academias tradicionais têm um projeto que possui uma linguagem só. Na sala de ginástica, o cara também faz musculação, tudo com a mesma cara. Nós entendemos que o cliente não quer apenas fazer aula. Ele quer viver uma experiência. Deixamos o espaço mais lúdico, mais motivante”, diz Corona.

A Runner também tenta se adequar às novas exigências do consumidor, mas sem aderir ao modelo de baixo custo.  “Não faria sentido para nós partir para o modelo ‘low cost’, ignorando toda a expertise de 30 anos de prestação de serviços. Por tudo isso, hoje atuamos com academias menores, com serviços cada vez mais diferenciados e usando tudo o que a tecnologia oferece de mais moderno para nossos clientes”, diz Patrícia Madureira, nova CEO da Runner.

Segmentação

Para lidar com as mudanças do setor, muitas academias preferiram se especializar e oferecer serviços para públicos específicos. Esse é o caso das unidades focadas em faixa etária (bebês ou idosos), gênero (só mulheres) e atividades (natação ou yoga).

A Baby Gym, por exemplo, foca nos bebês. Aberta em 2016, tem hoje quatro unidades (três no Rio Grande do Sul e uma no Rio de Janeiro) e atende crianças de dois meses a quatro anos.

“A gente trabalha com atividades que desenvolvem a parte motora, física, o raciocínio, sensorial, emocional e social. E as mães participam das aulas. Elas aprendem como fazer atividades para o bebê, para ele ficar em pé, engatinhar, sustentar a cabeça, rolar. Cada mãe faz a atividade”, diz Luciana Vidal, proprietária da loja de Niterói.

Em São Paulo, a Vincere visa os idosos. A média de idade dos 150 alunos matriculados na academia é de 60 anos. De acordo com o proprietário, Carlos Pascotto, 70% dos clientes têm mais de 60 anos.

“É um mercado crescente. Eu identifiquei essa carência, depois o bairro que tinha o perfil de compra [Moema, no caso] e comecei a desenvolver protocolos de adaptação desses treinamentos para esse público. Eu consigo personalizar um treino para cada um”, afirma Pascotto, que ressalta a importância do acompanhamento de perto desse público.

“Os nossos equipamentos são todos de baixo impacto na realização de movimento. Eu tenho protocolos de atendimento e vivo muito de patologia. Esses alunos já carregam alguma coisa crônica e não podem fazer um exercício que qualquer um faz. Após uma avaliação, a gente descobre os pontos-gatilho e trabalhamos no fortalecimento e na estabilização seguimentar para evitar lesões em outras áreas”, afirma.

A Contours, por sua vez, foca especificamente nas mulheres. A rede norte-americana desembarcou no Brasil em 2004 e tem hoje 19 unidades no Brasil, sendo 14 em São Paulo. Elaine Pereira, gerente de operações da empresa, diz que há planos de expansão, já que o setor voltou a aquecer neste ano depois do baque que sofreu em 2015, sobretudo por causa dos problemas econômicos do país.

Ela conta que uma academia segmentada para mulheres fideliza a cliente e oferece um ambiente com maior privacidade. “A mulher é mais emocional. Algumas não gostam de academias convencionais porque, às vezes, alguns homens ficam olhando. Além disso, temos aparelhos específicos para mulheres e oferecemos um ciclo de acompanhamento para elas”, diz.

Para Marcus Quintella, professor da FGV (Fundação Getulio Vargas), essas academias segmentadas têm tudo para prosperar, visto que o público quer, cada vez mais, um serviço específico, que atenda justamente aquilo que está buscando.

“O sujeito que entra numa academia tradicional paga um bom dinheiro e vê muita coisa. Mas ele pode pegar 50 reais e fazer apenas o que quer numa academia menor”, afirma Quintella. “Vemos academias gigantes, com espaços monstruosos, caríssimos. Elas não vão conseguir um número de alunos para sustentar tudo isso”, diz.