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A reconfiguração chinesa

Para o ganhador do Nobel Michael Spence, a China não tem outra escolha que não rever o seu modelo de crescimento

Apesar da desaceleração econômica na China, amplamente discutida de forma tão generalizada, o crescimento anual do PIB continua superando os 7%, o que constitui um grande motivo de apreensão – pelo menos por enquanto. A questão que todos se perguntam é se as medidas adotadas pelo governo para aplicar as reformas estruturais e transformar o modelo de crescimento da economia estão funcionando, ou seja, se os desequilíbrios internos continuam ameaçando o desempenho econômico a longo prazo. Dado que a China continua sendo o mais importante motor de crescimento da economia global, a resposta interessa a todos.

Para uma avaliação da estabilidade econômica chinesa é necessário considerar os conflitos e tensões que afetam o país – nenhum dos quais contribui com a causa do crescimento. Para começar, disputas territoriais da China com muitos dos seus vizinhos, incluindo o Japão, Vietnã e Filipinas estão minando a paz regional, para não mencionar a integração econômica.

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Além disso, as relações entre a China e os Estados Unidos estão se deteriorando devido a tensões em torno do “pivô da Ásia”, assim cunhado pela política externa norte-americana, bem como as disputas sobre segurança cibernética. A China já restringiu o acesso ao seu mercado a algumas empresas de tecnologia norte-americanas.

Enquanto isso, o sistema político nacional chinês é impactado pela campanha anticorrupção do presidente Xi Jinping – um esforço que é essencial para reforçar a responsabilidade e a legitimidade do governo em um momento de profundas reformas do sistema. No entanto, em um momento de crescentes tensões internacionais, há um risco de que a campanha do presidente Xi se converta em um ataque mais amplo na dissidência política, atribuída a influências estrangeiras “corruptas”.

Desde que a China lançou seu processo de “reforma e abertura”, há mais de três décadas, o país se beneficiou da vontade de fundir-se às ideias estrangeiras – e se adaptou rapidamente. Em muitas áreas (como a política econômica dentro de uma economia de mercado, a gestão empresarial, tecnologia, energia, ambiente e saúde, para citar algumas), a aprendizagem seletiva tem acelerado o desenvolvimento do país (e também beneficiou os países que têm aprendido com a experiência chinesa). Incorporar as influencias exteriores com uma legitima campanha anticorrupção poderia colocar em crise essa dinâmica positiva com consequências potencialmente graves para as esse desafio de a China reformular o modelo de crescimento e alcançar o status de país de alta renda.

No entanto, boa notícia é que os dados – ainda que incompletos – mostram avanços na transformação econômica da China. O crescimento lento nos principais mercados de exportação (particularmente na Europa, América do Norte e Japão), juntamente com o rápido aumento de salários e rendimentos internos levam o setor de bens comercializáveis a altos níveis nas cadeias globais de abastecimento. Entretanto, a inflação, o aumento de salários e a apreciação nominal do renminbi tem impulsionado a taxa de câmbio real efetiva, embora essa tendência tenha sido moderada, em certa medida, pelo persistente valor elevado do euro. A forma como as empresas lidam com essa transição – que já está contribuindo para a desaceleração do crescimento da China – irá determinar o progresso dessa transformação.

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A China não tem outra escolha que não rever o seu modelo de crescimento. A participação do país nos mercados globais é agora tão grande que, pela primeira vez em quatro décadas, a economia poderia desacelerar devido à demanda. A única maneira de evitar esse resultado é implementar um programa equilibrado que envolvam investimentos rentáveis, serviços públicos de alta qualidade, bem como um maior nível de consumo das famílias.

Investimentos públicos e privados – que têm desempenhado um papel fundamental no crescimento da China nas últimas quatro décadas – podem jogar um papel fundamental na expansão de demanda interna, mas somente se os rendimentos permanecerem elevados. Enquanto os investimentos de baixo retorno geram demanda agregada, não são capazes de aumentar rendimentos futuros, nem o potencial produtivo e, portanto, não fomentam um crescimento sustentável.

Diante disso, os líderes da China têm a responsabilidade de recorrer a uma combinação de reformas do setor financeiro e melhorar os mecanismos de incentivo do setor público a fim de aumentar o acesso ao capital em setores com altas taxas de retorno potenciais. Este processo, na verdade, já está em andamento através da concessão de licenças para novos bancos privados bem como o desenvolvimento do sistema bancário paralelo (shadow banking) da China.

Dada a capacidade limitada de demanda de investimento para estimular o crescimento, os serviços públicos de alta qualidade também são necessários, assim como um aumento do consumo doméstico Tal como está, o consumo privado representa uma parte muito pequena de PIB chinês, mas o aumento de salários – em parte resultado de aumentos de salário mínimo obrigatórios em algumas regiões – está impulsionando os rendimentos do agregado familiar, e já há algumas evidências que indicam uma reversão da tendência decrescente observada na porcentagem do PIB correspondente ao consumo.

Considere a indústria de equipamentos de telecomunicações, que tem crescido em mais de 15% ao ano nos últimos dois anos. O volume bruto de mercadoria nas vendas de varejo on-line está se aproximando dos 2 trilhões de Yuan (316 bilhões de dólares) para uma taxa anual de crescimento entre 40 e60 por cento. Muitos outros segmentos da indústria que atendem a demanda doméstica também estão crescendo a taxas de dois dígitos, sugerindo que o consumo interno já está fazendo uma contribuição mais significativa para o crescimento do PIB da China.

Mas resta saber se a porcentagem de crescimento do consumo é sustentável – ou seja, se é o resultado de um crescimento da quota de receitas ou aumento da alavancagem. No caso de ser baseado na alavancagem excessiva, o que efetivamente acontece é transladar o consumo futuro para o presente, a China poderia enfrentar um abrandamento significativo – ou até mesmo uma grande crise.

Não há duvidas de que a alavancagem aumentou a patamares insustentáveis nos últimos anos, mas uma vez que o crescimento da dívida começou a partir de uma base baixa, não necessariamente conduzirá a uma crise – sempre e quando se faça uma gestão de risco adequada. O mais importante é que as atividades do sistema bancário paralelo devem ser regulamentadas de forma que reforce a transparência e intimidem a assunção de riscos excessiva, permitindo que o setor continue a contribuir para o desenvolvimento do setor financeiro, fornecendo opções de poupança para as famílias e de crédito para pequenas e médias empresas.

Quanto ao setor bancário oficial, a liberalização das taxas de juros sobre depósitos, previstas para 2016, reduzirá a repressão financeira e os subsídios de investimento implícito, o que, por sua vez, deve ajudar a reequilibrar o lado da demanda no padrão de crescimento.

Tais alterações estruturais complexas não podem ser sincronizadas e, portanto, são susceptíveis de ser acompanhadas de uma diminuição das taxas de crescimento. O governo manifestou a vontade de aceitar um crescimento um pouco mais lento em benefício de uma economia mais estável e sustentável, mas não será evidente desde o início se um abrandamento é o princípio de uma tendência ou uma aspecto temporário de uma transição complexa. Garantir que se trate do problema exigirá paciência e disciplina – tanto na política interna como na externa – apropriadas com a importante transformação agora está em andamento.

Michael Spence foi laureado com o Nobel de Economia, é professor da Universidade de Nova York e pesquisador sênior na Universidade de Stanford. Seu livro mais recente é A Próxima Convergência: O Futuro do Crescimento Econômico em um Mundo Acelerado.

© Project Syndicate, 2014

(Tradução: Roseli Honório)